Inovação: na Paraíba, engenho de cachaça utiliza técnicas de bioconstrução

Murilo Coelho explicando o processo de fechamento de uma das cúpulas do seu engenho

Por Maurício Carneiro

A Bioconstrução engloba técnicas da arquitetura próprias da região. Suas características são o uso de materiais do próprio local como a terra e pedras, impactando minimamente o meio-ambiente e gerando conforto térmico e qualidade de vida.

 

A construção se destaca na paisagem dominada pelo rio Paraíba e por canaviais. É composta por estruturas diferentes, arredondadas, com teto em forma de cúpula e uma arquitetura que lembra os iglus dos esquimós. A curiosidade de quem passa é instantânea e dá espaço para diálogos do tipo:

– Rapaz, que danado é aquilo ali?

– Me falaram que é um engenho de cachaça.

– Oxente! Engenho de cachaça?

– Pois é, e parece que as paredes são de terra e areia.

– Danou-se, agora deu a mulesta! O dono num tá vendo que quando chover vai ficar só a lama?

– É, meu amigo, esse povo inventa cada coisa!

 

Apesar da descrença de alguns, Murilo Coelho, proprietário do Engenho Nobre, “inventou” de produzir sua cachaça sob uma estrutura de terra e areia. Seu objetivo era construir um empreendimento sustentável, ecologicamente correto e original, mas adequado à produção e divulgação da cachaça.

 

Nasce a ideia

Por questões comerciais e mercadológicas o Engenho Nobre teve que se transferir, em 2019, de sua antiga sede, no município de Sobrado – PB, para uma nova área recém-adquirida, na zona rural da cidade de Cruz do Espírito Santo, Região Metropolitana de João Pessoa-PB.

Segundo Murilo (que é engenheiro civil de formação), já existia a preocupação com os aspectos ambientais e de responsabilidade social para a construção; o que faltava era definir qual técnica construtiva seria utilizada. Após algumas pesquisas e consultas com técnicos em bioconstrução, ele definiu que sua obra seria erguida utilizando-se o processo chamado “hiperadobe”. Seria um diferencial para a marca e atenderia muito bem a todas as necessidades exigidas para a produção da cachaça.

Bioconstrução

O conceito de bioconstrução engloba diversas técnicas da arquitetura regional dos países, tendo como característica a preferência por materiais do local, como a terra e pedras, diminuindo gastos com fabricação e transporte, construindo habitações com custo reduzido e que ofereçam excelente conforto térmico. A construção com terra ensacada é um dos tipos de bioconstrução.

Quem popularizou a construção com terra ensacada foi o arquiteto iraniano Nader Khalili. Em 1984 a NASA provocou arquitetos e engenheiros para que apresentassem propostas de projetos habitacionais para futuros assentamentos humanos na Lua e em Marte. Khalili sugeriu criar cúpulas, utilizando o solo da própria Lua para encher tubos de sacos de plástico e assim formar as habitações.

Sua técnica foi denominada de “superadobe”. Em 1995 o superadobe foi utilizado para criar 15 refúgios em forma de cúpula no Irã, como parte do Programa das Nações Unidas para os refugiados da Guerra do Golfo.

Nessa técnica utilizam-se sacos de ráfia (sacos brancos de polipropileno, muito usados para embalar farinha de trigo). A estabilidade das paredes é assegurada com a aplicação de arame farpado entre as camadas. Hoje o superadobe é largamente utilizado na África e na Ásia.

Hiperabobe

No início dos anos 2000, uma evolução da técnica do superadobe foi desenvolvida pelo engenheiro brasileiro Fernando Pacheco, chamada “hiperadobe”.  A principal diferença é o uso do saco raschel em substituição ao de polipropileno.

Hiperadobe é uma técnica de bioconstrução, onde sacos são preenchidos com terra e, por meio de compactação manual, as camadas se estabilizam umas sobre as outras, formando uma estrutura estável, pesada e muito segura.

