Cana-de-açúcar transgênica já é uma realidade. Como isso afeta a cachaça?

Por Maurício Carneiro

Apesar das dúvidas e riscos, a CTNBio coloca no mercado uma variedade de cana aguardada por ruralistas e usineiros. Especialistas apontam falta de estudos sobre os impactos ambientais e à saúde.

Cana Bt

 

Plantas transgênicas têm ajudado a aumentar a produção nos campos brasileiros e no mundo. A primeira cana-de-açúcar geneticamente modificada e comercializada é de origem brasileira. A cana CTC 20 Bt foi desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e passou por avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que a considerou segura sob os aspectos ambiental, de saúde humana e animal. Sua aprovação ocorreu no segundo semestre de 2017 e a comercialização no início de 2019.  “A comercialização desta cana brasileira é um marco que reforça o potencial e a qualidade da pesquisa nacional e coloca o país na vanguarda das pesquisas com biotecnologia de plantas”, enfatiza o diretor de Etanol Celulósico e Assuntos Corporativos do CTC, Viler Janeiro.

A cana geneticamente modificada (GM) permite o controle mais eficiente e a redução das perdas em virtude do ataque de pragas, resultando em aumento de produtividade, redução de custo e melhoria da qualidade na indústria. O uso da cana transgênica ainda pode viabilizar a expansão da cultura em áreas onde a broca da cana é uma condição limitante, contribuindo para o aumento da competitividade do Brasil na produção de açúcar e etanol.

 

O que é a cana Bt

A cana Bt é a cana-de-açúcar que recebeu um gene da bactéria Bacillus thuringiensis. Daí a denominação Bt.

Esse microrganismo encontrado no solo produz proteínas inseticidas tóxicas para alguns insetos – tais como: borboletas e mariposas (Lepidoptera), moscas e mosquitos (Diptera), besouros (Coleoptera) e vespas, abelhas e formigas (Hymenoptera) – mas sem qualquer efeito sobre outros organismos e sobre o homem. Desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a variedade é resistente à broca-da-cana.

Segundo Viler Janeiro, o processo de introdução da nova variedade tem sido muito positivo, Desde outubro de 2017, cerca 400 hectares de mudas da variedade geneticamente modificada foram plantados nas principais usinas e fornecedores da região Centro-Sul do Brasil.

O diretor complementa que o crescimento da área com a CTC 20 Bt será gradual, uma vez que as novas plantas serão replantadas para expandir a área cultivada e não usadas para a produção de açúcar e etanol. “Este processo já ocorre na introdução de variedades convencionais e está alinhado com o cronograma de obtenção das aprovações internacionais do açúcar produzido a partir da cana geneticamente modificada”, explica.

Recentemente, a Health Canada, responsável por avaliar a segurança e o valor nutricional de alimentos no Canadá, aprovou o açúcar produzido a partir da CTC 20 Bt. Assim, de acordo com o órgão canadense, o açúcar proveniente da cana é tão seguro e nutritivo quanto os provenientes das variedades convencionais.

 

Pesquisas continuam

O Centro de Tecnologia Canavieira ainda continua as pesquisas. O CTC ainda deve disponibilizar para o mercado outras variedades transgênicas resistentes à broca, principal praga que ataca a cultura no Brasil e causa prejuízos estimados em R$ 5 bilhões anuais ao setor sucroenergético. Viler explica que adicionalmente, o Centro trabalha no desenvolvimento de variedades resistente ao Sphenophorus levis  – bicudo da cana-de-açúcar -, além de espécies tolerantes a herbicidas e com projetos de desenvolvimento de uma cana-de-açúcar tolerante à seca. “Esses produtos estão em diferentes estágios de pesquisa e passarão pelos processos aprovação, de acordo com a legislação vigente, tão logo cheguem nesta fase”, conclui.

Outra empresa focada no desenvolvimento da transgenia em cana de açúcar é a Embrapa Agroenergia. Atualmente quatro projetos merecem destaque e seguem a mesma linha do CTC. Iniciado em 2008, a Embrapa desenvolve a variedade tolerante a déficit hídrico, que já foi a campo em duas localidades para testes– em Quirinópolis (GO) e em Valparaiso (SP)-, com o objetivo de avaliar a performance agronômica e parâmetros fisiológicos em condições reais de campo. Em parceria com o CTC, o Centro Internacional Japonês para Pesquisas em Ciências Agrícolas (Jircas), a Embrapa Agroenergia avaliou o potencial com o gene de tolerância a seca na cana, que já foi testado em outras culturas de plantas, como soja, amendoim, trigo, arroz e outras.

Os resultados em situação real de campo mostrou que o material tem uma característica interessante, tanto para a tonelada de cana por hectare (TCH) quanto o açúcar (TPH). “Mesmo passando pela seca, essas materiais conseguiram manter o TCH e a o TPH, também houve manutenção da biomassa e do açúcar em ambos os locais”.

Próximas gerações de cana-de-açúcar transgênica

Após ter desenvolvido variedades de cana-de-açúcar transgênica resistentes à broca, cujo açúcar foi aprovado por organismos internacionais como o FDA, dos Estados Unidos, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) mira agora duas novas gerações da planta, uma delas com o objetivo de resistir a uma praga que gera prejuízos estimados em R$ 4 bilhões por safra ao setor sucroenergético.

O CTC iniciou a segunda geração dessas canas, que terá de 8 a 10 variedades, não só resistentes à broca (mariposa que se alimenta dos canaviais), mas também tolerantes a herbicidas.

E já projeta a terceira geração, ainda em fase preliminar, que tem como objetivo combater o besouro Sphenophorus levis, conhecido como bicudo, que causa danos na cana em desenvolvimento e reduz a vida útil dos canaviais.

“O besouro gera R$ 4 bilhões de prejuízo por safra e, se perguntar a qualquer usina, ela dirá que tem mais medo dele que da broca. A broca é homeopática, enquanto o Sphenophorus é uma pancada gigantesca onde atinge. Ou seja, ao mesmo tempo desenvolvemos variedades para inserir genes cada vez mais resistentes a doenças, para que possamos inserir nas melhores variedades possíveis”, diz o presidente do CTC, Gustavo Leite.

 

Falhas

Apesar da liberação, houve discordâncias de três entidades representadas. Os três votos contrários são de um representante do Ministério do Meio Ambiente e de especialistas em meio ambiente e agricultura familiar, que analisam os estudos apresentados pelo CTC desde o final de dezembro de 2015, quando foi protocolado o pedido de liberação. Eles chegaram à conclusão de que, a exemplo de todos os demais organismos geneticamente modificados (OGMs) aprovados na comissão, as pesquisas com a cana são cheias de falhas. E estão muito longe de atender às próprias regras do órgão criado para auxiliar o governo federal nas questões de biossegurança dos transgênicos.

No caso da cana, há lacunas quanto aos potenciais efeitos sobre organismos que não são o alvo das toxinas da planta modificada, aos animais e humanos que consumirem a cana in natura, e o risco de essas novas espécies virem a prevalecer sobre as espécies silvestres a partir dos cruzamentos entre ambas. Como a maioria das cachaças e o popular caldo de cana são obtidos com essas variedades silvestres, num cenário assim essas bebidas também poderiam vir a ser contaminadas.

Professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante da CTNBio, Valério De Patta Pillar apresentou parecer em que pede diligência da comissão para correção das deficiências em experimentos de avaliação do risco ambiental e ausência de testes estatísticos, de avaliações dos efeitos do consumo da variedade de cana de açúcar por animais domésticos e por humanos.

 

Movimento pela cachaça orgânica

Vários produtores do Brasil todo foram consultados por este colunista, nos grupos de debates e nenhum afirmou que utiliza ou pretende utilizar essa variedade de cana transgênica.  Pelo contrário, observamos uma tendência forte no posicionamento da cachaça orgânica.

Na contramão da transgenia, há um movimento crescente, entre os produtores de cachaça, pela produção orgânica. O diferencial da cachaça orgânica está no modo de produção, sendo que a bebida orgânica dispensa toda e qualquer interferência química em sua produção. A cana-de-açúcar deve ser produzida organicamente e, em determinadas regiões, o adubo utilizado na plantação de cana também deve ter como origem o gado orgânico.

