2019: um ótimo ano para o negócio da cachaça na Paraíba

 

Cachaças paraibanas: destaque em 2019

Como tem ocorrido nos últimos tempos, estamos fechando mais um ano com muito boas notícias para o negócio da cachaça no Estado.

O reconhecimento do nosso produto, outrora restrito a uma ou duas marcas de cachaças brancas, hoje é evidenciado pelo país afora. São diversos rótulos, premiados em vários concursos nacionais e internacionais. Cachaças brancas, descansadas ou envelhecidas demonstram a maturidade, a diversidade e a qualidade de nosso destilado, dentro e fora do pais.

Premiações

Cachaça Pai Vovô, a mais premiada do Brasil

Em abril a Cachaça Nobre Mandacaru recebeu medalha de prata no Concurso Internacional de Destilados, em São Francisco,Califórnia.

Na Expocachaça, em junho, as cachaças Ipueira e Matuta foram agraciadas com medalhas de prata e ouro, respectivamente.

Em julho, no Concurso de Vinhos e Destilados do Brasil, as cachaças Gregório, Baraúna Premium Carvalho,  Cobiçada e Pai Vovô, também receberam medalhas de prata, ouro  e duplo ouro.

Na Cúpula da Cachaça 2019/2020, das 250 cachaças eleitas como as m,ais queridas do Brasil, pelo voto popular, 18 delas são paraibanas. 50 serão selecionadas para a seleção final, em março de 2020.

Destaque do ano

Como grande destaque do ano eu aponto a Cachaça Pai Vovô, produzida em Sousa, no sertão Paraibano. Além do duplo ouro no já citado Concurso de Vinhos e Destilados do Brasil, ela venceu com duplo ouro  a Competição Internacional de Vinhos e Destilados na Inglaterra (abril). Duplo ouro no no Spirit Selection 2019, na China (junho). Medalha de ouro, em junho, no Superior Taste Award 2019, em Bruxelas.

Ipueira Carvalho na Expocachaça 2019

Essa foi, sem dúvida, a cachaça mais premiada da Paraíba em 2019 e estou certo de que foi, também, a mais premiada do Brasil.

 

Eventos

Além das premiações, os produtores paraibanos começam a se abrir para o resto do país, participando de feiras, eventos e exposições, o que aumenta a visibilidade das suas cachaças e abre espaço para negócios fora do Estado.

Assim, a Paraíba esteve presente, em 2019 , na Expocachaça (MG), além disso, participou do Salão Nacional da Cachaça, em Vitório (ES) e do Concurso de Vinhos e Destilados do Brasil (SP). Nesses eventos foram  vários produtores, que, numa nova forma de trabalhar o negócio da cachaça, estão se unindo em associações ou em uniões independentes, com o objetivo de alavancar, divulgar e mostrar a boa cachaça produzida por essas bandas.

Saiba tudo sobre o mundo da cachaça na Paraíba acompanhando nosso Blog e a coluna Confraria do Copo, na Rádio CBN, toda 6a feira ás 10h15.
Perguntas para a coluna, no instagram: @mauriciocarneiro083

Ipueira: cachaça com sabor de antigamente

Casa da moenda do Engenho Ipueira (Foto: Maurício Carneiro)

Utilizando métodos tradicionais de produção e maquinário secular, o Engenho Ipueira se renova e se reinventa.

Em pouco mais de 20 minutos vencemos os 11 quilômetros que separam a cidade de Areia, no Brejo Paraibano, do Engenho Ipueira, área rural da cidade e destino de nossa curta viagem. A estrada tem calçamento até o distrito de Mata Limpa. Seguindo, nas margens da estrada de terra e areia solta, a paisagem se mescla entre a mata nativa, plantações de agricultura familiar e a cultura da cana-de-açúcar.

Os 11 quilômetros nos fazem retroceder quase 100 anos. Chegamos ao pátio do engenho e nos sentimos voltando aos tempos em que o patriarca, Donato Feitosa, labutava com seu engenho. Fabricava rapadura, cuja cana era esmagada e moída na máquina produzida e patenteada pela empresa inglesa Wilian &A.Mc.Onie, fabricada em 1878, na cidade de Glasgow, Escócia. O bagaço era transportado nas padiolas banguê* e o doce cheiro do caldo de cana fervente exalava por toda a propriedade.

Como há cem anos, todo este cenário ainda está lá, vivo, ativo, vibrante.

A dama centenária e a garota propaganda

Transporte do bagaço da cana no banguê. (Foto: Maurício Carneiro)

Como saído de um livro de José Lins do Rego, dois rapazes colhem o bagaço após a extração do caldo e o transportam com um banguê para uma área que fica por trás das moendas. Será usado como combustível das fornalhas ou como adubo para as plantações de cana. Centenas de varas de cana-de-açúcar são impiedosamente esmagadas pela moenda centenária, extraindo o caldo que, em alguns meses, será brindado em copos e taças, sob a forma de cachaça.

A moenda chegou ao engenho Ipueira nos anos 1950, já vinda de outras batalhas, mas hoje continua presente e se impõe pela beleza. Pintada de cinza, parece nova e reluzente, como se acabada de desembarcar do navio que a trouxe da Europa. Mas ela não é uma velha enfeitada, nem uma aposentada peça de museu que testemunhou o passado. É, sim, uma bonita e ativa senhora, protagonista do seu tempo e trabalhando, há mais de um século, no que foi projetada para fazer: esmagando e moendo cana. Uma bela e orgulhosa Dama de Cinza. Sua beleza a habilitou a ser a “garota propaganda” do Engenho Ipueira. Seu perfil estampa o rótulo da sua cachaça premium (Ipueira Carvalho) e das embalagens de presente para as compras dos visitantes. Uma bonita homenagem a quem traz, impregnada nas suas engrenagens, o testemunho de vida e de trabalho de tantas gerações.

 

História

Conforme nos fala Anna Cristina Andrade Ferreira, a cana-de-açúcar sempre foi cultivada na região do Brejo paraibano, desde o início da colonização. Coexistia pacificamente ao lado das culturas alimentares e como atividade secundária durante o período de expansão do algodão. Com o declínio da atividade algodoeira, nos fins do século XIX, passou a dividir terras, de forma pacífica,  com a emergente cultura cafeeira.

Antes voltada para a produção do açúcar mascavo, de auto-consumo, a cana passou a ser utilizada como matéria-prima da rapadura e da aguardente.

Um dos alambiques do Engenho Ipueira (Foto Maurício Carneiro)

Os engenhos se multiplicaram, aumentaram sua capacidade produtiva e começaram a dominar a paisagem agrária. Suas moendas, antes de madeira, passaram a ser de ferro e os bois ou jumentos que as acionavam foram substituídos inicialmente pelo motor a vapor, em seguida, pelo motor a óleo diesel e posteriormente, pelo motor elétrico.

 

Celeiro do Sertão

A rapadura produzida no Brejo era vendida para os sertões dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Os sertanejos vinham ao Brejo com comboios de burros para transportar a rapadura. Para a venda e  alimentação durante a viagem, eles traziam a carne seca de bode. As tropas de burros partiam da região carregados de rapadura, e de aguardente além dos cereais ali produzidos: feijão, fava, milho e a farinha de mandioca. O Brejo torna-se um verdadeiro “celeiro do Sertão”.

Usina Santa Maria

Conforme esclarece Antônio Augusto Almeida, “com o fim do ciclo do café, ocorre a instalação, em 1930, da Usina Santa Maria, foi quando houve uma grande decadência dos chamados “engenhos banguê**”. Essa, certamente, foi a fase mais depredadora em relação ao meio ambiente e ao patrimônio cultural da região. Segundo Almeida, “indiferentes a tudo que não representasse interesse imediato a seus negócios (a cana-de-açúcar ou a pecuária extensiva), os novos proprietários destruíram a cobertura vegetal de proteção dos morros e as matas ciliares, as paisagens típicas, os engenhos banguê e as edificações de interesse histórico e arquitetônico. Tudo, como sempre, feito em nome do progresso”.

