O Cachaçólogo, o Cachacier e o Cachaceiro

Muita gente pensa que cachaçólogo ou cachacier são a mesma coisa, outras nunca nem ouviram falar, mas vamos aos conceitos:

O Cachaçólogo é o estudioso da cachaça. Uma pessoa para ser um cachaçólogo não necessariamente precisa ser um grande conhecedor das propriedades sensoriais da bebida ou ter as habilidades degustativas tão apuradas, mas deve ser um estudioso sobre a história, cultura e ciência da cachaça e ajudar a registrar e divulgar todo esse conhecimento sobre o destilado. Se formos fazer uma comparação, a figura do cachaçólogo está para a cachaça, assim como o enólogo está para o vinho.

Já o Cachacier ou Cachacista é um profissional especializado em cachaças e todos os assuntos relacionados a ela. É o profissional que orienta os clientes de um bar ou restaurante sobre como e qual cachaça beber, dando informações sobre harmonização. Conhece profundamente todas as etapas de produção da bebida, do plantio da cana-de-açúcar até o engarrafamento e distribuição. Conhece sobre envelhecimento e madeiras das cachaças. Possui grandes habilidades degustativas. Cuida da compra, armazenamento e seleção de marcas e elabora cartas de cachaças em restaurantes, bares e hotéis. Conduz palestras e degustações para o público e presta consultoria a produtores e distribuidores de cachaça. O cachacier está para a cachaça assim como o someleir está para o vinho.

Por sua vez, o termo “cachaceiro” muitas vezes é atribuído, de modo muito pejorativo, às pessoas que bebem de forma irresponsável e sem limites. Na verdade, de cachaceiros deveriam ser chamados (para que a palavra tenha o seu uso correto) os produtores de cachaça, já que o sufíxo latino “…eiro” denota “aquele que faz”, como: cervejeiro, ferreiro, padeiro, etc. O mais indicado para se referir aos que bebem excessivamente seria chamá-los de ébrios ou alcoólatras. Assim, para fecharmos as comparações, o cachaceiro está para a cachaça assim como o “chef” está para o prato.

Então, da próxima vez em que você se referir a alguém que bebe demais, deixe a pobre da cachaça fora disso.

O que Bolsonaro tem a aprender com os “cachaceiros”

 

Há algumas semanas,  em resposta à declaração do ex-presidente Lula, de que o país está sendo governado por “um bando de malucos”, o Presidente da República  disparou que pelo menos não era governado por  “um bando de cachaceiros”.

Por óbvio, todos nós achamos a declaração lamentável. Se a intenção de Bolsonaro era se referir a um eventual abuso do uso de álcool pelo Lula, ele poderia ter usado termos como “bêbados”, “alcoólicos”, “ébrios”… Ao escolher “cachaceiro”, O termo lança sobre um único produto específico (A CACHAÇA)  todo o peso dos problemas do abuso do álcool, Bolsonaro alimenta preconceitos arraigados que são um grande obstáculo ao desenvolvimento do nosso destilado nacional, símbolo e orgulho do país.

Melhor fez o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que presenteou o ministro da Justiça, Sérgio Moro, com uma cesta de produtos mineiros, incluindo a Cachaça. Zema demonstrou consciência do valor econômico e simbólico da Cachaça, um produto com cinco séculos de história no Brasil e qualidades equivalentes às de qualquer um dos melhores destilados do planeta.

Se a cachaça mineira pode representar e refletir o valor de Minas Gerias e do seu povo, o mesmo vale para a Cachaça produzida em alto nível em muitos estados brasileiros, por exemplo, aqui na  Paraíba, a cachaça já é tida e vista por muitos como um produto representativo do nosso estado. E isso se deve ao trabalho e perseverança dos “cachaceiros” (que é o termo correto dados aos produtores de cachaça). Pessoas abnegadas e trabalhadoras que lutam contra vários fatores internos e externos para dignificar nosso destilado nacional.

Alguém seria capaz de imaginar o presidente francês dizendo que seus adversários são “um bando de bebedores de champagne”? Ou a Thereza  May da Inglaterra dizendo que seus adversários políticos são “um bando de bebedores de  wisque”? Iam levar era uma vaia e talvez um processo de impechmant.

Britânicos, franceses, russos, mexicanos orgulham-se e valorizam as suas bebidas nacionais. É exemplo que deveríamos seguir, inclusive o Sr. Presidente.

A Paraíba na EXPOCACHAÇA 2019

 

A EXPOCACHAÇA 2019

De 06 a 09 de junho de 2019, acontecerá em Belo Horizonte, Minas Gerais, a 29ª Expochaça e a 13ª Brasilbier, no Expominas, a maior e mais importante e conceituada vitrine mundial da cadeia produtiva e de valor da cachaça. O evento  nasceu em Minas Gerais em 1998, ha 21 anos, e ganhou a liderança no Brasil e visibilidade mundial.

A Feira será realizada em conjunto com a 13ª Brasilbier unindo as duas cadeias produtivas de bebidas artesanais  a cachaça e as cervejas artesanais.

A Expocachaça foi a principal responsável pela visibilidade atingida e pelo status de destilado nobre retirando a cachaça do gueto a que esteve relegada por muitos anos, dando promoção e divulgação à bebida nos mercados interno e externo.

Como não poderia deixar de ser, a Paraíba estará presente ao evento. A Associação dos Produtores de Cachaça de Areia, com o apoio do Prefeitura de Areia e do SEBRAE, fará, pelo segundo ano consecutivo, a exposição e degustação das cachaças produzidas nessa tradicional região produtora de cachaças da Paraíba.