A cana-de-açúcar deve ser colhida sem a prática de queimadas e, durante a fermentação, o uso do ácido sintético é substituído por suco de limão orgânico. Essas ações fazem com que a organicidade da bebida final seja 100%, produzindo uma cachaça orgânica e sustentável, enquanto suas concorrentes, carregam em suas composições, grandes quantidades de insumos e compostos químicos, extremamente prejudiciais à saúde.

cachaça orgânica : alambique de cobre

Benefícios

Ao consumir a cachaça orgânica você estará apoiando um sistema de cultivo orgânico no qual a sustentabilidade está sempre em primeiro lugar. Além disso, o consumo orgânico é ideal para quem busca uma alimentação saudável e livre de produtos químicos, onde os alimentos são ricos em nutrientes naturais e não há risco de surgimento de doenças ou complicações em longo prazo.

A cachaça orgânica também é mais saborosa e mais intensa que as demais cachaças, agradando paladares mais refinados e sendo uma excelente escolha para o uso culinário doméstico e em restaurantes.

Felizmente, por hora, a transgenia ainda não frequenta as doses da nossa querida cachaça.

IBGE: Brasil tem 11 mil locais de produção de cachaça e aguardente – 86% são ilegais

Dados do Censo Agropecuário, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 25 de outubro passado, dão um vislumbre do real tamanho da produção de cachaça e aguardente do país. Os pesquisadores que foram a campo no ano de 2017 encontraram 11.028 estabelecimentos rurais produzindo cachaça no país. Isso significa um número estável em relação aos 11.124 encontrados no levantamento anterior, realizado em 2006.

O número contrasta com os dados do Ministério da Agricultura, divulgados em maio, que indicam a existência de 1.497 produtores formais de cachaça no país.

Se desconsiderarmos que mais de um estabelecimento pode estar vinculado a um mesmo produtor – já que isso é exceção no setor –, a conclusão é que, levando-se em conta os números do IBGE, temos uma taxa de informalidade no setor da ordem de 86%, em termos de quantidade de produtores.

A se notar que não estamos falando de volume produzido – o que levaria essa taxa a uma grande redução. No entanto, também há que se considerar a subnotificação, que em casos como esse, pode ser bastante considerável.

Área das propriedades

Os dados – que mostraram um país com 5,07 milhões de estabelecimentos rurais – revelam também o tamanho das propriedades que produzem aguardente de cana – cachaça, inclusa. A minoria (4,3 mil) da produção de cachaça e aguardente é feita em estabelecimentos com área de menos de 10 hectares. Já 968 contam com área acima de 100 hectares.

cana-na-produçã--de-cachaçaO grosso da produção de cachaça e aguardente está em estabelecimentos com entre 10 e 100 hectares: são 5.698 unidades, equivalentes a 51% do total. São propriedades que podem se enquadrar como micro, pequenas ou médias, de acordo com o município em que se localizam, de acordo com os critérios do Incra.

No recorte por estado, chama a atenção alguns saltos em relação aos dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), constantes da publicação ‘A Cachaça no Brasil: Dados de Registro de Cachaças e Aguardentes’. Nessa relação – onde só estão os produtores devidamente legalizados -, o Maranhão aparece com menos de 20 produtores de cachaça e/ou aguardente. O censo encontrou nada menos que 496.

A Bahia é outro caso em que os números demonstram um grau de informalidade alarmante. O IBGE identificou nada menos que 2.890 estabelecimentos produzindo aguardente. Todavia, o estado tem,, segundo o Mapa, 30 produtores registrados de cachaça e 15 de aguardente.

O maior número de estabelecimentos produtores, claro, está em Minas Gerais. São 5.512, de acordo com o censo, sendo 1,9 mil localizados em propriedades com tamanho entre 20 e 100 hectares. Desses, menos de 600 estão devidamente legalizados.

Informalidade na produção de cachaça

Os números demonstram um quadro de competição predatória no setor de cachaça entre uma minoria que arca com uma carga tributária complexa e sufocante e uma maioria que segue trabalhando à margem da lei.

Também revelam que a figura do microprodutor familiar em um pequeno sítio como o retrato do produtor de cachaça informal é, no mínimo, apenas relativa. Existem 2,1 mil estabelecimentos com mais de 50 hectares produzindo aguardente – boa parte sem registro.

Para combater tal nível de informalidade, é preciso combinar três vetores. O primeiro são políticas de incentivo à formalização, com apoio de entidades empresariais e entes governamentais. O segundo é um trabalho de guerrilha pela conscientização de consumidores e comerciantes – o qual parece não surtir efeito, mas é, sim, efetivo a médio prazo. O terceiro, no entanto, é o mais importante: o reforço na ação fiscalizatória, sobretudo visando aqueles que não se formalizam simplesmente porque não querem.

Por Dirley Fernandes. 

 

Euromonitor: cachaça lidera recuperação do consumo de destilados no Brasil

Projeções sobre o mercado da cachaça indicam que a categoria vai puxar a recuperação do setor de bebidas no Brasil nos próximos anos

Segundo os estudos relacionados ao mercado de destilados no Brasil, o setor de cachaças será o motor da recuperação do consumo de deslados no país . O segmento premium vai sustentar o crescimento da categoria. E as vendas em bares e restaurantes terão um ritmo de crescimento maior do que as de supermercados e empórios.

Essas foram as perspectivas mais importantes trazidas por Angélica Salado, gerente de pesquisa da Euromonitor, uma das mais conceituadas empresas de pesquisa de mercado do mundo, durante sua apresentação no Cachaça Brasil Show, (realizado no dia 15 de outubro na sede da Abrasel-SP – Associação Brasileira de Bares e Restaurantes-, em São Paulo). São informações extremamente importantes e, finalmente, alvissareiras para o segmento, em meio a uma maré de incertezas.

Mas, vamos por doses.

Mercado da cachaça acelera

A Euromonitor projeta um crescimento para o mercado de bebidas brasileiro maior do que a média global já a partir do balanço deste ano. Não é uma alta das mais pujantes, mas diante do fundo do poço que foi o recuo de quase 5% de 2016, é uma ótima notícia. O ritmo de alta deve chegar a 2% em 2020 e atingir 3% em 2022 ou 2023.

Além de ser um ritmo melhor do que o global, o crescimento é maior do que o projetado pela empresa para o PIB brasileiro, que é de modestos, porém firmes 2% ao ano até 2024.

Ou seja, temos um cenário de “contido otimismo”, como classificou Angélica, com muita propriedade.

    Fonte: Euromonitor International, Alcoholic Drinks 2019.

 

Os dados do consumo médio per capita de bebidas mostram claramente esse retrato de uma recuperação modesta, mas com certa consistência. A Eumonitor projeta que o volume atinja 86,7 litros em 2023. Ou seja, não volta aos 94,2 de 2013, mas se afasta dos cerca de 75 de 2017.

E a cachaça será a maior beneficiária desse aumento de consumo? Não. O vinho, que amargou as piores perdas, entre 2013 e 2018 será a categoria que mais crescerá no período.

Os destilados, de modo geral, no entanto, também terão ganhos. Já as bebidas mistas, que cresceram acima de 10% na crise, seguirão em alta, ainda que bem mais modestas, em passo semelhante ao dos destilados. É um mercado que produtores de cachaça têm tudo para explorar – muitos já exploram –, com produtos inovadores.

Entre os destilados, a empresa projeta que a cachaça será uma das categorias que mais vai colaborar para o crescimento das vendas, aumentando ligeiramente a sua fatia dentro do mercado ao longo dos próximos anos.

Mercado da cachaça – “on-trade”

Várias pesquisas observaram que, durante a crise, os consumidores passaram a frequentar menos os bares e restaurantes (on-trade). As vendas de cachaças em supermercados e semelhantes (off-trade) ganharam espaço na sustentação das vendas da categoria. O consumidor trocava o consumo na rua pelos tragos em casa mesmo, gastando menos, mas investindo em produtos da mesma qualidade ou até mais altos do que os que consumia nos bares. É a chamada tendência Jomo (Joy of Missing Out), de relaxamento desligado de redes sociais, que favoreceu também as cervejas artesanais, e veio para ficar.

Em 2019 as vendas para o canal dos supermercados ainda crescem em ritmo mais forte do que as dos bares, mas a partir do ano que vem isso já se inverte e um consumidor um pouco mais confiante vai sair mais para beber. Com o crescimento mais robusto, o on-trade será responsável por 61% da venda de bebidas alcoólicas até 2023.