Foi nesse cenário conturbado que, em 1936, o Patriarca: Sr. Donato Feitosa, fundou o engenho Ipueira. Sua ideia era fazer a rapadura e ocupar o vácuo deixado pela saída dos outros engenhos, de fogo morto, fechados pelo domínio das usinas.

E a rapadura virou cachaça

Sempre voltado, exclusivamente, para a produção de rapadura, o Engenho Ipueira se modernizou. Suas moendas foram ganhando melhorias. Desde a sua fundação nunca fechou as portas. Nunca esteve de “fogo morto”, mesmo diante das grandes dificuldades de se trabalhar com um produto totalmente artesanal e enfrentar a concorrência dos produtos (rapaduras) feitos sem qualidade, com açúcar refinado e em larga escala. Assim o Ipueira atravessou as décadas, sempre acompanhado por sua Dama de Cinza, até desembocar nos anos 2000.

A Centenária Dama de Cinza (Foto: Maurício Carneiro)

Ricardo Feitosa foi criado dentro da bagaceira  do engenho. Preocupava-se com as dificuldades do pai em se manter e pagar as contas da propriedade apenas com a produção da rapadura. Resolveu empreender e dividir o doce ofício do Ipueira com a produção de cachaça. Isso após observar que o mercado estava se abrindo mais ao consumo de aguardente. Assim, em 2002, juntou umas economias e montou, no engenho, um pequeno alambique. Sua produção limitava-se a cerca de 250 litros/dia de cachaça e vendia sua produção a granel na região de Areia. Não tinha rótulo nem embalagem específica, mas a qualidade da cachaça diferenciou seu produto, que ficou conhecida como “a cachaça do engenho Ipueira”.

Com o passar do tempo, a qualidade da cachaça foi ganhando nome e mercado. A rapadura foi perdendo espaço até ser retirada da linha de produção. Ao mesmo tempo, o engenho passou a receber mais investimentos, nos processos de produção, nos alambiques e na qualidade do produto final.

 

Saindo da clandestinidade

Para crescer e se estabelecer no mercado, Ricardo Feitosa entendeu que deveria legalizar sua cachaça. Para a legalização, iniciou-se um grande trabalho de profissionalização do engenho. Todo o processo foi adequado de modo a atender às normas do Ministério da Agricultura para o registro da marca, desde a retirada da cana-de-açúcar do campo até a rotulação das garrafas. Nasceu, assim, oficialmente, em 2010, a “Cachaça Ipueira Cristal”.

Engarrafada em frascos de 275 ml, foi aceita de imediato pelo mercado, devido ao bom nome já cultivado ao longo dos oito anos como cachaça a granel.

 

 Crescendo com respeito às tradições 

Donato Feitosa Neto -Donatinho. (Foto: APCA)

Seguindo formas tradicionais de produção, a Ipueira tem toda a sua plantação de cana-de-açúcar própria e voltada exclusivamente para a produção de cachaça. Segundo Donato Feitosa Neto, o jovem administrador da propriedade e integrante da terceira geração da família nos negócios do engenho, “a cana utilizada é selecionada, de acordo com a sua produtividade, em particular as variedades desenvolvidas pela Ridesa  (SP79-1011 e RB867515). Apesar de serem variedades criadas comercialmente, estão plenamente adaptadas ao clima e solos do Brejo”. Donatinho, como é mais conhecido, nos falou que “o sabor das cachaças de Areia são únicos e se pegar cana de outra região, mesmo sendo da mesma espécie, isso vai alterar o sabor e descaracterizar a cachaça”.

Conforme presenciamos, uma fase crítica para a qualidade final do produto, o processo de fermentação, é feito de forma artesanal, com cepas de leveduras desenvolvidas no próprio caldo (não se utilizam leveduras comerciais). “Esse processo é cuidadosamente acompanhado por funcionários especialmente treinados, pois é nele onde as características sensoriais da cachaça são obtidas (aroma e sabor). Cada detalhe é importante, pois neles estão o diferencial entre se produzir uma cachaça especial ou uma cachaça comum”, explicou Donatinho.

Dos seus cinco alambiques, quatro funcionam com aquecimento a vapor e o pioneiro (primeiro alambique da propriedade) produz com fogo direto, onde o bagaço é queimado abaixo da panela do alambique. A produtividade por tonelada de cana é, em média, de 130 litros de cachaça e a meta de produção da safra 2019/2020 é destilar 500 mil litros.

Trabalho e conquistas

Diz o ditado popular que todo esforço será recompensado. E as recompensas pelo trabalho bem feito vieram em pouco tempo no engenho Ipueira.

Hoje a empresa possui um variado portfólio de cachaças, brancas e envelhecidas e em vários volumes e tipos diferentes de garrafas.

Linha da Ipueira (Foto: Areiartes)

Em 2013, apenas três anos após sua legalização, a Cachaça Ipueira ganhou o prêmio da associação dos Químicos da Paraíba em parceria com o Sebrae. Figurou entre as três melhores cachaças do Estado. Após isso, os proprietários focaram no refinamento da qualidade e na penetração do produto nos mercados do interior da Paraíba e na capital, João Pessoa. Além disso, buscaram o mercado dos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e outros do Nordeste.

APCA

A Ipueira é integrante da Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA). A Associação agrega nove produtores de cachaça da cidade, todos devidamente registrados no Ministério da Agricultura. Dentre outros objetivos, os associados buscam a obtenção da Indicação Geográfica (IG) para as cachaças da cidade de Areia/PB. A IG é um diferencial para os produtos característicos de uma região específica, o que lhes atribui reputação e identidade próprias, além de os distinguir em relação aos seus similares encontrados no mercado.

Novos horizontes

Com o processo da IG já avançado (neste mês de dezembro serão enviados os documentos aos órgão controladores), pode-se afirmar que a Ipueira, já em 2020, deverá ostentar em seu rótulo a distinção de Cachaça com Indicação Geográfica. Uma diferenciação que a habilitará a conquistar novos mercados, por sua qualidade reconhecida. Apenas três regiões  cachaceiras do Brasil possuem IG para a cachaça: Paraty (RJ), Salinas (MG) e Abaíra (BA). Em 2020 Areia entrará nesse rol.

Donatinho também nos explicou que, “num esforço conjunto de todos os nove associados, a APCA participou da Expocachaça 2019, levando as cachaças de Areia para Belo Horizonte, MG, na maior vitrine da cachaça no Brasil. Apesar de nunca ter participado de concursos, na categoria Carvalho Francês, a Cachaça Ipueira Carvalho ganhou a medalha de Prata. Nove cachaças que obtiveram pontuação para a prata e a Ipueira foi a melhor colocada dentre todas as concorrentes”. Ele esclareceu, ainda, que “não houve premiação com medalha de ouro para essa categoria, que é dada para pontuações a partir de 9,1. A Ipueira tirou 9,0″. Esta foi a primeira edição da Cachaça Ipueira em carvalho francês, que é uma tiragem limitada, armazenada por 5 anos”.

No ano de 2020, a Ipueira, juntamente com os demais associados da APCA estará novamente presente na Expocachaça, para repetir ou ampliar a premiação deste ano. “A tendência é que a associação, com a IG, participe mais ativamente de concursos de destilados pelo Brasil afora, vamos mostrar os atrativos de nossa região e a qualidade diferenciada do nosso destilado”, declarou o empresário.

Ipueira

Ipueira Carvalho. Prata na Expocachaça 2019 (Foto: Maurício Carneiro)

Situado numa área de privilegiada beleza, o Engenho Ipueira produz em 42 hectares de cana, tendo no total  400 hectares incluindo uma reserva florestal nos seus domínios. Suas terras são úmidas e férteis, com nascentes de água e mata preservada.

Desde o início da cultura canavieira no Brejo, até os dias de hoje, as áreas mais propícias para a plantação de cana-de-açúcar são as várzeas dos rios e as baixadas úmidas e férteis entre as encostas dos morros. Na região de Areia existem muitas várzeas, tanto é que, antigamente, a cidade já teve o nome de  Brejo d’Areia.

