Aguardente clandestina: um problema de economia e saúde pública

Bebidas clandestinas inundam o mercado, impactam na economia e denigrem o nome da cachaça de qualidade

O alquimista suíço do século XVI Paracelso disse que:

Se não respeitadas as proporções, todas as substâncias são venenos, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio.

O que vemos hoje é que há muito veneno em potencial sendo vendido por aí sob o nome de “cachaça”. O problema é muito sério, pois vai além da “tradição” e das eventuais piadas de mau gosto estampadas em rótulos de bebidas questionáveis.  Embora seja uma missão espinhosa, alertar para esse fato, informar e denunciar é obrigação de todos que lidam com essa bebida e deveria ser, também, preocupação das autoridades constituídas, pois essa é, principalmente, uma questão de saúde pública.

 Alambique clandestino de fundo de quintal encontrado por fiscais do Ministério da Agricultura no interior de São Paulo em 2019.

A clandestinidade é um problema grave no setor de cachaças, certamente o maior deles. Tem fundo econômico, mas também cultural.  Até uns 25 anos atrás, era comum se ouvir dizer: “Cachaça de verdade quanto mais artesanal melhor”. Sem rótulo, enrolada na folha da bananeira, dentro na garrafa pet de refrigerante, tampa de rolha, com “bagacinhos” de cana boiando dentro. Era essa a cara da  tradicional cachaça de qualidade na época, sobretudo nas regiões interioranas do País.

Veneno oculto

Felizmente, e para  sorte da própria cachaça, esse cenário de informalidade mudou muito hoje, mas essa “cultura” ainda é presente no imaginário de muitos, principalmente das pessoas com menor acesso à informação. Nós, que estamos inseridos na cadeia produtiva da cachaça, como consumidores, produtores, comerciantes, blogueiros, etc., é que precisamos valorizar o que realmente tem valor. A informação é o diferencial.

A cachaça é produto de um manejo químico onde são encontrados elementos como etanol, metanol, ácidos, metais pesados, enfim, centenas de componentes. Muitos são desejáveis e não oferecem risco à saúde, até um certo limite, mas são prejudiciais ao organismo quando passam desse limite.

O cobre, por exemplo, presente nas famosas canas de cabeça, pode inviabilizar o funcionamento de rins e fígado, causando a cirrose hepática. Então, parafraseando Paracelso, tudo o que é demais é veneno, principalmente quando não sabemos a quantidade do “veneno” que estamos ingerindo.

Saiba o que você está bebendo

Da cana de açúcar, se extrai o açúcar e o metanol (álcool veicular); em excesso, um engorda e  causa diabetes, e o outro pode deixar sequelas como a  cegueira e até levar à morte. A cachaça tem os dois, mas se o produto tem registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), esses elementos são monitorados e controlados, ficando dentro dos limites considerados seguros para a saúde humana.

Isso não ocorre com a aguardente produzida e comercializada clandestinamente. É uma bebida que não paga imposto, não passa por inspeção, não tem garantia de procedência, além de concorrer de forma desleal com os produtores legalmente estabelecidos.

As famosas “canas de cabeça”, as “canas brejeiras” e as bebidas clandestinas metidas a engraçadinhas ocultam dentro de si verdadeiras bombas químicas. Essas aguardentes não passam por qualquer nível de fiscalização sanitária. O líquido dentro das garrafas, quimicamente falando, é um mistério que nem o  próprio fabricante conhece. É um risco enorme que não vale a pena correr.

 Sem fiscalização é comum a venda de aguardente clandestina, abertamente, em feiras livres Brasil afora (garrafa pet de 1,5 l, valor: R$ 5,00).

Se não tem rótulo nem registro no Mapa, não beba, não dê de presente (nem por brincadeira), não compre e nem permita que bebam.

Mais fiscalização

Existem estimativas sobre o nível de clandestinidade do setor de cachaças. Embora todos sejam absolutamente chutados, é certo que o volume passa da metade do que é legalmente comercializado. Em 2018, o Brasil produziu 1,2 bilhão de litros de cachaça legalmente. Decerto que outros 600 milhões de litros, no mínimo, foram vendidos de forma criminosa no mesmo período. Culpa de quem produz, culpa do governo que não fiscaliza, culpa de quem vende e, principalmente, culpa de quem consome.