O objetivo específico dos expositores paraibanos é utilizar a força e o pioneirismo do evento e a sua posição de maior e mais conceituada Feira e vitrine da cadeia produtiva da cachaça do mundo, para fomentar negócios, promover e divulgar as marcas paraibanas. Como meta geral eles buscam promover ações estratégicas de modo a ter influência nos ambientes politico, institucional da mídia e do mercado, gerando impactos significativos nas tomadas de decisões em prol da promoção, divulgação e desenvolvimento do setor.

Cachaça: breve história da ascensão do destilado nacional

Início Difícil

Apesar de ser tão antiga quanto o próprio Brasil, a cachaça nunca foi aceita pelas velhas elites brasileiras. Desde o início a cachaça sempre foi associada ao povão, às classes menos favorecidas. A partir de 1850, com o declínio do trabalho escravo e a intensificação econômica do café, surge no Brasil a elite dos Barões do Café, mais identificados com a cultura e hábitos europeus. Nesse cenário o padrão era: filhos educados na Europa; uso do fraque, bengala e cartola; a bebida era o puro malte escocês e cachaça era coisa de pobres e abrutalhados, pessoas incultas e de negros. Por muitos anos, esse era o padrão de sucesso nos negócios e na vida, admirado, invejado e copiado por todos.

Mas, de fato, nos anos pré-abolição, muita gente perambulava pelas ruas das cidades pedindo esmolas para comprar cachaça. Isso se agravou  depois da bem intencionada e mal planejada “Abolição dos Escravos”. Os negros escravos, de uma pra outra se viram sem trabalho, sem moradia, sem comida e sem as mínimas condições de subsistência. A partir de então, a cachaça viveu seus momentos mais tristes, servindo de refúgio para amenizar as dores da miséria e da fome. Aí começa a decadência da cachaça, que passa a ser vista como algo indesejado, como uma bebida de “pinguços”, desocupados e “cachaceiros” e esses termos pejorativos até hoje, denigrem a sua imagem.

 

A Semana de 22

O primeiro grande evento de resgate da cachaça, como uma bebida que merece respeito, foi a Semana de Arte Moderna de 1922, que buscava uma nova visão de pais e a apresentação de uma arte “mais brasileira”.

Nesse evento, estavam presentes os grandes nomes das nossas artes, como Tarsila do Amaral, Vila Lobos, Di Cavalcanti, Mário de Andrade. Mário de Andrade até apresentou uma obra chamada Eufemismos da Cachaça. Nesse evento, foi proibido servir outra bebida que não fosse cachaça, dizem que essa turma ficava de porre todo dia.

Início da Virada

Mas a cachaça continuou seu rumo, amada e odiada. Mas ali pelos anos 1940-1950 com o fim dos engenhos de açúcar mascavo, que foram obrigados a fechar por conta das emergentes usinas, que produziam o açúcar refinado branco em larga escala, várias propriedades ficaram de “Fogo Morto”, como diz no título do livro de José Lins do Rego. Muitos fecharam e os sobreviventes tiveram que se reinventar e focar sua produção na cachaça.

Mas, grande virada só começou mesmo por volta de 1995, 1996, onde, por pressão de produtores e por vontade política, o Governo de Fernando Henrique Cardoso começou a produzir as primeiras portarias e instruções normativas sobre a cachaça.  Só então é que foram definidas as regulamentações técnicas de fabricação, os procedimentos de registro de produtores, a classificação e rotulagem e os processos de fiscalização.

No bojo de tudo isso, veio também a melhoria de qualidade da bebida, a profissionalização da cadeia produtiva e um movimento forte de melhoria da imagem e da identidade da cachaça, isso através da mudança de rotulagem e das garrafas. Tirando a associação de deboche, embriaguez, desordem e bebida de pobre e colocando no lugar rótulos e nomes mais adequados a um novo público.  Um caso típico é o da cachaça Volúpia, que tinha no antigo rótulo um apelo muito sensual, era uma mulher seminua, com seios á mostra, uma exploração bem evidente do corpo feminino. Aí  mantiveram o nome, mas recriaram o rótulo, muito sofisticado e a bebida vem em lindas garrafas de porcelana, muito bonitas inclusive como itens de presente.

Os Desafios Atuais

O segmento teve avanços significativos nos últimos vinte anos. No entanto, há obstáculos a serem vencidos para que a cachaça alcance seu merecido lugar de destaque entre outros destilados do mundo, é preciso revisar a carga tributária incidente sobre a bebida, de acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), a cachaça é um dos produtos campeões de tributos do País: as taxas representam 81,87% do preço do líquido. Além de atrapalhar a progressão do setor, os tributos fomentam a informalidade – um problema de saúde pública. Dados preliminares do Censo Agropecuário 2017 revelam a existência de 11 mil produtores de aguardente de cana-de-açúcar no País.  Porém, somente 1,5 mil são registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O ministério tem somente um fiscal para cada 97 estabelecimentos. Como os agentes trabalham em dupla, a proporção sobe para 194 produtores por fiscal. É pouco!

Outra barreira a ser ultrapassada é o preconceito, mas isso já foi muito maior e em favor do segmento pesa o fato de as cachaças hoje terem muito mais qualidade. Há um aprimoramento nas embalagens e nos líquidos. Muitos consumidores brasileiros estão aprendendo a apreciar cachaças de qualidade. Bares e restaurantes finos oferecem carta de cachaça, o que não existia há 20 anos. Nesse sentido, o setor está em sintonia com a tendência mundial de beber menos quantidade e mais qualidade.