Brejo, alagadiço, várzea, ipueira. Todas denominações de regiões propicias à plantação de cana-se-açúcar.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, “ipueira” é um tipo de charco, terreno instável que se forma em lugares baixos, devido às enchentes dos rios.

Diferentemente do significado do seu nome, o Engenho Ipueira cresce vigoroso, não em área movediça ou encharcada, mas em terreno firme. Seu crescimento se apoia sobre bases sólidas, respeitando e se orgulhando do seu passado, buscando aprimoramento no presente e vislumbrando o futuro de forma planejada.

A Dama de Cinza ainda vai testemunhar muitas histórias de sucesso, pois tem saúde para trabalhar firme por muitos anos e estará presente em todas as grandes conquistas da Ipueira.

 

*Banguê: Estrado feito de cipós ou madeira, carregado por duas pessoas, para transporte de material (em especial bagaço de cana)
*Engenho Banguê: Os engenhos tipo “banguê” eram movidos a tração humana, animal ou rodas-d´água e produziam açúcar mascavo.

Patrimônio Histórico, Areia busca selo de Indicação Geográfica para suas cachaças

Areia-PB. Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Foto: Marco Pimentel)

 

Por MAURÍCIO CARNEIRO

A Indicação Geográfica (IG) é um diferencial para os produtos característicos de uma região específica, o que lhes atribui reputação e identidade próprias, além de os distinguir em relação aos seus similares encontrados no mercado

A surpresa e a sensação de que se está entrando num lugar especial vêm logo no início: postes, calçadas, janelas e praças estão enfeitadas. São jardins e vasos de flores que ladeiam ambos os lados da avenida que dá entrada à cidade. A ação é uma iniciativa dos moradores, como forma de dar as boas-vindas a turistas e visitantes. Estamos em Areia, na região do Brejo paraibano! Ela nos recebe com flores, história, alegria e cachaça… muita cachaça!

A partir de agora, você vai conhecer um pouco mais sobre essa bela cidade e saber como a possível conquista do chamado Indicador Geográfico deve atrair mais investimentos e turistas à região. Venha comigo nesse passeio!

Cidade especial

Detalhe do Centro da Cidade (Foto: ferias.tur.br)

A bela e histórica cidade de Areia (1846), berço do pintor Pedro Américo e do escritor José Américo de Almeida, tem seu centro histórico tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 2006. Isso garante que os prédios são protegidos por lei federal específica e assegura sua preservação contra danos ou reformas indevidas, impedindo a descaracterização dos imóveis. Para conceder tal distinção, o Iphan baseou-se no valor histórico, urbanístico e paisagístico atribuído ao conjunto e na ativa participação da cidade nas revoluções ocorridas no século XIX. Na área tombada, existem cerca de 420 imóveis.

Situada na microrregião do Brejo paraibano, a cidade fica no topo da Serra da Borborema, a 618 metros de altitude em relação ao nível do mar, com uma população estimada em 22.940 habitantes (IBGE-2016).

Teatro Minerva, inaugurado em 1858 (Foto: Maurício Carneiro)

Dentre suas jóias arquitetônicas, destacam-se o Teatro Minerva, inaugurado em 1858, o Museu da Rapadura e o Museu Casa de Pedro Américo.  Além disso, o visitante pode conhecer a antiga Igreja de Nossa Senhora do Livramento, construída em 1861.

O centro histórico exala um clima bucólico que ameniza as tensões e o estresse da corrida vida das cidades grandes. À primeira vista, pode até passar despercebido aos desavisados, mas essa pacata cidade guarda, em seus casarões coloniais, nas suas ruas de paralelepípedo e nos seus engenhos de cachaça, seculares histórias de superação, paixão e orgulho.

Prepare os sentidos e as taças de degustação, afinal, estamos em Areia: Capital Nordestina da Cachaça!

O café preservou a cachaça

Parte do casario histórico de Areia, tombado pelo IPHAN (Foto: Tinho Santos)

A beleza arquitetônica da cidade foi construída desde o século XIX até os últimos anos da década de 1920. Os responsáveis foram os emergentes barões paraibanos do café, cuja cultura desenvolveu economicamente toda a região do Brejo da Paraíba na época.

Segundo o historiador Celso Mariz, no livro “Apanhados Históricos da Paraíba”, em 1919 a região do Brejo chegou a ter seis milhões de pés de café; a cidade vizinha de Bananeiras, sozinha, produziu 2.250 toneladas de café cereja em 1920. Assim, o vigor da cultura cafeeira protegeu as terras brejeiras contra a avidez da nascente classe dos usineiros que, no início do século XX, começou a expandir seus domínios e comprar muitas propriedades para a plantação da cana-de-açúcar em larga escala, para satisfazer a fome das usinas de açúcar, dizimando a cultura dos pequenos engenhos, que produziam o açúcar mascavo, a cachaça e a rapadura.

Felizmente, a Paraíba não teve o mesmo destino do vizinho estado de Pernambuco. A historiadora Maria de Lourdes Baptista Rodrigues, em seu trabalho, “Engenhos de Pernambuco”, nos esclarece que, neste Estado, entre o final do século XIX e início do século XX, os usineiros reduziram centenas dos pequenos engenhos a escombros, em favor das vastas plantações de cana, impondo, dessa forma, o domínio das usinas de açúcar sobre as antigas formas de produção.

Segundo Emília de Rodat Moreira, no estudo “Processo de Ocupação do Espaço Agrário Paraibano”, essa “proteção” do café também preservou a cultura da cachaça, da rapadura e do mel dos antigos engenhos, que coexistiam pacificamente com a cafeicultura.

Essa barreira protetora não foi totalmente efetiva, mas retardou em muito o império das usinas no Brejo paraibano, tanto é que, apenas em 1930, após o fim do ciclo do café, houve a implantação da primeira usina na região, a Usina Santa Maria. Isso deu tempo para o fortalecimento das pequenas propriedades e, apesar do fechamento de dezenas de engenhos, vários resistiram e sobreviveram.

Esses elementos históricos e a dinâmica dos ciclos e microciclos econômicos, experimentados na região, explicam o vigor e a diversidade hoje vivida pela indústria cachaceira do Brejo, se comparados com o desempenho de outas regiões da Paraíba e do restante do Nordeste.

Assim, Areia colocou o DNA da cachaça de forma definitiva no seu perfil econômico, o que a diferencia hoje de qualquer outra do Nordeste brasileiro.

Necessidade de unir forças

Em 2017, conforme o Censo Agropecuário, foram identificados 61 engenhos nas nove cidades do Brejo paraibano (entre os legalizados, os em fase de legalização e os clandestinos). Ao observar a falta de união entre produtores de cachaça do restante do Estado, os proprietários dos engenhos de Areia resolveram se unir, com o objetivo de buscar formas eficientes de agregar valor, poder de barganha e visibilidade às cachaças da região.

Thiago Baracho, Presidente da APCA – PB. (Foto: Engenho Triunfo)

Assim nasceu a Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA-PB), cujo presidente, Thiago Baracho, é, também, o responsável técnico da Cachaça Triunfo. “A proposta da associação baseia-se no esforço unificado de um grupo de produtores para alcançar benefícios comuns que atendam às demandas e necessidades do negócio da cachaça na região e da própria cidade de Areia”, explica Thiago.

APCA e a Indicação Geográfica

Areia é a quarta cidade do Brasil com maior número de estabelecimentos produtores de cachaça (Anuário da cachaça 2019). Para os especialistas, técnicos e degustadores, as cachaças produzidas na região do Brejo paraibano possuem características únicas, seja pelo clima e topografia (região de altitude média-alta, com clima variando entre 12°C e 31°C ao longo do ano), seja pelos elementos químicos e orgânicos que compõem o solo, ou ainda pela variedade de cana-de-açúcar ou mesmo pelos processos e peculiaridades na fabricação.