No entanto, a consultoria adverte que o consumidor ainda está arisco. O nível de confiança deles tem se recuperado e evoluirá positivamente até 2023, mas está longe daquele observado antes da crise.

Já os empresários recuperaram a confiança de tempos pré-crise, mas é bom que acertem o passo com quem compra – ou deixa de comprar – seus produtos. “O consumidor se comporta como desempregado, mesmo que já não esteja mais”, frisou Salado.

Cachaça manterá sua fatia do mercado

A categoria gim vai seguir crescendo, mas não nos níveis absurdos de 2016-2017, quando saltou 100% enquanto o whisky perdia mercado e a cachaça estava estagnada. De toda forma, o crescimento do gim não afetará em nada a fatia de mercado da cachaça.

Fonte: Euromonitor International, Alcoholic Drinks 2019.

Já entre os segmentos da cachaça, será o premium aquele que terá o ritmo mais forte de crescimento de vendas, acelerando a cada ano para chegar próximo a 8% em 2023.

O segmento, aliás, foi o maior responsável por manter o valor de vendas da cachaça no azul no período 2015-2016, anos em que houve recuo no volume total vendido. Esse ano, o crescimento total do setor, em valor de vendas, deve fechar acima de 3%, mas, em volume, será inferior a 1%.

Isso significa que o consumidor está gastando mais por cada garrafa ou dose que compra. Mas, lembremos: estamos falando de uma categoria em que o grosso das vendas está concentrado nas grandes marcas industriais, de preço mais acessível. Tudo o que não esteja enquadrado nesse segmento, é premium.

Mostrar a cachaça

Angélica lembrou que o papel da indústria para que as coisas caminhem bem passa por garantir dois tipos de disponibilidade: a mental e a física. Em outros termos, é preciso trabalhar a presença da marca na mente dos consumidores, através de estratégias de comunicação e marketing (degustações, publicidade, promoções, assessoria de imprensa …). E, junto a isso, providenciar para que as garrafas da marca estejam nas prateleiras dos bares e supermercados.

A pesquisadora também recomendou repensar tamanhos de embalagens, diante dos “loner living”, (pessoas que moram sozinhas) e ter especial atenção às lojas de conveniência, que terão forte crescimento ao longo dos próximos anos, com consumidores pouco dispostos a despenderem grande esforço nas compras.

E, diante das condições de volatilidade que atingem o mercado brasileiro quase constantemente, a pesquisadora advertiu: “Uma indústria munida de informações e eficiente nas estratégias pode atenuar significativamente os efeitos da volatilidade”.

São dados preciosos para a indústria fazer o dever de casa, sobretudo levando-se em conta desafios no horizonte, como os novos entrantes, que tendem a agravar o quadro de capacidade ociosa do setor, e o possível barateamento de destilados importados, quando o acordo UE-Mercosul vier a ser implementado.

 

Fonte: devotosdacachaca.com.br

 

Produção de cachaça: uma das atividades mais rentáveis do agronegócio brasileiro

Produção de cachaça de alambique agrega maior valor ao produto final

Uma nova onda de consumidores mais exigentes e dispostos a pagar pela alta qualidade faz com que, dentre os empreendimentos agrícolas, a produção de cachaça desponte como um dos mais promissores.

 

Domínio dos pequenos

Bebida genuinamente nacional, a produção de aguardente e de cachaça no país está presente em mais de 800 municípios de 26 unidades da Federação, a exceção é Roraima. São 951 produtores de cachaça e 611 de aguardente registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que, somados, representam cerca de um quarto do total de produtores de todas as bebidas registradas e produzidas no país, que é de 6.362. Os dados, constam do estudo A Cachaça no Brasil – Dados de Registro de Cachaças e Aguardentes, lançado pelo ministério em maio passado. Segundo o anuário, mais de 95% desses produtores são micro e pequenos empreendedores, que têm na cachaça e na aguardente a sua fonte principal de renda.

Esta é a primeira vez que o ministério realiza um estudo sobre a produção destes destilados. O levantamento mostra que existem 3.648 cachaças e 1.862 aguardentes de cana registradas no ministério. A Região Sudeste aparece com a maior produção de cachaça, seguida da Região Nordeste e depois a Sul.

O diretor executivo do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), Carlos Lima, disse que o anuário representa um importante passo para o crescimento e o aprimoramento do segmento no país, uma vez que, a base da construção de políticas públicas é a existência de números oficiais e atualizados.

“A cadeia produtiva da cachaça é hoje responsável por empregar mais de 600 mil brasileiros. Tendo em vista a produção distribuída em 26 unidades da federação e a quantidade de produtores registrados, esperamos obter um maior apoio do governo brasileiro para que o desenvolvimento da categoria se dê de maneira sustentável nos próximos anos, contribuindo ainda mais para a geração de emprego e renda no país”, disse.

 A bebida nacional

cachaça é a segunda bebida alcoólica mais consumida no Brasil (perdendo apenas para a cerveja). Estimativas indicam que mais de 70 milhões de doses sejam consumidas diariamente, o que resulta numa cifra de aproximadamente 6 litros/habitante/ano. Esse consumo gera uma demanda real pelo produto e, consequentemente, a produção para suprir essa demanda é um importante segmento industrial e uma fonte geradora de empregos diretos e indiretos. Em razão de ser um produto de grande demanda, existem centenas de pequenos produtores informais espalhados pelo Brasil e outro número maior ainda  de comerciantes que compram essa produção e a distribuem junto ao mercado varejista.

Nesse processo  podem ocorrer diversos tipos de falhas , ou pelo desconhecimento da legislação, falta de fiscalização ou por simples má fé. Isso pode expor o consumidor a riscos à saúde. Nesse sentido, a cachaça clandestina é um elemento extremamente deletério, tanto à saúde do consumidor, como à leal concorrência com os produtores legais, que produzem, geram empregos e pagam seus impostos.

A cachaça de qualidade só é obtida se a sua cadeia produtiva conhecer, tecnicamente, o processo e o produto, ou seja, a qualidade é produzida com tecnologia, sobretudo com uma consciência de boas práticas produtivas dentre os membros dessa citada cadeia de produção. Trabalhando de modo clandestino, um produtor jamais atingirá um nível minimamente aceitável na qualidade do seu destilado.

A demanda crescente e contínua por cachaças de alta qualidade, orgânicas e diferenciados faz com que a sua produção esteja entre os empreendimentos agrícolas mais lucrativos e promissores, mas, para isso, se faz necessário que o produtor tenha domínio sobre as técnicas de produção da cachaça de qualidade. Abrindo mão dessa premissa básica o empreendedor estará fadado a ser apenas “mais um” no mercado, disputando espaço e centavos com milhares de outros clandestinos.

É sabido que as atividades de produção primária, isto é, de matéria-prima apenas, apresentam tradicionalmente baixa taxa de retorno. Isso ocorre no mundo todo. A cachaça tem valor agregado já no engenho, uma vez que já está pronta para o consumo, podendo ainda ir direto do fabricante para o mercado varejista, eliminando, portanto, serviços intermediários de comercialização, com consequente melhor remuneração para o fabricante. Alguns alambique fazem a venda direta ao consumidor, através de lojas instaladas dentro das propriedades dos engenhos ou em ambientes online, o que aumenta ainda mais a lucratividade do negócio.

O empreendimento associa a produção primária (a cana-de-açúcar), a industrialização (a aguardente) e a comercialização pelo próprio produtor da cachaça.

Novos consumidores

O mercado para aguardente engarrafada se divide nos segmentos populares e premium. O maior consumo de cachaça encontra-se nas classes C e D, referindo-se às aguardentes industriais, produzidas nas grandes empresas, que comercializam a bebida com embalagens e preços populares.

Mercado foca no segmento de cachaças premium

Para os especialistas, o aumento do poder de compra impulsionado pelo Plano Real, fez com que parte dos consumidores das classes C e D migrassem para a cachaça e outros destilados de preço mais elevado, como as de alambique. Adicionalmente, existe uma tendência nas classes A e B do consumo de cachaças de alta qualidade, especialmente as com embalagens sofisticadas.

Com o objetivo de atingir nichos de mercado, muitas empresas, especialmente as de alambique, também conhecidas como artesanais, desenvolvem embalagens diferenciadas, que têm contribuído para melhorar a imagem e expandir o mercado. As novas “roupagens” abandonaram a aparência pitoresca e agora apresentam projetos mais elaborados, em estilos sofisticados.