Detalhe da construção com os sacos raschel preenchidos

Os sacos raschel (você já deve ter visto vários deles, pois são os mesmos sacos que embalam laranjas, cebolas, batatas, etc) tem uma malha mais aberta do que os sacos de ráfia. Essa particularidade dispensa a necessidade de arame farpado entre as camadas, pois a terra atravessa o saco, criando uma união entre uma camada e outra (o que não ocorre com os sacos de ráfia). Isso também ajuda na aplicação e na adesão do reboco do acabamento. Foi justamente essa a técnica eleita para ser empregada na construção do novo Engenho Nobre.

Benefícios

A forma de construção com terra ensacada gera vários benefícios, tanto para uso comercial como residencial.

Como as paredes de terra “respiram”, elas podem absorver e reter os vapores de água dentro de sua estrutura quando os níveis de umidade do ambiente estão altos, liberando-os de volta quando os níveis de umidade caem. Sendo assim, mantêm a umidade relativa do ar entre 40% e 70%, que é o nível mais saudável para o ser humano, além de proporcionar  excelente conforto térmico.

As paredes das construções de hiperadobe são muito grossas. A espessura final, junto com o reboco, ficou em torno dos 45 cm, o que proporciona uma inércia térmica muito grande e permite manter a constância da temperatura interna. Em algumas situações, a diferença entre a temperatura interna e externa pode chegar aos 12°C.

Influencia na cachaça

No processo de envelhecimento, naturalmente, a cachaça já evapora. O ambiente do local em que o barril está armazenado pode acelerar ou retardar esse processo, influenciando no resultado final. Assim, o controle desses dois fatores (temperatura e umidade relativa do ar) são extremamente importantes na maturação da cachaça: caso o barril esteja em condições climáticas de baixa umidade ou alta temperatura a água irá evaporar, e em alta umidade o álcool evapora.

Paredes de 45cm garantem controle da umidade e  temperatura

Os tonéis de madeira, quando armazenados em salas como as de hiperadobe, não sofrem tanto com as variações externas do clima, o que melhora seu desempenho no envelhecimento das cachaças e diminui a perda do líquido para o ambiente, através de evaporação (cota dos anjos). Outro ponto importante com o controle da umidade é o aumento no tempo de vida útil das madeiras dos barris.

 

Economia e sustentabilidade

O hiperadobe não necessita de vigas, colunas ou amarrações em ferro, isso barateia em muito o custo do material da obra e a torna mais sustentável ambientalmente. A terra do Projeto Nobre foi obtida do próprio local. Os sacos tubulares de rechel, utilizados na confecção das paredes, foram adquiridos por empresa especializada e custaram aproximadamente R$ 1,00 por metro linear. A mistura dos componentes foi de 10 partes de terra (70% areia e 30% argila) para uma parte de cimento. Mais uma vez, ponto para a economia e para a sustentabilidade ambiental.

Detalhe da elevação das paredes do Engenho

O valor de mão de obra foi mais elevado, se comparado com a construção convencional. Como é um trabalho pesado, exige a presença de pelo menos quatro pessoas para as paredes baixas. À proporção em que vai subindo a altura das paredes é necessário adicionar mais pessoas para ajudar no levantamento e compactação do material. Os trabalhadores envolvidos foram os moradores da região e o treinamento feito na própria obra.

Outra grande vantagem dessa técnica é a rapidez da construção (uma equipe de quatro pessoas consegue fazer perto de 80 a 100 metros lineares de parede por dia), além da maior liberdade de forma da planta (curvas, ondulações, etc).

Incentivo governamental

A área coberta total foi de 225 m², envolvendo as área de recepção às visitas, área de venda e degustação, armazém, área de envelhecimento, expedição, estoque e engarrafamento. Ainda em construção estão a cúpula geodésica (área para palestras e apresentações) e aguarda-se, para até o fim do mês de janeiro, a instalação do alambique e áreas de fermentação.