Infelizmente, ainda é muito comum encontramos produtos vendidos sem o menor respeito às regras da legalidade e de respeito ao bom nome de uma bebida que é patrimônio nacional. Um trabalho de desvalorização que vai contra esforços descomunais de muita gente esforçada. Uma coleção dessas tristes imagens vai no fim da postagem.

Os produtores que trabalham de forma correta, em conformidade com as boas práticas de fabricação e aos princípios de respeito ao consumidor, clamam por maior fiscalização. Há que se fazer valer o poder de polícia das entidades responsáveis, pois só assim se criará uma concorrência salutar no mercado, a expansão dos negócios e, sobretudo, a geração de renda, emprego e dignidade a todos os que fazem parte do negócio da cachaça.

Lutemos pela valorização da cachaça e passemos a repudiar coisas e cenas como as que se seguem:

 

Mau gosto em série

 

Coisificação do corpo da mulher

 

É impressionante que tem gente capaz de comprar algo tão grotesco.

 

Senso de humor altamente questionável

 

A comunidade LGBT não merece algo tão bizarro.

Areia Representa a Paraíba na Expocachaça 2019

Produtores de cachaça da Cidade de Areia participam, pelo segundo ano consecutivo, da Expocachaça, em Belo Horizonte, MG.

 

De Areia para o Brasil

De 06 a 09 de junho de 2019, acontecerá em Belo Horizonte, Minas Gerais, a 29ª Expochaça , no Expominas, a mais conceituada vitrine mundial da cadeia produtiva da cachaça.

 

Todas as grandes marcas estarão presentes, incluindo as da Paraíba.

Como não poderia deixar de ser, a Paraíba estará presente ao evento. A Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA), com o apoio do Prefeitura da Cidade e do SEBRAE, fará,  pelo segundo ano consecutivo, a exposição e degustação das cachaças feitas nessa tradicional e histórica região produtora do nosso estado.

A associação é composta por 10 marcas associadas, sendo elas: Aroma da Serra, Cristal de Areia, Elite, Ipueira, Matuta, Princesa do Brejo, Serra de Areia, Triunfo, Turmalina da Serra e Vitória.  A finalidade da APCA é a obtenção do reconhecimento da Indicação Geográfica (IG) para a cachaça produzida na cidade de Areia. Além disso buscam o aprimoramento do processo produtivo e busca de novos mercados.  Sendo assim, a participação nesse evento é importante para mostrar e consolidar o conceito de que a cidade de Areia tem um produto diferenciado devido à sua localização, seu clima e sua cultura.

 

Apoio indispensável

Com a finalidade de dar subsídios ao setor da cadeira produtiva da cachaça no Estado, o Sebrae está apoiando a APCA com 50% do valor do estande e 50 % de passagens aéreas.  A prefeitura de Areia também contribuiu franqueando a ornamentação do estande. Outra ação da prefeitura é enviar,  junto com os produtores, o seu secretário de Turismo. A finalidade é buscar “know-how” e iniciar um projeto que visa trazer para Areia um evento nos mesmos moldes dessa exposição. Foi agendada uma reunião entre APCA, o secretário municipal de turismo de Areia e o diretor da Expocachaça para estudarem uma forma de parceria.

 

Na Edição 2018 a cachaça Matura trouxe prata para a Paraíba

 

Qualidade premiada

Além das exposições e espaços de prova e venda de produtos, a Expocachaça  tem um concurso de degustação às cegas onde as cachaças com maior pontuação são premiadas. Na edição de 2018 participaram da exposição cerca de 650 cachaças de 20 estados do Brasil.  A Cachaça Matuta (fabricada em Areia)  conquistou uma medalha de prata na degustação de cachaças brancas.

Nas degustações de cachaças os jurados dão notas de acordo com critérios como sabor, aroma e tempo de armazenagem nos barris. Do Nordeste, só a Cachaça Matuta e a cachaça Sanhaçú Freijó, de Pernambuco, conseguiram medalhas. Para este ano, no entanto, a expectativa entre os expositores é que consigam superar os resultados do ano passado, tanto nos negócios fechados durante a feira como nas premiações.