“Para aqueles que querem investir no mercado da Cachaça, o desafio será grande para atender aos nichos de consumo. Na produção é necessário planejamento e um olhar voltado para três pilares: alta qualidade do produto, processo de envelhecimento e embalagens diferenciadas. Sem esquecer que após essa etapa, outra grande barreira é a comercialização do produto, pois os canais de distribuição são restritos. Sem isso, a concorrência no mercado interno ou externo se torna esmagadora”, conta o presidente da Confraria Paulista da Cachaça, Alexandre Bertin.

O envelhecimento da bebida é uma prática que agrega cores, sabores e aromas diferenciados. São utilizados barris de madeiras nativas, que possibilitam a modulação e caracterização da cachaça envelhecida, permitem elaboração de blends de duas ou mais espécies e aumentam a complexidade aromática da bebida. O uso de madeiras nacionais e seus blends dão originalidade à cachaça com atributos de sabores únicos e reconhecíveis.

Qualidade e profissionalização

A cachaça feita em alambiques de cobre, como falamos acima, tem mais apelo comercial para o consumidor, sendo esse o campo em que os pequenos e médios produtores podem ter maior chance na competição com o chamado produto industrial. Para isso, entretanto, ele deverá se esmerar na qualidade de seu produto, melhorando a maneira de processar a bebida e conhecendo melhor o que é qualidade de cachaça. Além disso a apresentação, garrafas e rotulagem devem ser pontos de atenção.

A Paraíba desponta como um centro de excelência na produção de cachaças de qualidade

Pequenos e médios fabricantes artesanais, mesmo na atividade de reduzida produção, não poderão se manter no mercado como amadores.

A demanda por qualidade e a pressão por qualificação, são elementos de pressão (no mercado e na política). Esse negócio tradicional (o produto artesanal) está, ou estará, sob risco de extinção, por conta da crescente fiscalização estatal, da concorrência legal ou da baixa qualidade do seu produto.

Faz-se necessário que se profissionalize todos os atores da cadeia produtiva da cachaça.

O produtor deverá se ocupar em conhecer índices de produtividade da matéria-prima; a eficácia na extração do caldo na moenda;o monitoramento da fermentação e da destilação; conhecer os índices de rendimento em seu processo produtivo e quais os fatores que os afetam.

Só conhecendo e dominando as variáveis citadas, seré possível administrar a produção e controlar a qualidade do produto.

No que toca ao comerciante, este terá que ter, dentre as suas premissas, a compra de produto legalizado, “pejotizado” e legalizado no MAPA.

Em suma: o produtor de cachaça de alambique precisa de profissionalização e de esmero em sua qualidade para vender para um novo mercado que está sendo formado, que, embora mais exigente do que o popular, premia a qualidade, pagando um preço mais elevado pela qualidade.

Formalizar setor

Para o presidente da Confederação Nacional da Pecuária e Agricultura (CNA), João Martins, há necessidade de maior conscientização dos produtores, dos comerciantes e dos consumidores quanto aos riscos de utilização de um produto inadequado para o consumo humano.

Contrarrótulo da garrafa de uma empresa formalizada

Um dos problemas básicos para o desenvolvimento do setor da cachaça é a necessidade de formalização dos produtores clandestinos, pois o mercado é fortemente marcado por pequenos produtores ainda sem registro no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Martins acredita que essas medidas podem alavancar o consumo da cachaça brasileira que, segundo ele, é exportado para mais de 60 países, gerando receitas em torno de US$ 14 milhões anuais.

“A maioria dos produtores estão na informalidade e é formada de pequeno e microempresários. Para aumentar a competitividade do setor é preciso desenvolver políticas públicas e iniciativas por parte do setor privado, voltados para formalização dessa cadeia produtiva”, disse.

Ministério da Agricultura orienta como denunciar venda de “cachaça” clandestina.

Após consulta, o Ministério da Agricultura me enviou um procedimento completo sobre como organizar e estruturar uma denúncia de comercialização de “cachaças” clandestinas.

Fabricação de cachaça clandestina: todos temos que nos unir para acabarmos com esse tipo de prática.

Um das bandeiras sempre levantadas por mim e defendidas nas minhas labutas e debates cotidianos, seja na coluna Confraria do Copo (rádio CBN João Pessoa), seja neste espaço , é o combate à clandestinidade no setor da cachaça.

Problema com fundo econômico, mas também cultural, a clandestinidade provoca danos profundos à saúde do consumidor, à economia e à lealdade concorrencial contra quem trabalha dentro das especificações que a legislação impõe e se submete às escorchantes taxas de impostos cobrados no Brasil, particularmente no ramo de cachaças.

 

Mas, afinal, o que é a “Cachaça Clandestina”?

São consideradas clandestinas todas as “cachaças” comercializadas e que não estampam em seu contrarrótulo o número de registro do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).  Tal registro é uma comprovação de que a cachaça obedece à legislação brasileira para a produção de bebidas alcoólicas.

Essa legislação determina o perfil químico que a cachaça deve ter, as exigências sanitárias, a forma de rotulagem do produto, as especificações nos processos de produção, as instalações prediais das empresas, a documentação legal exigível à comercialização de aguardente e todos os demais requisitos que atestam que a bebida é própria para o consumo humano.

Os produtos que não se submetem ou não atendam às exigências legais ou aos padrões mínimos de qualidade estabelecidos não são aprovados e, se comercializados, são considerados clandestinos.

Em suma, a cachaça clandestina não passa por qualquer nível de fiscalização sanitária. O que há dentro da garrafa, quimicamente falando, é um mistério que nem mesmo quem produz sabe.

São aquelas sem rótulo, a “de cabeça”, a brejeira, a “da roça”, a “mineirinha”. Aquelas com um nome engraçado, tipo “Cura veado” ou “Amansa corno”. São as que encontramos nas lojinhas de beira de estrada ou nas feiras, embaladas nas garrafas pet, sem identificação nenhuma, ou mesmo vendidas a granel, em bombonas de cinco litros, botijões de 20 litros ou até em tonéis plásticos ou de metal de 200 litros. Ingerir isso é atentar contra a própria saúde.

Plataforma do Mercado Livre comercializando “cachaça” clandestina.

A cultura da clandestinidade é tão forte que essas “cachaças” podem ser facilmente encontras até em plataformas de vendas online, como Mercado Livre e OLX, conforme matéria que fiz denunciando a prática (clique aqui e acesse a matéria).

Ambas as plataformas ostentam que não pactuam com a prática da pirataria ou da comercialização de produtos ilegais, mas basta uma pesquisa rápida em qualquer uma delas para que a sua tela seja, literalmente, inundada por milhares de litros de “cachaça” clandestina, de todos os tipos e de vários estados do Brasil (clique aqui e veja os crimes em tempo real).

 

Como identificar se uma cachaça é legalizada?

Exemplo de contrarrótulo adequado à legislação

Alguns produtores inescrupulosos tentam induzir o consumidor desinformado ao erro, dizendo que o CNPJ é uma prova de que a “cachaça” é de boa procedência e, portanto, legal. Mas não basta possuir CNPJ, é necessário atender às exigências definidas  pelas normas relacionadas à produção e comercialização de cachaça (clique e veja os procedimentos administrativos para o registro de estabelecimentos e de produtos ).

Toda cachaça tem que estampar em seu contrarrótulo, dentre outros dados, informações do fabricante, o número do CNPJ, Inscrição Estadual e/ou Municipal e o número de Registro no MAPA, conforme modelo ao lado. Se não tiver nada disso, não compre e denuncie.

Como denunciar?

Todo cidadão tem a responsabilidade de se manisfestar contra qualquer tipo de irregularidade e de incentivar a legalidade e a ética concorrencial.

Fiz uma consulta junto ao MAPA, a respeito de como apresentar formalmente uma denúncia de comercialização de “cachaças” clandestinas. Obtive a resposta através do Setor de Ouvidoria do órgão, que me detalhou, de forma clara, como deve ser o processo.

Confira a resposta na íntegra:

Seguem orientações sobre como apresentar uma denúncia sobre comercialização ilegal de cachaça clandestina, especificando os principais canais disponíveis.