O projeto contou com a assessoria da Fundação de Apoio à Pesquisa da Paraíba (Fapesq), que adequou o Engenho Nobre às exigências estabelecidas e viabilizou a captação de financiamento através do Programa Empreender Paraíba. Apesar do valor financiado representar apenas uma parte do montante global investido, esse programa foi uma importante base de capitalização do empresário, pois é voltado, exclusivamente, para o apoio ao empreendedorismo no Estado e foi de ajuda imprescindível para o êxito da empreitada.

O fortalecimento do Arranjo Produtivo da Cachaça é uma das diretrizes do Governo do Estado da Paraíba. “O Programa Empreender facilita muito. Eu vou ter uma carência de seis meses para começar a pagar as 30 parcelas mensais, com um juro de 0,65% ao mês. Dessa forma terei fôlego para poder investir em equipamentos e preparar uma estrutura diferenciada no engenho”, explica Murilo Coelho.

Disseminando saberes e sabores

Vista parcial. No primeiro plano a futura cúpula geodésica.

Indo além da simples produção de cachaça, o Engenho Nobre se prestará a uma série de outras atividades educativas e turísticas. É o que adianta Murilo: “Aqui eu vou poder receber estudantes do Ensino Médio e de nível superior (engenheiros,  arquitetos, tecnólogos, etc), para apresentar os conceitos da bioconstrução; explicar  a importância da cachaça na história da Paraíba e do Brasil; seu papel na economia do nosso estado; fazer palestras para promover o consumo consciente, dentre outros projetos”.

Para os iniciados no mundo do consumo da cachaça, e para os que querem se aprofundar, Murilo tem um projeto chamado “Experiência Nobre”. Ele detalhou seu objetivo: “Estou firmando parcerias com restaurantes e chefs de cozinha e a ideia é trazer regularmente para o engenho, um seleto grupo de pessoas para que conheçam mais a fundo os processos de envelhecimento da cachaça. O chef  vai preparar um prato especial e faremos a harmonização da comida com os vários tipos de cachaça que serão postas à mesa. Isso elevará o consumo a um outro patamar e propiciará aos participantes uma verdadeira “Experiência Nobre”, ressalta o empresário.

 

Cachaça das 15h

Conforme acertos com guias e receptivos turísticos, já no mês de fevereiro próximo começarão a ser formados grupos de visitantes  para o engenho, onde terão uma exposição sobre os processos de produção, uma sessão de degustação e poderão comprar produtos na loja. Outra atração será a “Cachaça das 15h”. Durante todas as semanas do ano, da quarta-feira ao sábado, os turistas e visitantes que chegarem ao engenho poderão acompanhar uma alambicada sendo feita e vão provar a cachaça saída diretamente da bica do alambique. “Certamente será uma experiência única para quem nunca viu como se faz uma cachaça”, afirmou o entusiasmado Murilo Coelho.

Produtos premiados

Criador com suas premiadas criaturas na sala de degustação

Murilo é uma pessoa cuidadosa no que faz e esmera-se para fazer bem feito. Seus produtos e blends são exaustivamente testados e aprimorados antes de irem ao mercado. O resultado são as premiações conquistadas ao longo dos quatro anos, desde que lançou sua primeira cachaça: World Spirits San Francisco em 2019 – The Tasting Alliance;  12ª Melhor Cachaça do Brasil – Categoria Branca – III Cúpula da Cachaça 2018; Ouro Spirits no Concours Mondial de Bruxelles em 2018; Prata Spirits no Concours Mondial de Bruxelles em 2017.

 

Criando uma identidade

Hoje, o apreciador das cachaças premium não se atêm ao simples degustar do líquido. Observa-se que esse consumo caminha para a conjugação entre elementos de diferentes setores econômicos: a experiência sensorial proporcionada nas degustações, aliada à gastronomia local (possibilitando excelentes oportunidades de harmonização com a cozinha regional) e enriquecida pelo turismo nas localidades de produção das bebidas. Temos, assim, um ciclo virtuoso, onde todos ganham.

É importante salientar, ainda, um cuidado maior do consumidor, que, nessa busca por experiências sensoriais diferentes, e maior qualidade, passou a observar melhor e diferenciar as características da bebida, seus modos de preparo, a responsabilidade social de empresas e produtores e os aspectos relacionados aos cuidados com o meio-ambiente.