 

O ponto alto da exposição é a avaliação das cachaças

 

Constância de propósito

A APCA busca, constantemente, elevar e divulgar a qualidade das cachaças da região, em particular, e da Paraíba, como um todo. O objetivo para esse evento é utilizar a força e o pioneirismo da feira e a sua posição de maior e mais conceituada exposição de cachaça do mundo, visando fomentar negócios, promover e divulgar as marcas paraibanas. Como meta geral eles buscam promover, ainda, ações estratégicas de modo a ter influência nos ambientes politico, institucional da mídia e do mercado, gerando impactos significativos nas tomadas de decisões em prol da promoção, divulgação e desenvolvimento do setor no Estado e no Brasil.

ENTÃO, BOM EVENTO E TODA  SORTE DO MUNDO PARA AS CACHAÇAS DE AREIA E DA PARAÍBA

Uma Grande Mentira: as estórias contadas sobre o nascimento da cachaça

Uma grande mentira toma corpo na internet

A obra do historiador capixaba Eliezer Ortolani conceitua bem a nossa tendência a crer em coisas fantasiosas, segundo ele:

Nosso passado de escravidão, religiosismo e mitificações nos conduz a aceitar como verdadeiros atos e fatos sem um mínimo de base histórica. Nossa cultura, embasada no atavismo do imaginário português, nos impele à propensão ao aceite de coisas fantasiosas, mitos, lendas e estórias descaradamente mentirosas, que turvam, distorcem e escondem a realidade histórica dos fatos.

É exatamente reforçando essas fantasias e mentiras que circula pela internet, num número alarmante de páginas e até de trabalhos mais sérios, como algumas teses de mestrado e doutorado, uma mentirosa “história” sobre a origem da cachaça e das palavras aguardente e pinga. Um texto que agride a inteligência de qualquer pessoa munida de senso crítico e que pare para pensar no assunto durante um ou dois minutos.

Nós, como estudiosos da história da cachaça temos a obrigação de levar conhecimento e informação a todos os que se interessam pela verdade histórica dos fatos.

A mentira

Vejamos o que diz essa tão propagada lenda:

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou! O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo (fermentado). Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o “azedo” do melado antigo era álcool, que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente, era a cachaça já formada que pingava, por isso o nome (PINGA). Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ÁGUA ARDENTE. Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo. Hoje, como todos sabem, a AGUARDENTE é símbolo nacional!

 

As inconsistências históricas

Esse texto foi disseminado, de forma apócrifa, sem nenhum dado que permita saber de onde vêm as suas fontes de informação e sendo atribuído ao Museu do Homem do Nordeste, sediado em Recife, e isso é mais uma mentira, conforme esclareceu a coordenadora geral do museu, Vânia Brayner:

 “Caros, sinto informar-lhes que esta história nunca foi contada pelo Museu do Homem do Nordeste, em nenhum de seus escritos, exposições ou qualquer documento do Museu. Nós, que fazemos o Museu do Homem do Nordeste, estamos numa verdadeira saga na internet tentando descobrir de onde saiu essa história… do Museu, tenham certeza, não foi”.

Vamos começar nossa análise pelas inconsistências históricas: A aguardente (coisa e palavra) já existiam mesmo antes que o primeiro português pusesse o pé por essas bandas  do planeta. A data precisa é incerta, mas, embora a destilação já fosse conhecida pelos árabes desde a Idade Média, pesquisas situam o início da destilação de álcool em torno do século XII. O latim medieval aqua vitae, que teve descendentes em diversos idiomas, pode ter tido uma participação na formação do vocábulo, mas o sentido literal de aguardente está mais próximo do holandês vuurwater, “água de fogo”. O fato é que a ligação entre álcool e água aparece em inúmeras culturas (vodca e uísque também compartilham essa ideia), o que torna difícil dizer como começou.

Os primeiros registros do vocábulo aguardente em português datam do século XV, ou seja, antes do descobrimento. Em espanhol, aguardiente era termo usado desde 1406.  Estima-se que no início do século XIV a produção de bebidas obtidas pela destilação de cereais, uva e sucos fermentados de outras frutas atravessaram fronteiras e começaram a se popularizar em diversos países europeus. Temos como exemplo a Alemanha, que fez a cereja originar o kirsh; a Itália fermentou e destilou o mosto produzido pelo bagaço da uva e criou a grappa; a Rússia fez o centeio virar a vodca; a Escócia transformou cevada maltada no whisky e em Portugal, a sobra da vinificação da uva transformou-se na bagaceira, obtida pela destilação do vinho, do bagaço de uvas, de cereais, ou de outro produto vegetal doce. Nossa cachaça não ganha nem citação nominal, ofuscada pela bagaceira portuguesa, ou seja, a destilação já era totalmente conhecida e dominada por boa parte do mundo da época. A cachaça só foi criada no inicio do século XVI.

