Acidente vascular cerebral: Desafios no reconhecimento e tratamento

Quando observamos o envelhecimento da população, naturalmente somos obrigados a buscar formas mais eficientes de comunicação entre os serviços de saúde e a população, visando, sobretudo, diagnósticos mais precoces e tratamentos mais efetivos, em particular no diagnóstico e tratamento das doenças crônicas degenerativas.

Neste publieditorial, focaremos nossa atenção em uma doença grave, que ocorre majoritariamente na população idosa e que, em geral, passa despercebida devido aos seus sintomas transitórios, que, muitas vezes, não são valorizados pelo paciente, familiares e até mesmo pela equipe de saúde.

Referimo-nos aos Acidentes Vasculares Cerebrais, primeira causa de morte no Brasil, que ocorre principalmente em pessoas idosas, com fatores de risco tais como: hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, dislipidemia, obesidade, vida sedentária e histórico familiar.

Tipos de AVC

Numa linguagem simples podemos dizer que, existem dois tipos de AVCs – o hemorrágico e o isquêmico, sendo o isquêmico o mais frequente (80 – 85% dos casos são isquêmicos e 15 – 20% são hemorrágicos).

Os AVCs isquêmicos ocorrem quando um trombo se desloca de uma parte do corpo, muito frequentemente do coração, e obstrui uma artéria cerebral, de forma sutil e transitória ou de forma mais extensa e duradoura. A consequência imediata é a falta de sangue em uma parte do cérebro, desenvolvimento de isquemia, e, se não tratada rapidamente, a morte cerebral, o que nada mais significa que a perda definitiva da função das células neuronais responsáveis pelas mais diferentes funções sensitivas e motoras do nosso organismo.

Os AVCs isquêmicos podem ocorrer também por obstrução lenta e progressiva das artérias cerebrais por placas de gordura que se depositam ao longo da vida. Este processo, chamado de aterosclerose, começa muito precoce na vida do ser humano, pois placas de gorduras nas coronárias já são detectadas em corações fetais.

Os AVCs hemorrágicos, menos frequentes, ocorrem devido a uma má-formação de vasos intracranianos, aneurismas cerebrais que, em determinado momento, podem se romper e inundam o cérebro com sangue, comprimido células nervosas e levando a morte cerebral. Pode decorrer também, em pacientes com hipertensão arterial não controlada, picos hipertensivos que levam ao rompimento súbito de vasos cerebrais. Em geral, os AVCs hemorrágicos são mais graves do que os isquêmicos, mais isto varia de pessoa a pessoa, de caso a caso. Cada indivíduo tem uma resposta fisiológica diferente para um mesmo tipo de agressão cerebral e/ou vascular.

Estima-se que ocorrem 600 milhões de AVCs anualmente no mundo. Deste grupo 1/3 se recupera, 1/3 morre, 1/3 fica com sequelas importantes para toda a vida. Uma em cada seis pessoas no mundo vai sofrer um AVC ao longo da vida.

 

Desafios para os familiares: reconhecer os sintomas precocemente 

 

Os desafios para o diagnóstico e tratamento dos AVCs são gigantescos e passam, em primeiro lugar, pelo reconhecimento precoce dos sintomas e sinais.  Dificuldade para falar, confusão mental, diminuição de força em um dos membros, dormência em um lado do corpo ou na face, cefaleia intensa acompanhada ou não de vômitos são alguns sinais que podem indicar o início de um AVC.

Pessoas que, subitamente, não conseguem realizar atividades simples como abrir uma fechadura, apresentam dificuldades para falar, desconhecem os familiares, repetem as mesmas palavras por diversas vezes, podem estar dando sinais de um AVC. Os familiares, então, devem ficar atentos e, caso reconheçam esses sintomas, devem imediatamente procurar um serviço médico que obtenha os recursos necessários para o diagnóstico.