A tudo isso o Engenho Nobre adiciona o diferencial arquitetônico e todas as características a isso associadas, o que cria uma identidade conceitual única e o diferencia dos demais, fazendo com que as pessoas que o conhecem, visitam e degustam seus produtos, vivenciem, de fato, uma “Experiência Nobre”.

Ipueira: cachaça com sabor de antigamente

Casa da moenda do Engenho Ipueira (Foto: Maurício Carneiro)

Utilizando métodos tradicionais de produção e maquinário secular, o Engenho Ipueira se renova e se reinventa.

Em pouco mais de 20 minutos vencemos os 11 quilômetros que separam a cidade de Areia, no Brejo Paraibano, do Engenho Ipueira, área rural da cidade e destino de nossa curta viagem. A estrada tem calçamento até o distrito de Mata Limpa. Seguindo, nas margens da estrada de terra e areia solta, a paisagem se mescla entre a mata nativa, plantações de agricultura familiar e a cultura da cana-de-açúcar.

Os 11 quilômetros nos fazem retroceder quase 100 anos. Chegamos ao pátio do engenho e nos sentimos voltando aos tempos em que o patriarca, Donato Feitosa, labutava com seu engenho. Fabricava rapadura, cuja cana era esmagada e moída na máquina produzida e patenteada pela empresa inglesa Wilian &A.Mc.Onie, fabricada em 1878, na cidade de Glasgow, Escócia. O bagaço era transportado nas padiolas banguê* e o doce cheiro do caldo de cana fervente exalava por toda a propriedade.

Como há cem anos, todo este cenário ainda está lá, vivo, ativo, vibrante.

A dama centenária e a garota propaganda

Transporte do bagaço da cana no banguê. (Foto: Maurício Carneiro)

Como saído de um livro de José Lins do Rego, dois rapazes colhem o bagaço após a extração do caldo e o transportam com um banguê para uma área que fica por trás das moendas. Será usado como combustível das fornalhas ou como adubo para as plantações de cana. Centenas de varas de cana-de-açúcar são impiedosamente esmagadas pela moenda centenária, extraindo o caldo que, em alguns meses, será brindado em copos e taças, sob a forma de cachaça.

A moenda chegou ao engenho Ipueira nos anos 1950, já vinda de outras batalhas, mas hoje continua presente e se impõe pela beleza. Pintada de cinza, parece nova e reluzente, como se acabada de desembarcar do navio que a trouxe da Europa. Mas ela não é uma velha enfeitada, nem uma aposentada peça de museu que testemunhou o passado. É, sim, uma bonita e ativa senhora, protagonista do seu tempo e trabalhando, há mais de um século, no que foi projetada para fazer: esmagando e moendo cana. Uma bela e orgulhosa Dama de Cinza. Sua beleza a habilitou a ser a “garota propaganda” do Engenho Ipueira. Seu perfil estampa o rótulo da sua cachaça premium (Ipueira Carvalho) e das embalagens de presente para as compras dos visitantes. Uma bonita homenagem a quem traz, impregnada nas suas engrenagens, o testemunho de vida e de trabalho de tantas gerações.

 

História

Conforme nos fala Anna Cristina Andrade Ferreira, a cana-de-açúcar sempre foi cultivada na região do Brejo paraibano, desde o início da colonização. Coexistia pacificamente ao lado das culturas alimentares e como atividade secundária durante o período de expansão do algodão. Com o declínio da atividade algodoeira, nos fins do século XIX, passou a dividir terras, de forma pacífica,  com a emergente cultura cafeeira.

Antes voltada para a produção do açúcar mascavo, de auto-consumo, a cana passou a ser utilizada como matéria-prima da rapadura e da aguardente.

