Comédia da Vida Pública

Nunca vi, em tamanha proporção, a cegueira política dos brasileiros. O país visceralmente polarizou-se em dois grupos: “esquerdopatas” e “bolsominions”.

Os primeiros são normalmente conhecidos pela defesa incondicional do ex-presidente Lula, rechaçando qualquer argumento que venha a macular a áurea do político (quase canonizado em vida). Consideram-se arautos da defesa dos direitos humanos, da socialdemocracia, da educação e saúde públicas. Já os “bolsominions” posicionam-se no ponto oposto, defendem o conservadorismo, o moralismo e se travestem de fundamentalistas religiosos. Veem no Presidente da República, Jair Bolsonaro, o único antídoto contra os males do país.

Os dois grupos, aparentemente inconfundíveis, apontam lamentáveis elementos em comum: a ira, a cegueira, a incapacidade para o debate razoável e a intolerância a críticas.

Como democrata, não me identifico com nenhum dos dois grupos e nem com partidarismos patológicos. Nunca foi afeto à política partidária e, nessa fase, meu ceticismo aos representantes eleitos pelo povo beira à descrença e à indiferença.

Todavia, ainda que distante das contendas ideológicas que invadem o país, um aspecto da atual gestão pública me deixa aparvalhado: o extremo despreparo dos escolhidos por Bolsonaro para os cargos de relevância pública.

Da ditadura à Nova República, nunca vi tanta gente sem a mínima condição de exercer sequer o múnus de estagiário de uma câmara de vereadores do mais diminuto município do país.

É justa à crítica à ditadura por vilipêndio às liberdades individuais, mas jamais se poderia dizer que Delfim Netto era um tolo. Odiassem a fórmula petista de gerir o país, mas quem é capaz de alfinetar que Cristovam Buarque não entendia de educação?

Sempre houve um ou vários despreparados nas governanças federais que se sucederam (até mais do que o desejável), mas repito a quantidade de néscios por metro quadrado ao derredor da Presidência da República, nos dias atuais, é um recorde histórico.

Como se apõe uma sacerdotisa fundamentalista à frente da pasta que tem como alvo a tutela dos direitos humanos? Alguém que vocifera contra teses científicas, enaltece o empirismo religioso e desconhece a realidade de minorias e grupos vulneráveis?

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mandou cortar em 24% o orçamento anual previsto para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), principal órgão de fiscalização à preservação ambiental. Como se não bastasse, pretende restringir o poder de polícia das autoridades fiscalizatórias na apreensão de equipamentos.

Não se pode esquecer-se do Ernesto Araújo, nas Relações Exteriores, sustentando a constrangedora tese de que o nazismo de Adolf Hitler foi um movimento de esquerda, apenas porque o partido do déspota se chamava “Nacional Socialista”.

Na educação, a tragédia não é menor. A restrição, imposta por aparente divergência ideológica, a instituições de ensino federal, com o assombroso corte de quase 30% do orçamento, inviabiliza, segundo vários reitores, o funcionamento de universidades.

Até as estrelas maiores da constelação “bolsonariana” ainda não mostraram para que vieram. Refiro-me a Sérgio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia). O primeiro ainda não conseguiu emplacar o pacote anticorrupção e tampouco apresentar pacto nacional de combate à violência urbana. Celebrizou-se, no governo, como o responsável pela introdução do vocábulo “conge” no dicionário informal da língua portuguesa. Já nas mãos de Guedes, o país amarga desemprego e estagnação econômica.

Na atual conjuntura, tem até “guru”, o astrólogo e dublê de filósofo Olavo de Carvalho. É melhor que eu termine por aqui. A continuar, o texto daria um folhetim com capítulos semanais intermináveis. Se não fosse trágico, certamente seria a mais interessante comédia da vida pública desde sempre.

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