No caso específico de denúncia referente a cachaça, nos envie o máximo de informações comprobatórias quanto possível, seguindo as orientações a baixo:

  1.   Qual o estabelecimento comercial que está negociando o referido produto?
  2.   Envie algum documento que comprove a comercialização do produto.
  3.   Enviar fotos que nos permitam ver todas as informações contidas no rótulo do produto.
  4.   Algum documento, recibo ou canhoto de pagamento que comprove a relação de consumo do     produto?
  5.   Qual o local (com referência) onde ocorreu o fato?
  6.   Se existe algum servidor do Ministério da Agricultura envolvido.
  7.   A identificação do fabricante do produto.
  8.   Algum dado que identifique o fabricante (CNPJ, endereço, Razão Social).
  9.  Especificar se a venda do produto foi a granel ou em embalagem própria (individual).

Para onde enviar a denuncia?

1° Opção: Em conformidade com a Instrução Normativa nº 18, de 30 de dezembro de 2018, da Ouvidoria Geral da União – OGU/CGU. O usuário pode apresentar a sua manifestação acessando o link https://sistema.ouvidorias.gov.br/publico/Manifestacao/SelecionarTipoManifestacao.aspx?ReturnUrl=%2f. Sugerimos que o site, informado acima, seja acessado pelo Google Chrome e que limpe os “cookies” na opção “histórico”, no canto superior direito do navegador.

2° Opção: Presencialmente na Ouvidoria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, na Esplanada dos Ministérios – Bloco D – Brasília/DF – CEP: 70.043-900. Das 8 – 17h.

3° Opção: Enviar a sua manifestação de forma estruturada e fundamentada para o e-mail mesmo ouvidoria@agricultura.gov.br.

Se for necessária, estamos à disposição para esclarecimentos de eventuais dúvidas.

Atenciosamente,

Ouvidoria/MAPA

Tarefa de casa

Agora que já sabemos como denunciar de forma eficaz e tendo exemplos evidentes e práticos de descumprimento das leis, conforme mostrado acima, que tal exercitarmos nossos novos conhecimentos e fazermos uma denúncia das várias situações de clandestinidade que encontramos por aí?  Creio ser um bom começo fazermos nossa denúncia com os dados da OLX e do ML, que mostramos nesse artigo.

 

VIVA A BOA CACHAÇA!!!

Jeito paraibano de beber cachaça inspira empresário de São Paulo.

O Conceito WIBA! conquista mentes, corações e paladares de forma muito divertida.

Com uma ideia nascida em terras paraibanas, empresário paulista está mudando os conceitos de como beber cachaça.

 

Oxente! Uau! Show! Uai!…Todo mundo conhece e costuma utilizar interjeições, que são palavras que formam, por si só, frases que exprimem uma emoção, uma sensação, uma ordem ou um apelo. No mundo da cachaça, uma interjeição bem adequada seria WIBA!

Repita a palavra WIBA! e sinta que ela, sozinha, pode exprimir um misto de surpresa e satisfação de alguém após ingerir uma dose de boa cachaça junto com ingredientes bem divertidos, como frutas com sal, chocolate com banana, ou uva com pimenta.

Mais que uma nova interjeição, WIBA! é, de fato, uma marca criada pelo empresário Wilson Barros, de São Paulo, que propõe um novo jeito de beber cachaça: o jeito WIBA! Uma maneira divertida e original de fazer sua própria Caipirinha na Boca®, misturando pedaços de frutas, sal, açúcar, chocolate ou o que mais sua imaginação permitir, seguidos de pequenos goles da Cachaça WIBA!

A inovadora Caipirinha na Boca® despertou a curiosidade e aguçou os sentidos, tanto dos apaixonados por cachaça quanto daqueles que nunca haviam experimentado a mistura.

O jeito WIBA! de beber o nosso destilado nacional nasceu em 2013 e logo virou moda por terras paulistas. O que pouca gente sabe, porém, é que essa sacada também bebe das tradições da Paraíba.

A origem de tudo

Wilson era executivo de uma multinacional quando esteve em João Pessoa-PB, em 2010, a trabalho. Ele ficou hospedado na casa de um casal de amigos, que o recepcionou no fim de semana, com um almoço em família. Foi justamente nesse dia que surgiu seu primeiro insight , ao observar o modo peculiar como os participantes do almoço tomavam a cachaça: passavam sal no caju, mastigavam e ingeriam a cachaça.

A inspiração foi o nosso tradicional trio: cachaça, caju e sal

A tradicional mistura de caju com sal como tira-gosto, tão comum à cultura e ao paladar do paraibano, era algo novo para ele.  Intrigado, provou e gostou de cara. Depois perguntou ao patriarca da família: “Todos aqui na Paraíba tomam cachaça assim ou é um costume só da família?”. A resposta foi direta e seguida de uma boa risada: “Meu amigo, aqui na Paraíba a gente toma cana com caju e sal até no café da manhã”.

De imediato, Wilson teve um estalo: “Vou levar pra São Paulo esse jeito paraibano de tomar cachaça!”.

Quando retornou, pegou uma garrafa de cachaça branca, alguns cajus, um punhado de sal e convidou os amigos para conhecer o que aprendeu na Paraíba. Ao saber da proposta, o pessoal achou meio estranho, pois em São Paulo não é comum tomar a cachaça branca pura, sendo mais usada como base de caipirinha.  Wilson contou aos amigos a história que presenciou, o grupo deixou o preconceito de lado, provou e achou “arretado”, como se diz aqui no Nordeste. Nascia assim a ideia da Caipirinha na Boca.

 

O Refinamento

Depois da visita à Paraíba e do encontro inicial com os amigos, Wilson passou a amadurecer a ideia de como viabilizar sua “sacada”.  Após a aposentadoria, levantou capital e teve mais tempo e tranquilidade para dar continuidade ao seu projeto. Instalou um alambique e começou a trabalhar no refinamento da qualidade de sua cachaça. Para tanto, contratou uma consultoria e a supervisão dos melhores profissionais do mercado, como o master blender Armando Del Bianco e Valdirene Neves, engenheira de alimentos expert em cachaça. Com a ajuda da empresa Why Not?, desenvolveu os belos rótulos que estampam suas garrafas e o conceito, divertido e novo, de se beber cachaça.

O Alambique Ouro Fino, na cidade de Torre de Pedra, em São Paulo, há 6 anos fabrica a cachaça WIBA!,que leva as iniciais de seu nome (saiba mais sobre o processo produtivo da WIBA!). A produção, restrita a 25 mil litros por safra, favorece um controle de qualidade rígido, de modo a garantir a excelência na qualidade de cada garrafa saída da propriedade.

Qualidade e inovação

Seu foco é fechado na inovação, mas a WIBA! não abre mão da qualidade de suas cachaças. O processo de destilação utiliza somente o líquido mais puro e nobre chamado de “coração”, o filé mignon da cachaça. Os líquidos conhecidos por “cabeça” e “cauda”, inadequados ao consumo humano, por possuírem concentrações muito altas de álcoois superiores e metais pesados, aumentam a probabilidade de sensações desagradáveis no dia seguinte ao consumo. Esses líquidos são retirados do processo e redestilados em um outro alambique apropriado, dando origem ao metanol, utilizado para abastecer os veículos da propriedade.

O “aldeído”, por exemplo, é um dos maiores responsáveis pela ressaca. Quanto maior sua quantidade, maior será seu mal-estar no dia seguinte (clique e entenda sobre os compostos indesejáveis da cachaça). Por isso, a WIBA! diminui ao mínimo possível esses elementos, e de outros, como o furfural, responsável pelo hálito malcheiroso proveniente de bebidas com origens duvidosas. A ordem é sempre orientar a produção e o controle de qualidade de modo a proporcionar ao cliente a melhor experiência possível de consumo.

A linha de produtos

Atualmente, a WIBA! possui uma linha premiada de cachaças, como a Branca, a Umburana, a Blend de Carvalhos e a Blend de Carvalhos Premium 3 Anos  (confira  aqui a análise sensorial). Todas podem ser servidas utilizando-se o conceito da Caipirinha na Boca®. Na consulta ao site da WIBA!, você pode ter acesso a informações mais detalhadas.