Um dos alambiques do Engenho Ipueira (Foto Maurício Carneiro)

Os engenhos se multiplicaram, aumentaram sua capacidade produtiva e começaram a dominar a paisagem agrária. Suas moendas, antes de madeira, passaram a ser de ferro e os bois ou jumentos que as acionavam foram substituídos inicialmente pelo motor a vapor, em seguida, pelo motor a óleo diesel e posteriormente, pelo motor elétrico.

 

Celeiro do Sertão

A rapadura produzida no Brejo era vendida para os sertões dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Os sertanejos vinham ao Brejo com comboios de burros para transportar a rapadura. Para a venda e  alimentação durante a viagem, eles traziam a carne seca de bode. As tropas de burros partiam da região carregados de rapadura, e de aguardente além dos cereais ali produzidos: feijão, fava, milho e a farinha de mandioca. O Brejo torna-se um verdadeiro “celeiro do Sertão”.

Usina Santa Maria

Conforme esclarece Antônio Augusto Almeida, “com o fim do ciclo do café, ocorre a instalação, em 1930, da Usina Santa Maria, foi quando houve uma grande decadência dos chamados “engenhos banguê**”. Essa, certamente, foi a fase mais depredadora em relação ao meio ambiente e ao patrimônio cultural da região. Segundo Almeida, “indiferentes a tudo que não representasse interesse imediato a seus negócios (a cana-de-açúcar ou a pecuária extensiva), os novos proprietários destruíram a cobertura vegetal de proteção dos morros e as matas ciliares, as paisagens típicas, os engenhos banguê e as edificações de interesse histórico e arquitetônico. Tudo, como sempre, feito em nome do progresso”.

Foi nesse cenário conturbado que, em 1936, o Patriarca: Sr. Donato Feitosa, fundou o engenho Ipueira. Sua ideia era fazer a rapadura e ocupar o vácuo deixado pela saída dos outros engenhos, de fogo morto, fechados pelo domínio das usinas.

E a rapadura virou cachaça

Sempre voltado, exclusivamente, para a produção de rapadura, o Engenho Ipueira se modernizou. Suas moendas foram ganhando melhorias. Desde a sua fundação nunca fechou as portas. Nunca esteve de “fogo morto”, mesmo diante das grandes dificuldades de se trabalhar com um produto totalmente artesanal e enfrentar a concorrência dos produtos (rapaduras) feitos sem qualidade, com açúcar refinado e em larga escala. Assim o Ipueira atravessou as décadas, sempre acompanhado por sua Dama de Cinza, até desembocar nos anos 2000.

A Centenária Dama de Cinza (Foto: Maurício Carneiro)

Ricardo Feitosa foi criado dentro da bagaceira  do engenho. Preocupava-se com as dificuldades do pai em se manter e pagar as contas da propriedade apenas com a produção da rapadura. Resolveu empreender e dividir o doce ofício do Ipueira com a produção de cachaça. Isso após observar que o mercado estava se abrindo mais ao consumo de aguardente. Assim, em 2002, juntou umas economias e montou, no engenho, um pequeno alambique. Sua produção limitava-se a cerca de 250 litros/dia de cachaça e vendia sua produção a granel na região de Areia. Não tinha rótulo nem embalagem específica, mas a qualidade da cachaça diferenciou seu produto, que ficou conhecida como “a cachaça do engenho Ipueira”.

Com o passar do tempo, a qualidade da cachaça foi ganhando nome e mercado. A rapadura foi perdendo espaço até ser retirada da linha de produção. Ao mesmo tempo, o engenho passou a receber mais investimentos, nos processos de produção, nos alambiques e na qualidade do produto final.

 

Saindo da clandestinidade

Para crescer e se estabelecer no mercado, Ricardo Feitosa entendeu que deveria legalizar sua cachaça. Para a legalização, iniciou-se um grande trabalho de profissionalização do engenho. Todo o processo foi adequado de modo a atender às normas do Ministério da Agricultura para o registro da marca, desde a retirada da cana-de-açúcar do campo até a rotulação das garrafas. Nasceu, assim, oficialmente, em 2010, a “Cachaça Ipueira Cristal”.