 

Outra característica diferenciada é a importância da cachaça como elemento sócio-cultural. A dinâmica de vida dos areienses, literalmente, sempre se entrecruza com a aguardente, nos mais diversos aspectos cotidianos. Tanto é que, na Paraíba, o fato de alguém dizer que vai visitar Areia, sempre traz o significado, nas entrelinhas, que essa pessoa vai beber ou comprar cachaça (e os pedidos de encomendas são inevitáveis). Areia tornou-se sinônimo de cachaça – da boa.

Tudo isso habilitou, os produtores de Areia, que pleiteassem uma Indicação Geográfica (IG) para as suas cachaças.

A IG é conferida a produtos que são característicos do seu local de origem, o que lhes atribui reputação, valor intrínseco e identidade própria, além de os distinguirem em relação aos seus similares disponíveis no mercado. São produtos que apresentam uma qualidade única em função de recursos naturais como solo, vegetação, clima e saber fazer (know-how ou savoir-faire). O Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi), órgão do Governo Federal, é o responsável por emitir os registros da IG. No Brasil, apenas três regiões possuem IG para a cachaça: Paraty (RJ), Salinas (MG) e Abaíra (BA).

Unindo forças

Thiago Baracho explica que a APCA foi fundada em 2017, tendo como um dos seus objetivos principais justamente o reconhecimento de uma Indicação Geográfica para a cachaça produzida exclusivamente na cidade de Areia, salientando sua diferenciação técnica, geográfica e sensorial das demais presentes no mercado.

Segundo ele, “na composição da associação estão dez engenhos: Aroma da Serra, Cristal de Areia, Elite, Ipueira, Matuta, Princesa do Brejo, Serra de Areia, Triunfo, Turmalina da Serra e Vitória. Todos registrados junto ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa)”.

O processo para que todos os requisitos do Inpi fossem atendidos demandaram mais de dois anos de trabalho, num esforço conjunto da APCA e do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Campus Areia.

Docente do IFPB, a pesquisadora Maria Cláudia Rodrigues Brandão (doutora em Ciências com habilitação em Química Orgânica) foi a responsável pelo desenvolvimento e adequação de toda a documentação referente ao pedido de IG, além de ter elaborado o levantamento histórico relativo à produção de cachaça na cidade.

A documentação será enviada ainda neste mês de dezembro para o Inpi. Serão necessários até sete meses para a conclusão de todo o processo. Isso nos faz crer que, em 2020, os produtores associados poderão ostentar nos rótulos de suas cachaças o selo de produto com Indicação Geográfica de Areia/PB, sendo a quarta região cachaceira do Brasil a conseguir tal feito e o segundo IG da Paraíba – o primeiro foi do algodão colorido, em 2012.

Dinamismo econômico

A produção cachaceira de Areia é responsável por uma grande parcela da produção da bebida no Estado; de fato, é a maior força econômica da cidade. Segundo dados da Receita Estadual, as cachaças da cidade respondem por 45% da arrecadação de ICMS sobre o produto na Paraíba e um dos associados, a Cachaça Matuta, figura entre os 100 maiores pagadores desse imposto no estado, ano de 2018.

Coleta da cachaça ao final da destilação (Foto: Maurício Carneiro)

De acordo com Thiago Baracho, os dez associados da APCA produziram cerca de 5 milhões de litros de cachaça na safra 2018/2019, aquecendo e sustentando a economia da região. Juntos, os engenhos ofertam 200 empregos diretos, número que sobe para 500 na época da safra, nas atividades de corte, moagem, destilação, engarrafamento etc. “Os empregos indiretos contabilizados chegam a mais de 2.000”, destaca o presidente da APCA.

 

O que muda com o selo de Indicação Geográfica?

Legalmente, o principal efeito do reconhecimento de uma Indicação Geográfica pelo Inpi é a não diluição do nome geográfico. Isso impede o seu uso por terceiros, como marca ou expressão de propaganda, bem como dificulta que o mesmo se torne nome comum e designativo da própria coisa. Por exemplo: o termo “carne de sol de Picuí” (produto evocativo de uma cidade paraibana famosa por sua carne de sol), que hoje é utilizado em todo o Brasil, consiste em uma designação genérica da carne de sol. Ou seja, Picuí perdeu sua identidade geográfica. O mesmo ocorre com a cachaça, produto genérico que pode ser fabricado em qualquer lugar do país.

Com a IG, o consumidor terá a certeza de que estará consumindo um produto específico e legítimo, produzido na Capital Nordestina da Cachaça (como sempre insisto em chamar): Areia/PB.

A IG poderá, ainda, ser utilizada pelos seus titulares como um instrumento de competitividade no mercado, estabelecendo estratégias coletivas de divulgação e controle, buscando a fidelização do consumidor e uma diferenciação ante os produtos similares.

 

Fórmula vencedora

Além de ser uma cidade com vários atrativos naturais e Patrimônio Histórico Cultural Nacional, Areia, com a IG, terá um maior vigor econômico, nos empreendimentos impulsionados pelo negócio da cachaça, tais como o turismo rural, turismo etílico, eventos, bares e restaurantes, empreendimentos imobiliários, hotelaria, dentre outros. Isso em decorrência de uma nova visão e comportamento do consumidor com relação à cachaça, visão esta que abrange não apenas o líquido em si, mas todo um conjunto de aspectos multifacetados.

Os novos consumidores da cachaça buscam mais que o simples líquido (Foto: Maurício Carneiro)

Observa-se que o consumo da cachaça caminha para a conjugação entre elementos de diferentes setores econômicos: a experiência sensorial proporcionada nas degustações, aliada à gastronomia local (possibilitando excelentes oportunidades de harmonização com a cozinha regional) e enriquecida pelo turismo nas localidades de produção das bebidas. Temos, assim, um ciclo virtuoso, onde todos ganham.

É importante salientar, ainda, um cuidado maior do consumidor, que, nessa busca por experiências sensoriais diferentes, e maior qualidade, passou a observar melhor e diferenciar as características da bebida, seus modos de preparo, a responsabilidade social de empresas e produtores e os aspectos relacionados aos cuidados com o meio-ambiente. Itens que os produtos e os produtores de Areia já atendem naturalmente.

A tudo isso podemos somar as qualidades únicas de Areia (seu clima, sua arquitetura, sua cultura, sua brejeirice) e teremos, ao final, uma fórmula vencedora, um verdadeiro caso de sucesso, cuja história eu me orgulho de estar agora, vivenciando, contando e propagando.

Um brinde à cachaça e ao povo de Areia!!!

Acordo abre portas do Mercosul para as cachaças paraibanas

Primeira indicação geográfica do Brasil, a Cachaça é hoje protegida no Chile, Colômbia, EUA e México e seu reconhecimento já faz parte dos acordos assinados entre o Mercosul e a União Europeia.

 

O Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC) comemora o acordo para a Proteção Mútua de Indicações Geográficas (IG) celebrado pelos países do Mercosul.

Assinado entre uma série de acordos realizados na cúpula de chefes de Estado, que foi encerrada nesta quinta-feira, 5 de dezembro, no Rio Grande do Sul. A negociação permitirá que produtos de um país integrante do bloco sejam automaticamente reconhecidos no outro país membro.

De acordo com Carlos Lima, diretor executivo do IBRAC, o acordo representa uma evolução significativa na proteção de ativos brasileiros, como a cachaça, um produto genuinamente nacional, cuja história está intrinsecamente ligada à história do Brasil, e que gera mais de 600 mil empregos diretos e indiretos.

Em 2018, o Brasil exportou para o Mercosul U$ 2,8 milhões de dólares de cachaça, o equivalente a 2,2 milhões de litros da bebida. (fonte: ComexStat) e o reconhecimento poderá representar mais investimentos na exportação.

Primeira indicação geográfica do Brasil, a Cachaça é hoje protegida no Chile, Colômbia, EUA e México e seu reconhecimento já faz parte dos acordos assinados entre o Mercosul e a União Europeia.

A cachaça paraibana poderá ser beneficiada amplamente por esse acordo, haja vista que a Paraíba é um dos grandes produtores nacionais da bebida e várias ações, no sentido da exportação, estão sendo executadas por alguns produtores. Atualmente, apenas o Engenho São Paulo exporta cachaças no estado, para os EUA, porém, esse quadro tende a mudar já em 2020, pois exportadores europeus estão em tratativas com produtores paraibanos e, ao que tudo indica, ocorrerá o primeiro lote de exportação no primeiro trimestre do próximo ano.