Kit da Caipirinha na Boca

O termo Caipirinha na Boca® foi patenteado, e hoje a WIBA! vende um kit que traduz esse conceito. Inclui uma pequena jarra de vidro e uma base de madeira com dois recipientes: em um são acomodados os ingredientes sólidos, como fruta, chocolate e pimenta; no outro, sal, mel, molho, açúcar, etc.

Com uma estratégia de marketing inovadora no segmento, beber uma WIBA! é beber não apenas uma cachaça, mas também todo um conceito, uma experiência diferenciada, que é essa nova forma de se tomar cachaça, inspirada na tradição paraibana.

A ideia deu tão certo que a WIBA! exporta hoje a cachaça, e seu conceito, para Taiwan, China e Portugal. Em breve, também para a Itália e, por tabela, para o restante da Europa. O resultado de tudo isso não poderia ter sido melhor: Wilson conseguiu aliar a tradição da produção artesanal à inovação e à criatividade brasileira.

E isso tudo nascido de uma simples roda de amigos, tomando cachaça com caju e sal aqui em João Pessoa.

WIBAAAAAAAA!!!

 

Colombina 10 Anos: história, tradição e qualidade

A Colombina 10 anos traz em cada garrafa o sabor das cachaças de antigamente

Degustando a Colombina 10 Anos em minha casa: uma experiência incrível.

Acaba de chegar às minhas mãos a Cachaça Colombina 10 anos, uma verdadeira joia da produção cachaceira de Minas Gerais.

Produzida na Fazenda do Canjica, em Alvinópolis, cujos alambiques destilaram sua primeira cachaça por volta 1890, a Colombina tem a mesma receita há quase 100 anos e mesmo tendo se adaptado às normas vigentes de fabricação, manteve sua personalidade, sua história e muito do seu antigo processo de produção.

Utiliza cana-de-açúcar livre de agrotóxicos e cortada crua, sem queima. A moagem é feita em engenho movido por roda d’água e a fermentação da garapa ocorre de modo natural, sem agregação de componentes químicos. Mas um dos seus mais interessantes diferenciais é o processo de armazenamento.

O Parol

Sempre ouvimos falar de envelhecimento ou armazenamento de cachaças em dornas, tonéis ou barris, mas “parol” é coisa rara de se ver. A verdade é que pouca gente já viu ou mesmo já ouviu falar no Parol.

Parol da Fazenda do Canjica

O Parol é um recipiente de madeira parente dos barris, tonéis e dornas e foi largamente usado nos séculos XVIII, XIX e início do século XX, na fabricação de açúcar e aguardentes.

São muitos os exemplos na historiografia e literatura da cachaça que citam o uso dos parois na fabricação do açúcar e da aguardente. Feito totalmente de madeira, esse reservatório tem a característica peculiar de não receber pregos, parafusos, cintas de aço ou qualquer outro artifício metálico para garantir a sua “estanqueidade”, utilizando-se, em sua construção, apenas juntas secas com réguas de madeira talhadas à perfeição por mestres artesãos.

Devido à complexidade de sua construção, essas obras de arte foram sendo gradativamente substituídos por recipientes mais simples (dornas, barris e tonéis). Seu desuso causou quase que sua completa extinção e são raríssimos hoje os engenhos de cachaça que ainda os utilizam.

A Colombina é armazenada em jatobá, madeira utilizada por um número bem limitado de marcas para esse fim, mas que tende a ter um futuro promissor, pois essa madeira guarda uma similaridade muito evidente com o carvalho americano.

Minhas Impressões

Apresentada com uma linda garrafa e rótulos retrô, A Colombina é um verdadeiro desafio aos sentidos, por isso, prepare-se para um turbilhão de impressões sensoriais. O jatobá empresta à Colombina 10 Anos uma cor misteriosa, de um tom apenas levemente amarelado, muito particular e a untuosidade é evidenciada pela demorada e persistente lágrima.

No nariz ela já traz um frutado que remete ao aroma das uvas do vinho branco. Os 10 anos de armazenamento acalmam muito bem o álcool nela contido, e não agride em nada a narina, apesar dos seus respeitáveis 45% de teor alcoólico. Super complexa no paladar, essa cachaça permite um conjunto de sensações extensas, que vão do adstringente ao doce, do salgado ao picante, passando por frutas vermelhas, ameixa e finalizando com baunilha, amêndoas e chocolate. O retrogosto complementa a obra, prolongado pelo potente teor alcoólico, traz a cana de açúcar e as impressões finais do achocolatado.

Unindo tradição, história e qualidade, não se acham tão facilmente cachaças como a Colombina 10 anos e degustá-la foi uma experiência extremante prazerosa, que me deixou emocionado e positivamente impressionado.

Isso reforça a convicção do acerto da minha decisão, há muitos anos tomada, de eleger a Cachaça como minha bebida preferida. Obrigado Colombina, a partir de hoje serei mais um dos teus fieis arlequins.

Os Rituais da Cachaça: de onde vem o costume de dar uma “pro santo”?

O ar de sobriedade que adotam os apreciadores da cachaça antes de beber parece até contraditório. Antes de tomar, é obrigatório despejar um pouco da bebida no chão e anunciar: “pro santo”. Mas a contradição se desfaz quando se investiga a fundo a origem dessa tradição tão brasileira.

 

Ouça o áudio Confraria do Copo, onde falamos a respeito dos Rituais da Cachaça.

Jogar uma pro santo é um ritual mais antigo do que o próprio Brasil.

O ritual é conhecido: despeja-se o primeiro gole da bebida no chão e em seguida se diz  “uma cachaça pro santo”. Segundo a cultura popular, a cachaça é oferecida  para o santo em busca de proteção. Essa expressão e o ritual têm influência direta dos colonizadores portugueses e jesuítas.

O costume de derramar bebida no chão, antes de beber, é uma prática muito mais antiga que o próprio Brasil. O gesto nasceu de um ritual chamado “Libação”, que, segundo o jornalista Edson Borges, autor de uma vasta pesquisa sobre a relação entre a cachaça e as religiões, foi criado por gregos e romanos “e consistia em uma oferenda aos deuses para que eles provessem os lares de felicidade, harmonia e fartura”. Tais oferendas eram de vinho, azeite e leite.

No Brasil, a prática foi trazida pelos colonizadores portugueses e jesuítas, e foi incorporada durante o consumo de cachaça pelos escravos.

Com a imposição do consumo da bebida, os portugueses também impuseram São Benedito, filho de um escravo, como padroeiro dos escravos e, por tabela, da aguardente, fazendo nascer daí uma relação bem mais ampla dos negros com o São Benedito, a ponto de surgirem várias  irmandades na Bahia.

A partir daí, a cachaça passou a ser usada, também, em oferendas nas religiões com matrizes africanas, como o Candomblé, com a mesma finalidade da Libação: um pedido de proteção aos orixás.

Falando dos cultos de raízes africanas, existe uma relação entre a cachaça e a figura do Orixá Onilé. Essa divindade representa a base de toda a vida, a Terra-Mãe, tanto na vida como na morte.

Onilé é o primeiro a receber as oferendas e a ser evocado nos ritos dos sacrifícios. Como forma de pedir libertação e proteção em troca de oferendas, derrama-se uma dose de cachaça na terra para agradar o  “santo”, que, na verdade, é o Orixá.

A relação entre cachaça e religiosidade gerou também outras diversas práticas e rituais relacionadas à bebida.

Tem gente que se benze antes de tomar a primeira, por que a cachaça também é chama de água benta. Da mesma forma há os que fazem caretas exageradas, isso pra espantar os maus espíritos.

Na Bahia, no interior de Goiás e de Minas é comum que se sopre ou se abane o copo da cachaça, Segundo dizem, é pra fazer sair o espírito do álcool. Isso é bem interessante por que os alquimistas, na idade média, destilavam o vinho e ao perceberem que o álcool gerado da destilação era inflamável, eles diziam que este era o espírito do vinho.

Existe o ritual de tomar a primeira dose de olhos abertos, para ver o rosto da mulher amada, mas há, também, outro ritual muito interessante que é o de tomar a última dose de olhos fechados. Na região Norte é uma tradição se fazer isso, por que, segundo dizem, se você toma o último trago de olhos abertos, você pode ver o olho da morte no fundo do copo.

Mas com ritual ou sem ritual, sempre beba com moderação. Beba Cachaça de qualidade, registrada e que não te faça mal no dia seguinte, assim o santo vai adorar, pois o ritual da ressaca, nem o diabo merece.