Engarrafada em frascos de 275 ml, foi aceita de imediato pelo mercado, devido ao bom nome já cultivado ao longo dos oito anos como cachaça a granel.

 

 Crescendo com respeito às tradições 

Donato Feitosa Neto -Donatinho. (Foto: APCA)

Seguindo formas tradicionais de produção, a Ipueira tem toda a sua plantação de cana-de-açúcar própria e voltada exclusivamente para a produção de cachaça. Segundo Donato Feitosa Neto, o jovem administrador da propriedade e integrante da terceira geração da família nos negócios do engenho, “a cana utilizada é selecionada, de acordo com a sua produtividade, em particular as variedades desenvolvidas pela Ridesa  (SP79-1011 e RB867515). Apesar de serem variedades criadas comercialmente, estão plenamente adaptadas ao clima e solos do Brejo”. Donatinho, como é mais conhecido, nos falou que “o sabor das cachaças de Areia são únicos e se pegar cana de outra região, mesmo sendo da mesma espécie, isso vai alterar o sabor e descaracterizar a cachaça”.

Conforme presenciamos, uma fase crítica para a qualidade final do produto, o processo de fermentação, é feito de forma artesanal, com cepas de leveduras desenvolvidas no próprio caldo (não se utilizam leveduras comerciais). “Esse processo é cuidadosamente acompanhado por funcionários especialmente treinados, pois é nele onde as características sensoriais da cachaça são obtidas (aroma e sabor). Cada detalhe é importante, pois neles estão o diferencial entre se produzir uma cachaça especial ou uma cachaça comum”, explicou Donatinho.

Dos seus cinco alambiques, quatro funcionam com aquecimento a vapor e o pioneiro (primeiro alambique da propriedade) produz com fogo direto, onde o bagaço é queimado abaixo da panela do alambique. A produtividade por tonelada de cana é, em média, de 130 litros de cachaça e a meta de produção da safra 2019/2020 é destilar 500 mil litros.

Trabalho e conquistas

Diz o ditado popular que todo esforço será recompensado. E as recompensas pelo trabalho bem feito vieram em pouco tempo no engenho Ipueira.

Hoje a empresa possui um variado portfólio de cachaças, brancas e envelhecidas e em vários volumes e tipos diferentes de garrafas.

Linha da Ipueira (Foto: Areiartes)

Em 2013, apenas três anos após sua legalização, a Cachaça Ipueira ganhou o prêmio da associação dos Químicos da Paraíba em parceria com o Sebrae. Figurou entre as três melhores cachaças do Estado. Após isso, os proprietários focaram no refinamento da qualidade e na penetração do produto nos mercados do interior da Paraíba e na capital, João Pessoa. Além disso, buscaram o mercado dos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e outros do Nordeste.

APCA

A Ipueira é integrante da Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA). A Associação agrega nove produtores de cachaça da cidade, todos devidamente registrados no Ministério da Agricultura. Dentre outros objetivos, os associados buscam a obtenção da Indicação Geográfica (IG) para as cachaças da cidade de Areia/PB. A IG é um diferencial para os produtos característicos de uma região específica, o que lhes atribui reputação e identidade próprias, além de os distinguir em relação aos seus similares encontrados no mercado.

Novos horizontes

Com o processo da IG já avançado (neste mês de dezembro serão enviados os documentos aos órgão controladores), pode-se afirmar que a Ipueira, já em 2020, deverá ostentar em seu rótulo a distinção de Cachaça com Indicação Geográfica. Uma diferenciação que a habilitará a conquistar novos mercados, por sua qualidade reconhecida. Apenas três regiões  cachaceiras do Brasil possuem IG para a cachaça: Paraty (RJ), Salinas (MG) e Abaíra (BA). Em 2020 Areia entrará nesse rol.