A abertura dos mercados do Mercosul abrirá novas possibilidades de exportação e é muito provável que, em breve, as nossas cachaças estejam expostas nas prateleiras dos nossos vizinhos sul-americanos.

Cachaça Volúpia encerra 2019 com chave de diamante

Além do apuro técnico e da qualidade, muitos dos apreciadores da cachaça fazem questão de ter seus produtos envoltos em belas embalagens, que valorizem ainda mais a experiência de consumo.

Os dois lançamentos: Volúpia Diamante a Volúpia Premium

Após grande expectativa de comerciantes, consumidores e dos que atuam na cadeia produtiva da cachaça, a Volúpia lançou sua nova linha de garrafas na noite da última sexta-feira (29).

Os convidados puderam conhecer, em primeira mão, as belíssimas garrafas da “Volúpia Diamante” e  da “Volúpia Premium”, num jantar no Restaurante Nau Frutos do Mar, em João Pessoa/PB.

Na ocasião, o anfitrião Vicente Lemos, proprietário da marca, declarou que aquele momento era o ponto culminante de um sonho acalantado por mais de oito anos. Durante todo esse tempo, ele lutou continuamente para conseguir colocar sua premiada cachaça dentro de uma garrafa própria e exclusiva – e finalmente conseguiu.

 

A história da garrafa

Pioneira no Brasil na inovação das embalagens de suas cachaças, a Volúpia foi a primeira marca a ser engarrafada em recipientes de porcelana, em 1996, conferindo nobreza e refinamento à bebida que, à época, sofria ainda muito preconceito. Com o sucesso desse empreendimento, os concorrentes também passaram a engarrafar as suas bebidas em porcelana e foi daí que surgiu o desejo de que a Volúpia tivesse sua garrafa exclusiva.

Com essa ideia na cabeça, Vicente Lemos contratou um escritório holandês de designe e, em 2014, submeteu seu projeto ao concurso Design Export, sagrando-se um dos vencedores.

Nesse concurso, que ocorre anualmente, os projetos selecionados recebem apoio técnico e financeiro para desenvolver o desenho e o visual dos produtos e embalagens. A iniciativa é da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e do Centro Brasil Design (CBD). O objetivo é incentivar o uso do design pela indústria brasileira como ferramenta estratégica para aumentar e fortalecer as vendas.

Com essa conquista o projeto da garrafa teve seu desenho industrial financiado pelo governo federal e foi patenteada pelo Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial). Dessa forma, tornou-se apta para ser levada à linha de produção.

A empresa responsável pela fabricação foi a Premier Pack, companhia paulista especializada em embalagens de vidro. Segundo Cecília Helena Silva, integrante da equipe comercial da empresa, que estava presente ao lançamento, “a Premier  atende a diversas empresas dos segmentos de bebidas, alimentos, perfumaria e cosméticos e está extremamente orgulhosa de ter participado de um projeto tão bonito e que, fatalmente, está destinado ao sucesso”.

De acordo com Vicente Lemos, todo o projeto englobou um desembolso total de cerca de R$ 300 mil, mas este é um investimento que certamente terá rápido retorno. Prova disso é que, segundo ele, apenas no primeiro dia após o lançamento, foram vendidas mais de 3.500 garrafas, o que demonstra que os parceiros comerciais e os consumidores aprovaram completamente os produtos lançados.

 

Qualidade diferenciada

Exclusivo baixo relevo com a logo da marca

Os produtos lançados são a Volúpia Diamante, que é uma cachaça branca armazenada em toneis de jequitibá rosa, com graduação de 40% de volume alcoólico, e a Volúpia Premium, envelhecida por dois anos em carvalho americano, o puro malte das cachaças, e também possui 40% de volume alcoólico.

De acordo com a declaração de Rafael Lemos, diretor comercial da Volúpia, “esta cachaça está posicionada para a faixa de consumidores que buscam um produto mais refinado e de alto valor agregado. Perguntado sobre se existem planos de venda para fora do país ele respondeu: “Antes de buscarmos o mercado externo vamos priorizar nossos esforços no mercado interno, pois ainda temos muita demanda não atendida nas faixas de consumidores de maior poder aquisitivo”.

A garrafa de 700 ml traz seu rótulo impresso no próprio vidro e apresenta um detalhe retrô: um bonito baixo relevo com a logo da Volúpia, um verdadeiro item de colecionador.

Esses produtos somam-se ao variado portfólio da marca, que conta com várias opções de embalagens em vidro e porcelana, o que se tornou um dos diferenciais da Volúpia.

 

Parcerias de longas datas

Dentre os presentes ao evento, havia vários comerciantes que trabalham com a marca Volúpia. Benjamim Ferreira, proprietário de lojas de conveniência na região litorânea de João Pessoa, conversou com o blog e nos falou que seu nicho principal são os turistas. Segundo ele, os clientes já chegam às suas lojas sabendo exatamente o que querem e que a cachaça Volúpia está entre os itens mais procurados: “Trabalho há mais de 25 anos com a Volúpia e hoje ela é uma referência nacional, tanto pela qualidade como por suas embalagens, perfeitas para se dar um belo presente”. Ele complementou dizendo: “O Vicente é um cara muito inovador e sempre está trazendo novidades para a sua cachaça e as garrafas dele fazem toda diferença, é qualidade muito bem apresentada, o que facilita na decisão do consumidor e na hora de fechar a venda”.

O editor com Vicente Lemos, durante o evento.

Já Vicente Lemos, ressaltou que suas parcerias sempre têm vida longa e profícua. Muitos dos seus parceiros são fieis à marca há décadas, concluiu.

 

Uma história de sucesso

A Volúpia é fabricada no Engenho Lagoa Verde, município de Alagoa Grande-PB, localizado a 105 Km da capital, João Pessoa.

O refinamento técnico, os cuidados no processo de fabricação, a capacitação do pessoal e a ótima qualidade da matéria prima fazem com que as moendas e os alambiques da empresa entreguem uma das melhores cachaças do Brasil.

Criada em 1946, pelo patriarca Otávio Lemos de Vasconcelos, a Volúpia vem atravessando o tempo sem perder seu foco na alta qualidade, na ética, na honestidade, nos relacionamentos e no constante compromisso com a inovação. Assim, desde 2003, vem colecionando premiações nacionais, tornando-se uma das cachaças mais premiadas do Brasil.

O sucesso e o reconhecimento nacional da Cachaça Volúpia foram um dos grandes impulsionadores da elevação do nível de qualidade da produção cachaceira paraibana hoje. Certamente, o Sr. Otávio estaria muito orgulhoso de ver sua cachaça tornar-se um produto premium e servida em lindas garrafas com nome de diamante.

Pesquisadora de Salinas comprova a existência do “terroir” da cachaça

Um dos temas mais debatidos no mundo da cachaça é a validade do uso do termo “terroir” para o nosso destilado.

Por Dirley Fernandes

Comum no universo do vinho e largamente utilizada por destilados europeus, a expressão é de uso corrente por muitos apreciadores da Cachaça, enquanto outros a rejeitam, sob o argumento de que o processo de destilação elimina traços de origem geográfica existentes na cachaça. Pois, no recente Seminário Mineiro da Cachaça, a engenheira de Alimentos Roberta Magalhães Dias Cardozo, do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), apresentou uma importante colaboração para o debate a respeito do terroir da cachaça. Com uma pesquisa muito bem fundamentada, utilizando quimiometria e redes neurais, entre outros recursos, a engenheira de alimentos chegou a uma espécie de “fórmula do terroir” (a definição é nossa) que pode ser utilizada para identificar a origem de uma determinada amostra de cachaça.