Já a pinga, outra palavra cuja etimologia o texto finge iluminar, surgiu muito tempo depois, registrada pela primeira vez em 1813. Vem de “pinga”, ou seja, “cachaça”, aplicada ao sentido de “gota”, “quantidade pequena de líquido”, do Latim PENDICARE, “pingar, estar pendurado”. A princípio tinha a acepção de “gole, trago” – por meio da ideia de algo que apenas se pinga no copo, em pequeno volume – e só depois, por extensão, virou sinônimo de cachaça.

A verdade

Os levantamentos históricos datam o nascimento da cachaça em três lugares distintos, Itamaracá – PE (1516), Porto Seguro – BA (1520) ou São Vicente – SP (1532). O fato é que a cachaça nasceu em algum lugar do litoral brasileiro , infelizmente, sucessivas guerras, invasões, saques  e incêndios deixaram muitos dos documentos históricos resumidos a memórias e registros de historiadores.

Colocados os “pingos nos is”, resta a certeza de que as primeiras produções de cachaça foram planejadas pelos colonizadores, nada foi ao acaso e nem invenção de escravos preguiçosos. Os europeus já dominavam as técnicas de destilação havia muito tempo, produzindo bebidas como a bagaceira. Uma evidência é que o nome mais aceito para cachaça vem do espanhol “cachaza”, um tipo de bagaceira de baixa qualidade produzida pelos ibéricos a partir das cascas e talos da uva. Como não tinham uvas aqui e os navios com a bagaceira demoravam muito entre os carregamentos, os patrícios improvisaram uma bebida com o resíduo da cana e foi daí que nasceu o nosso tão amado destilado nacional.

E PONTO FINAL.

 

Cachaças da Paraíba em Busca de Maior Reconhecimento Nacional

O Concurso Vinhos e Destilados do Brasil, antigo Concurso Mundial de Bruxelas – Brasil, terá sua 17ª edição entre 15 e 18 de julho, em São Paulo.

Em um movimento inédito entre os produtores paraibanos, seis casas produtoras se uniram para enviar, em conjunto, um total de 13 marcas para participar do concurso esse ano.

O Concurso, promovido pela revista Vinho Magazine, premia cachaças em duas categorias: sem amadurecimento em madeira e com amadurecimento em madeira. As premiações serão Duplo Ouro, Ouro e Prata, de acordo com a pontuação alcançada por cada bebida.

Para concorrer, os destilados, assim como os vinhos, precisam ser produzidos no Brasil e ter registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O corpo de jurados é formado por especialistas, apreciadores e compradores de grandes redes varejistas, Entre os nomes já confirmados pelo Concurso Vinhos e Destilados do Brasil, estão Carlos Cabral, do Grupo Pão de Açúcar, e o sommelier Dionísio Chaves.

A Paraíba estará fortemente representada por esse grupo de seis engenhos: Baraúna (com duas marcas), Cobiçada (com duas marcas), Gregório (com duas marcas), Nobre (com três marcas), Turmalina da Serra (com 2 marcas) e Triunfo (com 2 marcas), totalizando 13 marcas.

Independentemente de qualquer associação formal, esse grupo, também integrado pelos engenhos fabricantes das cachaças Sedutora e Marimbondo (que optaram por não enviar seus produtos esse ano), fechou um acordo entre si com os objetivos de: divulgar e abrir novos mercados para os destilados do grupo, sem desmerecer  nenhuma  marca e sim enaltecer as qualidades da cachaça paraibana; qualificar e buscar novos consumidores para as cachaças da Paraíba, em particular entre os apreciadores de cervejas, vinhos e outros destilados; participar de concursos nacionais e internacionais para dar mais visibilidade à cachaça produzida na Paraíba, dentre outros.

Pelo que conhecemos da qualidade e seriedade desses produtores, em breve estaremos aqui divulgando qual metal precioso cada cachaça conseguiu trazer para o nosso estado.