 

Desafios da equipe médica

Diferente do Infarto do Miocárdio, situação em que as equipes médicas estão mais antenadas e familiarizadas com o diagnóstico, a maioria dos AVCs, sobretudo aqueles com sintomas transitórios, passam despercebidos nas Unidades de Emergência. É preciso que todos os profissionais de saúde estejam bem orientados para reconhecer precocemente esta situação, dita grave, e que as medidas de diagnóstico e tratamento sejam rapidamente estabelecidas e um plano terapêutico seja desencadeado.

 

Desafios do Sistema de Saúde

Serviços públicos e privados devem estar preparados com equipes treinadas adequadamente e equipamentos de precisão para o reconhecimento precoce do AVC, como a tomografia computadorizada e até mesmo, em alguns casos, ressonância magnética (que deve ser disponibilizada 24h por dia) para que o diagnóstico seja rapidamente confirmado e a terapêutica instituída.

Avançamos muito nos últimos anos no tratamento de AVCs e, para que o paciente se beneficie, é fundamental que o diagnóstico seja precoce e o tratamento seja rapidamente instituído. Estes são desafios gigantes para todo o sistema de saúde, público ou privado. Quando estamos diante de um paciente com angina ou infarto, dizemos que músculo é vida e tempo é ouro, ou seja, precisamos agir rapidamente. Nos casos de AVC precisamos agir da mesma forma. Como no coração, tempo é célula nervosa, neurônio e é de fundamental importância que os tempos definidos para o diagnóstico e o tratamento sejam estabelecidos com base nos protocolos existentes.

 

Rapidez no diagnóstico e no tratamento

Quanto mais cedo o paciente procurar um serviço médico, dotado de recursos para um tratamento efetivo, maior a chance de sobrevivência e redução de eventuais sequelas.

Recomendamos que a partir do início dos sintomas a imediata revascularização (ou seja, a restauração do fluxo sanguíneo à a parte afetada do cérebro) seja de 2 horas. Neste sentido, após a abordagem inicial pelo médico, devemos realizar a tomografia o mais breve possível (o que muitas vezes não é possível, dado a burocracia impostas pelos convênios para autorizar o exame). Vale ressaltar que, muitas vezes o exame tomográfico não apresenta nenhuma anormalidade, sendo assim o médico, normalmente, libera o paciente para casa. Isto não deve ocorrer, muito pelo contrário, diante de um paciente com sintomas de AVC e uma tomografia normal, pode ser o momento ideal para o neurointervencionista proceder ao tratamento correto, seja por via endovenosa, seja no laboratório de cateterismo onde a artéria pode ser recanalizada.

 

Posição do Memorial São Francisco – Unidade de Stroke (AVC)

O Memorial São Francisco tem no seu plano estratégico 2018-2020 ser uma unidade de referência para o tratamento das doenças cardiovasculares e neurológicas. Toda equipe, desde a emergência a unidade de cuidados intensivos, está sendo treinada, para que os protocolos assistenciais sejam rigorosamente aplicados, usando a melhor da medicina baseada em evidência e buscando individualizar o tratamento, de acordo com o perfil de cada paciente. Isto significa que os protocolos devem ser roteiros para que o médico especialista faça a adequação de acordo com as características clínicas e comorbidades do paciente.

EQUIPE DO MEMORIAL – NEUROLOGIA, NEUROCIRURGIA E NEUROINTERVENÇÃO – UNIDADE DE AVC – UNIDADE DE TRATAMENTO DE PARKINSON E EPILEPSIA

UTI NEUROLÓGICA – RESPONSÁVEL TÉCNICO – DR. VALDIR DELMIRO

NEUROINTERVENÇÃO – DR VALDIR DELMIRO

CIRURGIA DA COLUNA – DR. RONALD LUCENA

TRATAMENTO PARKINSON E EPILEPSIA – DR. RODRIGO MARMO E MAURUS HOLANDA

COORDENADOR GERAL DAS UTIS – DR. CARLOS MARXIMILIANO

DIARISTA – DRA. WANESKA LUCENA E DR. NAPOLEON RODRIGUES