Antes de mais nada, é preciso uma definição do significado do termo terroir. E existe uma formulada pela ONU (e citada nesse artigo de Maurício Maia para a Cachaça em Revista, da Cúpula da Cachaça): “(Terroir) É uma área geográfica limitada onde uma comunidade cria e transmite, através das gerações, um grupo de características culturais distintas, conhecimentos e práticas baseadas nas interações de fatores ambientais, geográficos e humanos. A combinação de técnicas envolvidas neste processo confere originalidade, tipicidade e leva a uma notoriedade para seus produtos, originados nesta área geográfica e produzidos pelas pessoas que lá habitam (…) São entidades vivas e espaços inovadores que não podem ser reduzidos unicamente à sua tradição”.

Assim, esse editor sempre defendeu a existência e a importância do terroir da cachaça, tendo como base as técnicas de produção variadas em diferentes territórios do país – diferenciações essas que vêm de elementos da tradição, de condições climáticas próprias etc…

Muitos gatos mestres, no entanto, não aceitavam essa posição, sob o argumento de que era impossível definir, pelas suas propriedades químicas, a origem de uma determinada cachaça. Pois a professora Roberta defende que isso é perfeitamente possível e, em um estudo com mais de cem páginas, fruto de uma pesquisa de um ano e meio com cachaças oriundas de Salinas (MG) e Paraty (RJ), chegou a uma fórmula que, aplicada a qualquer cachaça das duas localidades, determina, com margem de erro mínima, se a origem da bebida é uma ou outra cidade. O método pode ser aplicado para outras regiões produtoras, desde que haja uma quantidade razoável de amostras para alimentar o sistema.

Roberta Cardozo, do IFNMG
Prof. Roberta Cardozo

O Devotos da Cachaça conversou com a professora, cuja apresentação foi um dos destaques entre as várias exposições de altíssimo nível do inovador II Seminário Mineiro da Cachaça.

Por que você resolveu se debruçar sobre esse tema das diferenciações regionais da Cachaça?

Tem esse “terroir da cachaça“, que sempre se fala em tantos seminários sobre a bebida… Mas o que diferencia, de fato, as localidades? Essa era a minha pergunta inicial. Tem o sensorial, perceptível para os conhecedores, mas isso não é determinante cientificamente; o que vai determinar uma possível diferença é a físico-química. E eu queria estudar algo diferente na área da Cachaça. Sou de Salinas, não é? Eu já tinha aplicado estatística multivariada ao queijo e ao café no meu mestrado, que é na área de estatística aplicada a alimentos e bebidas. Eu quis levar isso para a cachaça. Só que queijo e café são produtos muito mais padronizados que a cachaça. Mas justamente por ser mais complexo, eu resolvi tentar.

E por que Salinas e Paraty?

A gente considerou as localidades com Indicação Geográfica (IG) para cachaça, porque acreditamos que encontraríamos uma padronização maior. Precisávamos de um número de amostras considerável. Mas Abaíra (na Bahia, uma das três regiões com IG no Brasil) tinha poucos produtores que tinham aderido, de fato, à IG. Achávamos que Paraty tinha um número de produtores maior. Ficamos surpresos quando chegamos lá e só havia seis. Achávamos que seria um universo como Salinas (com quase cem marcas).

Isso não atrapalhou?

Nós conseguimos um número razoável de amostras, com diferentes lotes. Os produtores ficaram receosos, inicialmente, com temor de que a análise fosse usada para algum tipo de fiscalização… Chegamos a cerca de cinco dezenas de amostras em Paraty. Em Salinas, foi mais fácil.

O que te chamou a atenção inicialmente nessas amostras?

As diferenciações entre os lotes dos mesmos produtores. Não se consegue manter o padrão entre as safras. Mas juntamos uma base de dados interessante e começamos a aplicar as técnicas estatísticas: análise de fator, correlações canônicas, análise de agrupamento… São técnicas que subsidiam a rede neural, que é uma técnica computacional. Foi um trabalho de um ano e meio. Começamos analisando o cobre, mas encontramos amostras com padrões extremamente distintos.

Entendo. Aí, você partiu para outros parâmetros…

Sim, começamos a delinear vários parâmetros e fomos percebendo alguns padrões.Percebemos as variáveis… O primeiro parâmetro importante foi a acidez, que em grau mais alto está relacionada à cachaça de Salinas. Já os ésteres em maior quantidade estão relacionados à cachaça de Paraty. E veja: o solo de Salinas já tem uma acidez superior ao de Paraty. E há os álcoois superiores. Quando a gente faz a cromatografia, percebe alguns, que nem são frutos de nenhum tipo de regulação, que são marcadores importantes para as duas regiões.

Você falou de solo. Nada mais “terroir” que isso..

Sim. Se eu pegar a mesma espécie de cana que a gente usa em Salinas (MG) e plantar em Paraty não vai ser a mesma coisa. Se eu penso em fatores intrínsecos e extrínsecos à microbiologia, eu pego a mesma levedura aqui em Salinas e aí no Rio e ela não vai ter o mesmo comportamento. A temperatura interfere, a umidade… Por mais que eu use o mesmo microorganismo, aqui em Salinas é muito mais quente. Tem ainda a questão da água usada nas duas regiões.

A destilação não elimina diferenciações?

Os parâmetros que medimos foram com a cachaça pronta. Então, esse argumento vai por água abaixo. E temos que pensar que as cachaças não são, de modo geral, comercializadas após passar por barril. Há trocas químicas fantásticas com a madeira e com o ambiente já no momento seguinte após a destilação.

Se pegássemos num alambique em Salinas duas cachaças da mesma batelada e colocássemos em dois barris de bálsamo e deixássemos um por lá e levássemos o outro para Paraty, teríamos duas cachaças diferentes após um ano?

Seriam diferentes. A temperatura é diversa, os padrões de evaporação seriam outros… Os elementos se comportariam de modo diferente. No trabalho, a gente discute cada um desses parâmetros para que quem venha depois da gente possa seguir adiante. Mas temos base científica para dizer que existem padrões de diferenciação na cachaça de cada local e que essas diferenciações se estabelecem desde o plantio da cana ao envelhecimento.

A ‘fórmula do terroir’ no Seminário Mineiro da Cachaça

A fórmula que você apresentou no Seminário, se houver um número suficiente de amostras, pode ser usada para definir a origem da cachaça de todos os territórios?

Aquela fórmula te diria, com uma variabilidade entre 83% e 100% de certeza, que uma cachaça é de Salinas ou de Paraty. E se pode montar uma fórmula para qualquer outra região. A rede neural precisa ser treinada, mas vai conseguir aprender e dar uma resposta. Parece complicado, mas é relativamente simples. A estatística te dá informações muito generosas. E tem ainda muito pouca produção acadêmica sobre cachaça. Espero que outros pesquisadores avancem mais nesse tema.

Fonte: devotosdacachaca.com.br

João Pessoa ganha espaço de arte, cultura, lazer e cachaça

Por MAURÍCIO CARNEIRO

A Casa de Cultura Livre Olho d’Água, em Tambiá, é um espaço que agrega manifestações culturais com deliciosas cachaças paraibanas.

 

A Casa

Idealizada pelo casal Givanildo Silva e Larissa Arvelos, a Casa de Cultura Livre Olho D’água é um espaço de cultura, bar, petiscaria e cachaçaria, com a proposta de contribuir para valorizar as diversas manifestações artísticas e culturais da cidade de João Pessoa, além de aprimorar as relações humanas.

Foi com base nessas ideias e valores que o casal iniciou o projeto de estruturação do espaço, que tem como elemento motor as diversas formas de produção artística e cultural. Dividida em vários ambientes, são oferecidas músicas, saraus, teatro, cinema, exposições, encontros, rodas de conversas e debates. Com esta gama de atividades a Casa contribui fortemente com a ampliação e fortalecimento do acesso à cultura na cidade de João Pessoa.

Segundo Givanildo, “o nome Casa de Cultura Livre Olho D’água, foi criado com o propósito de fazer uma homenagem aos povos indígenas da região. Tambiá  vem do tupi Tambuja, que em português significa Olho D’água. Olho D’Água é o local onde brota a vida, é o local onde nascem as águas que possibilitam o florescer e a sobrevivência dos povos. Tambiá também é o nome do bairro que nos acolhe, por isso faz homenagem ao local onde estabelecemos e a esta terra que desenvolvemos nossos projetos”.