Dia Nacional da Cachaça

Sempre que chega essa data (21/05) eu preciso reforçar algumas informações, pois se faz  uma certa confusão acerca do dia 21 de maio como sendo o dia nacional da cachaça. Eu recebo (e agradeço) de vários amigos, mensagens sobre essa data, mas, a bem da boa informação, eu digo que há que se fazer uma correção: na data de hoje é comemorado o dia da cachaça mineira , a data se refere ao dia em que o então governador de Minas, Itamar Franco, assinou o decreto que regulamenta a produção de cachaça em Minas Gerais e também marca o início da safra no estado. Ela é comemorada desde 2001.

Já o dia Nacional da Cachaça é o dia dia 13 de setembro e foi escolhido em homenagem à data em que a cachaça passou a ser oficialmente liberada para a fabricação e venda no Brasil, em 13 de setembro de 1661.
Essa legalização só foi possível após uma revolta popular contra as imposições da Coroa portuguesa, conhecida como “Revolta da Cachaça“, ocorrida no Rio de Janeiro.
Até então, a Coroa portuguesa impedia a produção da cachaça no país, pois o seu objetivo extinguir nosso destilado e o substituir pela bagaceira, uma aguardente feita com bagaços da uva, um subproduto da produção do vinho. A criação do Dia Nacional da Cachaça foi uma iniciativa do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), e foi instituído em junho de 2009, desde então, comemora-se o 13 de setembro como o Dia Nacional da Cachaça.

Então, parabéns às cachaças mineiras e toda a sorte do mundo para as cachaças de todo o Brasil.

O Cachaçólogo, o Cachacier e o Cachaceiro

Muita gente pensa que cachaçólogo ou cachacier são a mesma coisa, outras nunca nem ouviram falar, mas vamos aos conceitos:

O Cachaçólogo é o estudioso da cachaça. Uma pessoa para ser um cachaçólogo não necessariamente precisa ser um grande conhecedor das propriedades sensoriais da bebida ou ter as habilidades degustativas tão apuradas, mas deve ser um estudioso sobre a história, cultura e ciência da cachaça e ajudar a registrar e divulgar todo esse conhecimento sobre o destilado. Se formos fazer uma comparação, a figura do cachaçólogo está para a cachaça, assim como o enólogo está para o vinho.

Já o Cachacier ou Cachacista é um profissional especializado em cachaças e todos os assuntos relacionados a ela. É o profissional que orienta os clientes de um bar ou restaurante sobre como e qual cachaça beber, dando informações sobre harmonização. Conhece profundamente todas as etapas de produção da bebida, do plantio da cana-de-açúcar até o engarrafamento e distribuição. Conhece sobre envelhecimento e madeiras das cachaças. Possui grandes habilidades degustativas. Cuida da compra, armazenamento e seleção de marcas e elabora cartas de cachaças em restaurantes, bares e hotéis. Conduz palestras e degustações para o público e presta consultoria a produtores e distribuidores de cachaça. O cachacier está para a cachaça assim como o someleir está para o vinho.

Por sua vez, o termo “cachaceiro” muitas vezes é atribuído, de modo muito pejorativo, às pessoas que bebem de forma irresponsável e sem limites. Na verdade, de cachaceiros deveriam ser chamados (para que a palavra tenha o seu uso correto) os produtores de cachaça, já que o sufíxo latino “…eiro” denota “aquele que faz”, como: cervejeiro, ferreiro, padeiro, etc. O mais indicado para se referir aos que bebem excessivamente seria chamá-los de ébrios ou alcoólatras. Assim, para fecharmos as comparações, o cachaceiro está para a cachaça assim como o “chef” está para o prato.

Então, da próxima vez em que você se referir a alguém que bebe demais, deixe a pobre da cachaça fora disso.

O que Bolsonaro tem a aprender com os “cachaceiros”

 

Há algumas semanas,  em resposta à declaração do ex-presidente Lula, de que o país está sendo governado por “um bando de malucos”, o Presidente da República  disparou que pelo menos não era governado por  “um bando de cachaceiros”.