Cachaças paraibanas disputam o maior concurso de destilados do Brasil.

Público pode votar na sua cachaça preferida até o dia 28 de novembro

O maior concurso de cachaças do Brasil, e por tabela, do planeta, o Ranking Cúpula da Cachaça, já começou. E cabe aos paraibanos votar nas suas cachaças preferidas.

O Ranking (que é feito a cada dois anos), como sempre, começa com a Votação Popular, fase mais divertida do certame, já que mobiliza todo o mundo da cachaça, com as campanhas via redes sociais. Essa fase vai até 28 de novembro.

O  IV Ranking Cúpula da Cachaça, que teve início no Dia Nacional da Cachaça (13 de setembro), já registrou mais de 16 mil votos em centenas de diferentes rótulos de cachaça. Na média, são mais de mil votos por dia!

A expectativa dos cúpulos (como são chamados os profissionais ligados à cachaça que fazem parte do grupo que promove iniciativas voltadas para a valorização e a difusão de informações sobre o produto) é de que o número de votantes ultrapasse a marca dos 42 mil, atingida no III Ranking, em 2018.

O IV Ranking Cúpula da Cachaça se divide em três fases. A primeira delas, que segue até o dia 28 de novembro, é a Votação Popular. Dessa fase participam todas as cachaças registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Não há a necessidade de inscrição por parte dos produtores. Todo devoto da cachaça pode entrar na página de votação e preencher os campos com até três cachaças. Só vale votar uma vez. VOTE NA SUA CACHAÇA PARAIBANA PREFERIDA.

Caso o ‘eleitor’ saiba apenas a marca da cachaça que já provou e gostaria de votar, mas não saiba exatamente a variedade da cachaça que ele prefere – se é Ouro, Prata, Premium, Umburana, Carvalho… não há problema. Vale o voto de legenda. Os votos são distribuídos para as variedades da marca escolhida que obtiverem ao menos um voto.

Cúpula da Cachaça

Centenas de produtores têm feito suas campanhas, em especial por meio das redes sociais, ajudando a cumprir o objetivo da Cúpula da Cachaça com o concurso: aumentar a visibilidade da cachaça, atraindo mais interesse do público em geral pelo nosso destilado.

A Votação Popular resultará em uma seleção de 250 rótulos, que formam a lista das 250 Cachaças Mais Queridas do Brasil. Essa lista será enviada para um painel de 50 especialistas, espalhados por todo o país e, após um prazo de algumas semanas, eles enviarão à organização uma lista de 50 rótulos que eles consideram as melhores.

Em fevereiro, a Cúpula da Cachaça se reunirá para até três dias de degustação às cegas. Os especialistas avaliarão quesitos visuais, olfativos e gustativos e farão o ranqueamento das cachaças. Pela primeira vez, será usada uma divisão em três categorias:

a) cachaças que não passam por madeira;

b) cachaças armazenadas e envelhecidas;

c) cachaças premium e extra-premium.

A cachaça melhor pontuada do IV Ranking Cúpula da Cachaça, entre as três categorias receberá o título de Cachaça do Ano, que atualmente pertence à Cachaça Vale Verde 12 Anos.

O Ranking Cúpula da Cachaça adquiriu, a cada edição, uma maior importância como referência para o setor, influenciando decisões de consumidores, varejistas e até importadores no exterior. Isso se deu exatamente porque o Ranking, ao dar voz a consumidores e especialistas, reflete o que se passa, de fato, no dia a dia do mercado. As cachaças ranqueadas são aquelas que conseguem unir qualidade de produto a penetração no varejo.

Cada vez mais, desde a primeira edição, quando foram registrados 4 mil votos no concurso, o Ranking é mais de todo o setor e menos da Cúpula, cujos integrantes – entre os quais esse editor que vos escreve – só entram como julgadores a partir da terceira fase, quando as 50 cachaças que serão ranqueadas já foram selecionadas.

Nenhuma bebida do Brasil conta com um concurso desse porte.

Saiba mais sobre o Ranking clicando aqui.

Para acessar a página de votação, clique aqui.

 

Em parceria com  www.devotosdacachaca.com.br

Congresso Brasileiro da Cachaça define os caminhos futuros do nosso destilado

Congresso Brasileiro da Cachaça lança Carta de Vitória, caminho para o futuro da cachaça

O Congresso Brasileiro da Cachaça, que se realizou nos dias 05 e 06 de setembro, em paralelo ao Salão de Negócios da Cachaça, foi, sem medo de exagero, um marco para o setor, apontando caminhos que foram cristalizados na ‘Carta de Vitória’, aprovada no encerramento do encontro.

O testemunho mais contundente do sucesso do Congresso foi prestado pela ex-presidente da Confraria de Cachaça Copo Furado, Cláudia Fernandes, durante a sessão de encerramento do evento.

“Tenho participado há mais de 20 anos de debates, simpósios e congressos que têm a cachaça como tema. Já ouvi muita gente falando sobre as questões da cachaça. Nenhum, no entanto. atingiu a profundidade desse, que não se limitou a questões culturais ou de produção, mas discutiu o futuro da cachaça também como negócio, com muito realismo”.

As palestras se estenderam por dois dias, com mais de 25 palestrantes das mais diferentes formações, atuações e abordagens se revezando no microfone e discutindo um amplo espectro de temas relativos ao setor – desde questões de produção, passando por distribuição, varejo, coquetelaria, comunicação, marketing, raízes históricas do preconceito, diferenciações de produtos etc…

Em breve, o conteúdo será publicado em versão resumida, para que todos os que não puderam comparecer tenham alguma ideia do que foi debatido. Mas a Carta de Vitória, documento elaborado com o sentido duplo de refletir os debates e apontar compromissos e nortes para o setor de cachaça nos próximos anos, espelha bem os indicativos encontrados nos debates.

A Carta Comentada

A Carta, aprovada por aclamação, é um verdadeiro mapa do caminho que precisa ser seguido, em iniciativas individuais e coletivas, para levar a Cachaça a vencer obstáculos e ocupar mais espaços no mercado de destilados.

A seguir, alguns trechos do texto, que foi co-redigido por desse editor, com comentários.

É mais do que hora de o setor de cachaça encarar os seus reais desafios, sem temores e sem versões triunfalistas e falaciosas.”

Esse trecho reflete a necessidade e a intenção manifestada pelos congressistas de o mercado se posicione com mais realismo.

A Cachaça tem um papel cultural e econômico destacado na sociedade brasileira. No entanto, o espaço que ela ocupa, seja no imaginário ou seja em números de mercado, não reflete essa importância.

Partir desse pressuposto, como a Carta de Vitória faz, é fundamental para que se trace um diagnóstico correto e se estabeleçam as medidas necessárias para um avanço.

Renato Fracino, Gilberto Freyre Neto, Bruno Videira, Dirley Fernandes e Jerônimo Villas Boas

A produção de cachaça atingiu níveis de excelência. Não deixamos nada a dever para qualquer dos outros destilados globais. No entanto, ainda precisamos transpor barreiras construídas por muitos séculos e dificuldades inerentes à nossa própria formação como sociedade.
Já avançamos muito na tarefa diuturna de combater o preconceito contra o nosso destilado nacional. Porém, o preconceito, em certos setores, ainda é uma realidade, como foi levantado por muitos neste Congresso.”

Ao longo dos debates, vários foram os testemunhos da rejeição – algumas vezes aberta, outras, velada – que ainda existe, em alguns setores da sociedade, inclusive a grande mídia, em relação à Cachaça.

Foi debatido como o preconceito se construiu historicamente, o que é fundamental para se descobrir como quebrá-lo. Apesar do inegável avanço, os congressistas concordaram que é necessário muito mais ações, dos mais variados formatos, para miná-lo até o ponto em que ele seja apenas residual. No entanto, a pior forma de abordagem seria negar a existência deste preconceito.

A Cachaça foi “oficializada” pelo Estado como bebida nacional muito recentemente. E o próprio termo “cachaça” ainda era rejeitado, até por alguns produtores, nos anos 1990. O trabalho conjunto para vencer os estigmas ligados à Cachaça é tarefa individual e coletiva, um combate a ser travado a cada dia.