Givanildo complementa dizendo que “a incorporação da palavra Livre ao nome da casa diz respeito não apenas a uma valoração da liberdade enquanto um caminho a ser buscado na construção das relações em nossa sociedade. A palavra livre se relaciona a uma concepção de Casa de Cultura, que se constrói como espaço amplo onde as mais variadas manifestações artísticas podem se desenvolver. Estimulamos e respeitamos a pluralidade do pensamento e das formas de se fazer arte, sempre respeitando o que há de melhor nos valores humanos”.

 

A Cachaçaria

A Cachaçaria foi escolhida para ser a principal atividade econômica de manutenção do espaço. A carta de cachaças conta com 18 marcas, escolhidas dentre as mais representativas da produção cachaceira da Paraíba.

Além do produto em si, os degustadores das cachaças têm acesso às informações que lhes permitem conhecer as suas historias, origem, como são concebidas e produzidas, sua composição, teor alcoólico e o modo correto de beber. Desse modo, segundo Givanildo, “formamos verdadeiros apreciadores da bebida e lhes ofertamos uma experiência etílica completa”.

“Apesar de sermos os maiores consumidores da tradicional bebida brasileira, a cachaça, não a conhecemos em todas as suas nuances. Existe a necessidade de defender e melhorar o entendimento geral sobre ela, superando visões distorcidas e ultrapassadas. A Paraíba atualmente esta no topo da melhor produção da cachaça brasileira e uma das propostas da Casa de Cultura Livre Olho D’Água é se inserir nessa produção tradicional local, construindo e mantendo um espaço de referencia para a boa cachaça paraibana”.

Givanildo Silva

 

Rede Pessoense de Cultura

Além do projeto em si, o compromisso da Casa de Cultura Livre Olho d’Água com a cultura local também se observa na agregação solidária com outros espaços que também possuem o mesmo caráter cultural. Dentre outros, podemos citar:  “Cherinbom Comidas Regionais” que se situa no bairro dos Bancários; “Fruta Café Casa de Cultura”, no Castelo Branco e “Cafundó Casa de Cultura”, no Bessa.

O objetivo é fazer da construção da “Rede de Casas de Cultura Livre de João Pessoa” a consolidação de atividades alternativas de lazer na cidade, potencializando uma relação de troca e apoio mútuo, bem como uma ampliação do acesso à cultura por meio do fomento a diversas manifestações artísticas.

 

Cachaça e Atividades Culturais

Os proprietários entendem que a forma de relação com a bebida deve ser qualificada, por isso criaram um espaço de conversa permanente sobre a cachaça (Papo de Cachaça), com especialistas, produtores e pessoas interessadas em compreender melhor os atributos essenciais da bebida. Outra iniciativa para valorizar a bebida é entrecruzar algumas das atividades culturais com a referência da cachaça (Cachaça Filosófica, Cachaça Musicológica, Futebol e Birita e Cine Etílico), o que desperta também nos curiosos, o desejo de entender mais sobre ela.

 

Conheça a Casa de Cultura Livre Olho d’Água, participe das atividades e tenha o prazer de conhecer essas magníficas cachaças paraibanas.

Rua Deputado Barreto Sobrinho, 344 – Tambiá. O horário de funcionamento é de terça-feira a sábado, abrindo de terça a sexta 17h e aos sábados, varia conforme a atividade, abrindo as 15 ou 16h.

 

Cachaça paraibana premiada nos EUA será lançada em JP

 

Por MAURÍCIO CARNEIRO

A Cachaça Arretada Mandacaru conquista medalha de prata em concurso realizado em São Francisco, na Califórnia (EUA), e torna-se a primeira cachaça paraibana premiada internacionalmente.

Esta semana tive a satisfação e a honra de receber das mãos do Murilo Coelho, proprietário do Engenho Nobre, a unidade 02 da edição limitada de 1500 garrafas da maravilhosa cachaça Arretada Mandacaru, um incrível blend de carvalho francês com carvalho americano, envelhecida por dois anos.
Essa cachaça é, simplesmente, uma das melhores do Brasil. Prova disso é que conquistou a primeira premiação internacional de uma cachaça paraibana. Ela recebeu medalha de prata num dos maiores concursos de destilados dos EUA, a World Spirits Competition 2019 (SFWSC), em São Francisco, na Califórnia.

San Francisco World Spirits Competition

Iniciada  em 2000, a SFWSC é uma das competições mais antigas do gênero e das mais respeitadas dos Estados Unidos e do mundo. Com quase duas décadas de experiência, combina paixão e profissionalismo. Um dos fatores que fizeram com que a SFWSC se tornasse um dos eventos do gênero mais respeitados é o seu seleto corpo de jurados, formado pelos melhores chefs e degustadores, escolhidos através de rígidos critérios de seleção. Cada um com sua história distinta e um paladar extremamente aguçado.

Todo o processo de julgamento é realizado às cegas, o que garante  a integridade e a imparcialidade do concurso. Isso  assegura que cada bebida seja avaliada de forma individualizada, justa e com igual consideração.

Nessa competição de 2019 foram inscritos mais de 5.000 destilados do munto inteiro e a cachaça Arretada Mandacaru, do Engenho Nobre, obteve medalha de prata, no quesito “cachaça”. Isso a habilita a ostentar a medalha de premiação em seu rótulo, atestando sua excelência química e sensorial.

A medalha de prata confirma a qualidade superior da produção paraibana e eleva o nível do nosso destilado. Segundo o produtor Murilo Coelho, “a Paraíba, há muitos anos, é reconhecida como um centro de excelência na produção de cachaças brancas. Se nós fazemos tão boas cachaças brancas, por que não produzimos as envelhecidas com igual qualidade, já que a branca é a base da envelhecida?”.

Esse observação confirma uma tendência na produção estadual, pois, dentre as premiações de cachaças conquistadas pela Paraíba no ano de 2019, todas foram de cachaças que passaram por madeira.

A Cachaça

A Arretada Mandacaru, tem produção limitada de 1.500 garrafas. É uma cachaça envelhecida nas madeiras carvalho francês e americano. Isso lhe confere traços aromáticos suaves, baixíssima acidez e um toque especial das melhores bebidas premium.

“Essas madeiras enriquecem a bebida com novos componentes, agregando complexidade sensorial e permitem que reações físicas e químicas, específicas, aconteçam. Os barris de carvalho não só agregam aromas e taninos à cachaça, mas também, por conta de sua porosidade, permitem que a bebida respire, desenvolva-se e amadureça”, atesta Murilo Coelho.

A cachaça agrega todas as qualidades das duas madeiras, percebe-se, no nariz, a presença de amêndoas, coco intenso, baunilha e especiarias. Na boca, um aveludado ímpar, apesar de toda a potência dos seus 43% de teor alcoólico. No retrogosto traz o adocicado do carvalho  americano. O complemento fica por conta das notas finais de chocolate e baunilha,  que persistem por um longo período.

Uma ótima harmonização para essa cachaça é o café expresso e o chocolate meio amargo, por ser um meio termo entre o doce e o amargo. Eu a harmonizei com sorvete de chocolate e foi uma experiência incrível.

O lançamento

Como é muito comum no negócio das bebidas, os produtores procuram atestar a qualidade de suas criações em concursos nacionais e internacionais, antes de colocarem suas bebidas no mercado. Assim, agregam toda a força do marketing da premiação no lançamento, alavancando suas vendas e intensificando o reconhecimento da excelência da bebida. Isso foi o que fez Murilo.

A cachaça já estava engarrafada e pronta para ser comercializada, mas faltava o principal: a medalha. Após esperar várias semanas pelos selos oficiais da premiação no concurso, finalmente o público paraibano poderá conhecer e se deliciar com essa verdadeira joia da indústria da cachaça da Paraíba.

O lançamento oficial será na próxima quinta feira, dia 21 de novembro, na Casa de Cultura Livre Olho Dágua (R. Dep. Barreto Sobrinho, 344, Tambiá, J. Pessoa), às 20h, com entrada franca.