Por óbvio, todos nós achamos a declaração lamentável. Se a intenção de Bolsonaro era se referir a um eventual abuso do uso de álcool pelo Lula, ele poderia ter usado termos como “bêbados”, “alcoólicos”, “ébrios”… Ao escolher “cachaceiro”, O termo lança sobre um único produto específico (A CACHAÇA)  todo o peso dos problemas do abuso do álcool, Bolsonaro alimenta preconceitos arraigados que são um grande obstáculo ao desenvolvimento do nosso destilado nacional, símbolo e orgulho do país.

Melhor fez o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que presenteou o ministro da Justiça, Sérgio Moro, com uma cesta de produtos mineiros, incluindo a Cachaça. Zema demonstrou consciência do valor econômico e simbólico da Cachaça, um produto com cinco séculos de história no Brasil e qualidades equivalentes às de qualquer um dos melhores destilados do planeta.

Se a cachaça mineira pode representar e refletir o valor de Minas Gerias e do seu povo, o mesmo vale para a Cachaça produzida em alto nível em muitos estados brasileiros, por exemplo, aqui na  Paraíba, a cachaça já é tida e vista por muitos como um produto representativo do nosso estado. E isso se deve ao trabalho e perseverança dos “cachaceiros” (que é o termo correto dados aos produtores de cachaça). Pessoas abnegadas e trabalhadoras que lutam contra vários fatores internos e externos para dignificar nosso destilado nacional.

Alguém seria capaz de imaginar o presidente francês dizendo que seus adversários são “um bando de bebedores de champagne”? Ou a Thereza  May da Inglaterra dizendo que seus adversários políticos são “um bando de bebedores de  wisque”? Iam levar era uma vaia e talvez um processo de impechmant.

Britânicos, franceses, russos, mexicanos orgulham-se e valorizam as suas bebidas nacionais. É exemplo que deveríamos seguir, inclusive o Sr. Presidente.

A Paraíba na EXPOCACHAÇA 2019

 

A EXPOCACHAÇA 2019

De 06 a 09 de junho de 2019, acontecerá em Belo Horizonte, Minas Gerais, a 29ª Expochaça e a 13ª Brasilbier, no Expominas, a maior e mais importante e conceituada vitrine mundial da cadeia produtiva e de valor da cachaça. O evento  nasceu em Minas Gerais em 1998, ha 21 anos, e ganhou a liderança no Brasil e visibilidade mundial.

A Feira será realizada em conjunto com a 13ª Brasilbier unindo as duas cadeias produtivas de bebidas artesanais  a cachaça e as cervejas artesanais.

A Expocachaça foi a principal responsável pela visibilidade atingida e pelo status de destilado nobre retirando a cachaça do gueto a que esteve relegada por muitos anos, dando promoção e divulgação à bebida nos mercados interno e externo.

Como não poderia deixar de ser, a Paraíba estará presente ao evento. A Associação dos Produtores de Cachaça de Areia, com o apoio do Prefeitura de Areia e do SEBRAE, fará, pelo segundo ano consecutivo, a exposição e degustação das cachaças produzidas nessa tradicional região produtora de cachaças da Paraíba.

O objetivo específico dos expositores paraibanos é utilizar a força e o pioneirismo do evento e a sua posição de maior e mais conceituada Feira e vitrine da cadeia produtiva da cachaça do mundo, para fomentar negócios, promover e divulgar as marcas paraibanas. Como meta geral eles buscam promover ações estratégicas de modo a ter influência nos ambientes politico, institucional da mídia e do mercado, gerando impactos significativos nas tomadas de decisões em prol da promoção, divulgação e desenvolvimento do setor.

Cachaça: breve história da ascensão do destilado nacional

Início Difícil

Apesar de ser tão antiga quanto o próprio Brasil, a cachaça nunca foi aceita pelas velhas elites brasileiras. Desde o início a cachaça sempre foi associada ao povão, às classes menos favorecidas. A partir de 1850, com o declínio do trabalho escravo e a intensificação econômica do café, surge no Brasil a elite dos Barões do Café, mais identificados com a cultura e hábitos europeus. Nesse cenário o padrão era: filhos educados na Europa; uso do fraque, bengala e cartola; a bebida era o puro malte escocês e cachaça era coisa de pobres e abrutalhados, pessoas incultas e de negros. Por muitos anos, esse era o padrão de sucesso nos negócios e na vida, admirado, invejado e copiado por todos.