Alexandre Santos, Cauré Portugal, José Otávio Carvalho Lopes, Maria das Graças Cardoso, Aline Bortoletto e Rogélio Brandão

“Informação, conhecimento e compreensão do que é o novo público da Cachaça são a base para a construção de um novo momento. Nesse sentido, é fundamental reconhecer o papel das mulheres na cadeia de produção e comercialização da Cachaça, bem como enquanto consumidoras.”

Esse trecho da carta reafirma conhecimento e informação como as ferramentas preferenciais para a ampliação do público da Cachaça. Quanto mais se divulgue a riqueza histórica da cachaça, as especificidades das regiões de produção, os detalhes da produção, a herança das famílias e o alto nível dos padrões de qualidade, mais rica e sedutora será a experiência do consumo da cachaça.

A referência às mulheres vêm da constatação inequívoca do aumento do interesse desse público pela cachaça, o que leva à necessidade de ajustes nas estratégias de comunicação de todos os produtores.

Outra mudança a ser levada em conta é a redução da faixa etária do consumo. Novamente, esse é um fator que demanda reajustes na comunicação dos produtos e até no planejamento de novos produtos.

É urgente trazer a cachaça para o século XXI. Não há mais espaço para amadorismo em nosso setor. É necessário que a tecnologia disponível seja utilizada para levar adiante a tradição de qualidade de 500 anos do mais antigo destilado das Américas.

O professor Leandro Marelli deu à sua palestra no Congresso o título “Cachaça – Tradição e Modernidade”.  A ideia foi mostrar que a tecnologia pode trabalhar a serviço das tradições de qualidade do nosso destilado. Para além da porteira, o mesmo serve: o setor precisa abraçar estratégias de comunicação e marketing no mesmo nível das utilizadas pelos outros grandes destilados globais, não apenas com foco no produto, como também no cliente.

A disponibilidade de recursos é um limitador, mas se custos fundamentais para o sucesso, como degustações e promoção na ponta do varejo, não estiverem dentro do planejamento da marca – e, em boa parte das vezes, não estão –, a competitividade fica muito reduzida.

Para a cachaça, isso é ainda mais dramático. Eventualmente, um produtor com baixo nível de profissionalismo contamina o mercado com práticas insustentáveis, que dificultam o trabalho daqueles que batalham pela evolução de suas marcas e do setor como um todo.

Nossa tarefa é entregar uma experiência ao consumidor. Isso engloba investir esforços e recursos também fora da porteira. A coquetelaria é uma via que se abre para a ampliação do público consumidor de cachaça. Um mundo de sabores e possibilidades!”

Além da reafirmação da importância do trabalho fora da porteira, esse trecho afirma a coquetelaria com cachaça como uma porta de entrada hoje fundamental para o mundo da cachaça, assim como é para todos os demais destilados globais. A coquetelaria brasileira cada vez se desenvolve e se especializa mais, em busca de uma identidade brasileira. A Cachaça tem tudo para se beneficiar desse processo e cabe ao setor investir esforços para intensificá-lo.

O Cachaça Experience, que aconteceu em paralelo ao Congresso Brasileiro da Cachaça comprovou que a organização do evento soube mensurar essa oportunidade que se abre.

(Os debates) foram ricos e indicam rumos para o avanço do setor. No entanto, é preciso muito mais diálogo, busca de consensos e atuação coletiva, envolvendo todas as entidades representativas, para removermos os entraves do nosso mercado.”

Esse trecho fala da necessidade de uma continuidade do clima de diálogo que marcou os dois dias do Congresso, nos quais os debates se estenderam para bem além do recinto do Congresso. O evento, aliás, teve a participação de representantes de dezenas de entidades, entre as quais o Ibrac (Instituto Brasileiro da Cachaça), como partícipe dos debates, a Anpaq (Associação Nacional dos Produtores e Integrantes da Cadeia Produtiva e de Valor da Cachaça de Alambique), como coorganizadora, e o Sebrae, como apoiador.

Uma costura para a qual teve importância fundamental o produtor Adão Celia, da cachaça Princesa Isabel, de Linhares (ES), o idealizador do Congresso Brasileiro da Cachaça e principal responsável pela complexa teia institucional.

Unidos, construiremos as respostas e atingiremos aquele que é nosso objetivo em comum: ampliar o público da cachaça, conquistar mais e mais corações para o destilado nacional brasileiro.”

A carta termina com um chamado para a atuação coletiva e individual em nome de um objetivo básico: a ampliação do público consumidor. Parece singelo, mas o significado dessa convocação é mais profundo: propõe que não se mire apenas na competição pelo mercado consumidor restrito que temos atualmente. Essa competição, claro, vai continuar a existir, mas, a par disso, é necessário esforço coletivo na direção de fazer crescer o bolo. O chamamento é para que todos compreendam que, em um ambiente de negócios em que marcas entrantes vão ampliar muito a oferta, fazer crescer a demanda é uma questão de sobrevivência.

Como disse Fernando Silveira, do Sebrae, em sua palestra, “Coopetir” – dividir conhecimentos, práticas, custos e responsabilidades em busca de um avanço coletivo para a categoria – pode ser uma das chaves do sucesso no mercado da cachaça

Há espaço para ampliar o público da cachaça. Os novos devotos podem ser conquistados entre os que temem a pujança dos destilados, entre os que consomem outros destilados na crença errônea de que são superiores à cachaça e entre os que são consumidores e consumidoras de coquetéis e que estarão abertos à cachaça se ela for adotada por seus bartenders preferidos.

Adão Celia lê a Carta de Vitória, no encerramento do Congresso

Mas, para isso, é preciso adotar as estratégias corretas em todas as áreas. A Carta de Vitória é uma boa ferramenta a indicar os caminhos para esse fim. Na Paraíba, sede do II Congresso Nacional da Cachaça, em 2021, talvez já possamos mensurar os resultados.

Segue a íntegra do documento.

Íntegra da Carta

É mais do que hora de o setor de cachaça encarar os seus reais desafios, sem temores e sem versões triunfalistas e falaciosas.

A produção de cachaça atingiu níveis de excelência. Não deixamos nada a dever para qualquer dos outros destilados globais. No entanto, ainda precisamos transpor barreiras construídas por muitos séculos e dificuldades inerentes à nossa própria formação como sociedade.

Já avançamos muito na tarefa diuturna de combater o preconceito contra o nosso destilado nacional. Porém, o preconceito, em certos setores, ainda é uma realidade, como foi levantado por muitos neste Congresso.

Os caminhos para atingirmos um novo patamar de valorização da Cachaça são muitos e complexos. Mas informação, conhecimento e compreensão do que é o novo público da Cachaça são a base para a construção de um novo momento. Nesse sentido, é fundamental reconhecer o papel das mulheres na cadeia de produção e comercialização da Cachaça, bem como enquanto consumidoras.

É urgente trazer a cachaça para o século XXI. Não há mais espaço para amadorismo em nosso setor. É necessário que a tecnologia disponível seja utilizada para levar adiante a tradição de qualidade de 500 anos do mais antigo destilado das Américas.

Profissionalizar o nosso setor é uma responsabilidade e um compromisso que toda a cadeia produtiva da cachaça deve assumir. Isso se traduz desde a atividade no campo, passando pelo alambique e chegando aos distribuidores e à ponta do varejo.

Produzir cachaça de alta qualidade é uma difícil missão. Mas é preciso ainda mais: nossa tarefa é entregar uma experiência ao consumidor. Isso engloba investir esforços e recursos também fora da porteira. A coquetelaria é uma via que se abre para a ampliação do público consumidor de cachaça. Um mundo de sabores e possibilidades!

São indispensáveis o respeito e a compreensão dos papéis de cada ator na cadeia da cachaça, do campo ao copo. Uma relação de parceria entre distribuidores e produtores é imprescindível para que a cachaça chegue à mesa do cliente e tenhamos um mercado saudável.

Os debates do I CONGRESSO BRASILEIRO DA CACHAÇA  foram ricos e indicam rumos para o avanço do setor. No entanto, é preciso muito mais diálogo, busca de consensos e atuação coletiva, envolvendo todas as entidades representativas, para removermos os entraves do nosso mercado.

Um passo importante foi dado e muitos outros virão. Unidos, construiremos as respostas e atingiremos aquele que é nosso objetivo em comum: ampliar o público da cachaça, conquistar mais e mais corações para o destilado nacional brasileiro.

Viva a Cachaça!

Em parceria com Dirley Fernandes www.devotoscachaca.com.br