Além do conteúdo eu chamo atenção para o belo rótulo que estampa a garrafa, uma verdadeira obra de arte. Criação exclusiva da designer Valéria Antunes . A arte retrata de forma esplêndida todo o colorido de nossa nordestinidade, mais um atrativo dessa cachaça, que nos cativa pelo ofato, paladar e visão.

Na ocasião haverá uma apresentação da cachaça pelo Murilo Coelho e uma degustação para os presentes. Aconselho que os leitores não percam essa oportunidade de ter contato com a excelência da produção cachaceira da Paraíba e do Brasil.

Avanço da cana-de-açúcar na Amazônia pode gerar a “cachaça suja”

A plantação de cana-de-açúcar foi liberada nas regiões do Pantanal e amazônica.

A Região Norte do Brasil possui pouca tradição na produção de cachaças de qualidade, isso pela falta da cultura da cana-de-açúcar na região, pois esse tipo de plantio era proibido na região amazônica. Esse estado de coisas mudou na semana passada, quando o governo Bolsonaro revogou, um decreto que havia dez anos vetava a expansão canavieira na floresta amazônica e também no Pantanal. Esse pode ser um potencial problema para a indústria cachaceira do Brasil, haja vista que tal medida abre caminho, segundo pesquisadores, para mais desmatamento, desrespeito a direitos trabalhista, queimadas e conflitos por terra. Associar a cachaça a esse cenário é algo, no mínimo, preocupante.

Após a revogação ser assinada pelo presidente e pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura), a medida encontrou o apoio da União Nacional da Indústria da Cana de Açúcar (Única), que, em nota, elogiou a revogação e afirmou que hoje considera o decreto ultrapassado, “servindo apenas como mais um dos tantos arcabouços burocráticos brasileiros”.

Essa medida pode dar incentivo ao desmatamento e a outras transgressões, pois é possível que se gere um efeito cascata, onde a cana-de-açúcar tomaria o espaço das pastagens e forçaria as atividades agropecuárias a abrir novas fronteiras, o que agravaria os problemas de conflitos de terras, especulações imobiliárias, violência no campo, desrespeito a direitos trabalhistas e desmatamento.

“Pode haver uma corrida por aquisição de terras hoje cobertas com pastagens para plantar cana e isso empurraria a pecuária para as áreas onde ainda existem florestas”, afirma Mauro Armelin, diretor-executivo da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

Efeitos desastrosos

De acordo com a Única,o risco de o desmatamento se infiltrar floresta adentro é zero: “Desmatou, está fora do Renovabio“, afirmou em nota o presidente da associação, Evandro Gussi, se referindo à nova política de biocombustíveis que entra em vigor em 2020 e se baseia no desmatamento zero. Ele acredita que, com ela, o próprio setor se autorregulará porque suas vendas estão calcadas na sustentabilidade.

Segundo o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. “Se o setor fosse tão capaz de se autorregular e respeitar a lei, nós não teríamos visto o desmatamento explodir este ano (2019), com quase 10 mil quilômetros quadrados de desmatamento”

Rittl afirma, ainda, que não há necessidade de um único hectare de terra amazônica ou pantaneira para cana-de-açúcar, já que “o Brasil vem aumentando sua produção pela produtividade, pela intensificação e pelas novas tecnologias. Não precisa ampliar em milhões de hectares a área de plantio de uma cultura – o que vai trazer perdas tanto do ponto de vista da biodiversidade quanto em aspectos econômicos”.

Um fato muito provável é que essa nova fronteira agrícola enseje a introdução, nos biomas amazônico e pantaneiro, de variedades transgênicas de cana-de-açúcar. Existem muitas lacunas quanto aos potenciais efeitos sobre organismos que não são o alvo das toxinas da planta modificada geneticamente, aos animais e humanos que consumirem a cana in natura, e o risco de essas novas espécies virem a prevalecer sobre as espécies silvestres a partir dos cruzamentos entre ambas. Como a maioria das cachaças e o popular caldo de cana são obtidos com essas variedades silvestres, num cenário assim essas bebidas também poderiam vir a ser contaminadas.

Esse tipo de situação, em ambientes tão delicados, poderia trazer resultados desastrosos a esse biomas e sem precedentes no mundo.

Governo de Roraima vê medida como positiva

O secretário de Agricultura do Estado de Roraima, Emerson Baú, disse que o Governo do Estado vê com bons olhos o decreto assinado na sexta-feira passada e acredita que a cultura vai atrair novos investidores para Roraima. “Sempre acreditamos nessa cultura no lavrado roraimense. Quando foi definido que não seria aplicada a cana-de-açúcar na Amazônia não se olhou a biodiversidade da Amazônia, e a considerou como um único bioma, esquecendo que temos o Lavrado, onde podemos fazer um trabalho sem derrubada de floresta”, disse. “Isso permite ao Estado atrair novos investidores e agregar valores ao redor da cana-de-açúcar, com a produção de etanol, por exemplo”, afirmou.

Ele ressaltou que uma indústria de etanol de milho já está sendo instalada em Roraima e que esta mesma indústria pode fazer também a produção de etanol de cana de açúcar.

O superintendente da Secretaria Federal da Agricultura em Roraima (SFA/RR), Plácido Alves, disse que o órgão colaborou com uma nota técnica para os estudos que foram feitos de viabilidade da cultura em Roraima. Um dos pontos destacados por Plácido se refere ao fato de Roraima poder produzir sem haver a necessidade de devastar áreas de floresta.    “Como estamos passando por investimentos na matriz energética, trabalhamos para a possibilidade da produção de bioenergia de milho e agora também da cana-de-açúcar que vai contribuir para o aumento de produção de energia”, afirmou. Disse ainda que, “..entendemos que precisamos alavancar o setor sucroalcooleiro e energético no Estado e pedimos apoio do governador Antonio Denarium e da bancada federal para fazer frente a essa conquista. Houve dois pareceres favoráveis dentro desta nota técnica, um do Ministério da Agricultura e outro do Ministério da Economia, e conseguimos fazer com que o presidente Jair Bolsonaro assinasse o decreto que revoga o decreto anterior e permite financiamento para o setor da cana-de-açúcar.”

Cachaça suja

Dentre os produtores de cachaça consultados pelo Confraria do Copo, existe a convicção de que, com a liberação da cana-de-açúcar nas regiões amazônica e pantaneira, surgirão, além das usinas e álcool e açúcar, novos empreendimentos voltados à produção de cachaça. Este é um  cenário muito provável, pois a fabricação da cachaça é uma das atividades mais rentáveis do agronegócio brasileiro. Caso esses empreendimentos produzam a cana-de-açúcar em áreas de desmatamento, isso pesará contra toda a atividade cachaceira nacional, comprometendo a imagem do nosso destilado aqui dentro e lá fora e criando barreiras ao consumo interno e às exportações.

Esse cenário é muito preocupante, principalmente num momento em que a cachaça luta para se livrar de preconceitos seculares e criar um conceito de bebida premium, apostando fortemente na produção orgânica, na tecnologia e na conquista de mercados internacionais.

Um outro problema real é o pesado histórico de situações de trabalho análogo à escravidão, por variados motivos, entre eles a vastidão do território e as dificuldades de fiscalização. É o caso de usinas como a Gameleira (posteriormente Destilaria Araguaia), em Confresa (MT), e a Alcopan, de Poconé (MT), que se tornaram presenças habituais na chamada “lista suja” do trabalho escravo do governo federal.

Tudo o que a cachaça não precisa é ter sua imagem associada ao trabalho análogo à escravidão e ao desmatamento ou desrespeito às questões ambientais. É preciso que o setor fique atento e seja pró-ativo, impedindo, desde o nascedouro, que esse tipo de situação possa ocorrer, pois os efeitos deletérios serão enormes e de difícil correção.

Esperamos que estudos de viabilidade sejam feitos e que áreas específicas possam ser criadas para o desenvolvimento da cultura, sem alterar o já sensível equilíbrio ambiental e social da região.