Mas, de fato, nos anos pré-abolição, muita gente perambulava pelas ruas das cidades pedindo esmolas para comprar cachaça. Isso se agravou  depois da bem intencionada e mal planejada “Abolição dos Escravos”. Os negros escravos, de uma pra outra se viram sem trabalho, sem moradia, sem comida e sem as mínimas condições de subsistência. A partir de então, a cachaça viveu seus momentos mais tristes, servindo de refúgio para amenizar as dores da miséria e da fome. Aí começa a decadência da cachaça, que passa a ser vista como algo indesejado, como uma bebida de “pinguços”, desocupados e “cachaceiros” e esses termos pejorativos até hoje, denigrem a sua imagem.

 

A Semana de 22

O primeiro grande evento de resgate da cachaça, como uma bebida que merece respeito, foi a Semana de Arte Moderna de 1922, que buscava uma nova visão de pais e a apresentação de uma arte “mais brasileira”.

Nesse evento, estavam presentes os grandes nomes das nossas artes, como Tarsila do Amaral, Vila Lobos, Di Cavalcanti, Mário de Andrade. Mário de Andrade até apresentou uma obra chamada Eufemismos da Cachaça. Nesse evento, foi proibido servir outra bebida que não fosse cachaça, dizem que essa turma ficava de porre todo dia.

Início da Virada

Mas a cachaça continuou seu rumo, amada e odiada. Mas ali pelos anos 1940-1950 com o fim dos engenhos de açúcar mascavo, que foram obrigados a fechar por conta das emergentes usinas, que produziam o açúcar refinado branco em larga escala, várias propriedades ficaram de “Fogo Morto”, como diz no título do livro de José Lins do Rego. Muitos fecharam e os sobreviventes tiveram que se reinventar e focar sua produção na cachaça.

Mas, grande virada só começou mesmo por volta de 1995, 1996, onde, por pressão de produtores e por vontade política, o Governo de Fernando Henrique Cardoso começou a produzir as primeiras portarias e instruções normativas sobre a cachaça.  Só então é que foram definidas as regulamentações técnicas de fabricação, os procedimentos de registro de produtores, a classificação e rotulagem e os processos de fiscalização.

No bojo de tudo isso, veio também a melhoria de qualidade da bebida, a profissionalização da cadeia produtiva e um movimento forte de melhoria da imagem e da identidade da cachaça, isso através da mudança de rotulagem e das garrafas. Tirando a associação de deboche, embriaguez, desordem e bebida de pobre e colocando no lugar rótulos e nomes mais adequados a um novo público.  Um caso típico é o da cachaça Volúpia, que tinha no antigo rótulo um apelo muito sensual, era uma mulher seminua, com seios á mostra, uma exploração bem evidente do corpo feminino. Aí  mantiveram o nome, mas recriaram o rótulo, muito sofisticado e a bebida vem em lindas garrafas de porcelana, muito bonitas inclusive como itens de presente.

Os Desafios Atuais

O segmento teve avanços significativos nos últimos vinte anos. No entanto, há obstáculos a serem vencidos para que a cachaça alcance seu merecido lugar de destaque entre outros destilados do mundo, é preciso revisar a carga tributária incidente sobre a bebida, de acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), a cachaça é um dos produtos campeões de tributos do País: as taxas representam 81,87% do preço do líquido. Além de atrapalhar a progressão do setor, os tributos fomentam a informalidade – um problema de saúde pública. Dados preliminares do Censo Agropecuário 2017 revelam a existência de 11 mil produtores de aguardente de cana-de-açúcar no País.  Porém, somente 1,5 mil são registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O ministério tem somente um fiscal para cada 97 estabelecimentos. Como os agentes trabalham em dupla, a proporção sobe para 194 produtores por fiscal. É pouco!

Outra barreira a ser ultrapassada é o preconceito, mas isso já foi muito maior e em favor do segmento pesa o fato de as cachaças hoje terem muito mais qualidade. Há um aprimoramento nas embalagens e nos líquidos. Muitos consumidores brasileiros estão aprendendo a apreciar cachaças de qualidade. Bares e restaurantes finos oferecem carta de cachaça, o que não existia há 20 anos. Nesse sentido, o setor está em sintonia com a tendência mundial de beber menos quantidade e mais qualidade.