Donatinho também nos explicou que, “num esforço conjunto de todos os nove associados, a APCA participou da Expocachaça 2019, levando as cachaças de Areia para Belo Horizonte, MG, na maior vitrine da cachaça no Brasil. Apesar de nunca ter participado de concursos, na categoria Carvalho Francês, a Cachaça Ipueira Carvalho ganhou a medalha de Prata. Nove cachaças que obtiveram pontuação para a prata e a Ipueira foi a melhor colocada dentre todas as concorrentes”. Ele esclareceu, ainda, que “não houve premiação com medalha de ouro para essa categoria, que é dada para pontuações a partir de 9,1. A Ipueira tirou 9,0″. Esta foi a primeira edição da Cachaça Ipueira em carvalho francês, que é uma tiragem limitada, armazenada por 5 anos”.

No ano de 2020, a Ipueira, juntamente com os demais associados da APCA estará novamente presente na Expocachaça, para repetir ou ampliar a premiação deste ano. “A tendência é que a associação, com a IG, participe mais ativamente de concursos de destilados pelo Brasil afora, vamos mostrar os atrativos de nossa região e a qualidade diferenciada do nosso destilado”, declarou o empresário.

Ipueira

Ipueira Carvalho. Prata na Expocachaça 2019 (Foto: Maurício Carneiro)

Situado numa área de privilegiada beleza, o Engenho Ipueira produz em 42 hectares de cana, tendo no total  400 hectares incluindo uma reserva florestal nos seus domínios. Suas terras são úmidas e férteis, com nascentes de água e mata preservada.

Desde o início da cultura canavieira no Brejo, até os dias de hoje, as áreas mais propícias para a plantação de cana-de-açúcar são as várzeas dos rios e as baixadas úmidas e férteis entre as encostas dos morros. Na região de Areia existem muitas várzeas, tanto é que, antigamente, a cidade já teve o nome de  Brejo d’Areia.

Brejo, alagadiço, várzea, ipueira. Todas denominações de regiões propicias à plantação de cana-se-açúcar.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, “ipueira” é um tipo de charco, terreno instável que se forma em lugares baixos, devido às enchentes dos rios.

Diferentemente do significado do seu nome, o Engenho Ipueira cresce vigoroso, não em área movediça ou encharcada, mas em terreno firme. Seu crescimento se apoia sobre bases sólidas, respeitando e se orgulhando do seu passado, buscando aprimoramento no presente e vislumbrando o futuro de forma planejada.

A Dama de Cinza ainda vai testemunhar muitas histórias de sucesso, pois tem saúde para trabalhar firme por muitos anos e estará presente em todas as grandes conquistas da Ipueira.

 

*Banguê: Estrado feito de cipós ou madeira, carregado por duas pessoas, para transporte de material (em especial bagaço de cana)
*Engenho Banguê: Os engenhos tipo “banguê” eram movidos a tração humana, animal ou rodas-d´água e produziam açúcar mascavo.

Cana-de-açúcar transgênica já é uma realidade. Como isso afeta a cachaça?

Por Maurício Carneiro

Apesar das dúvidas e riscos, a CTNBio coloca no mercado uma variedade de cana aguardada por ruralistas e usineiros. Especialistas apontam falta de estudos sobre os impactos ambientais e à saúde.

Cana Bt

 

Plantas transgênicas têm ajudado a aumentar a produção nos campos brasileiros e no mundo. A primeira cana-de-açúcar geneticamente modificada e comercializada é de origem brasileira. A cana CTC 20 Bt foi desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e passou por avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que a considerou segura sob os aspectos ambiental, de saúde humana e animal. Sua aprovação ocorreu no segundo semestre de 2017 e a comercialização no início de 2019.  “A comercialização desta cana brasileira é um marco que reforça o potencial e a qualidade da pesquisa nacional e coloca o país na vanguarda das pesquisas com biotecnologia de plantas”, enfatiza o diretor de Etanol Celulósico e Assuntos Corporativos do CTC, Viler Janeiro.

A cana geneticamente modificada (GM) permite o controle mais eficiente e a redução das perdas em virtude do ataque de pragas, resultando em aumento de produtividade, redução de custo e melhoria da qualidade na indústria. O uso da cana transgênica ainda pode viabilizar a expansão da cultura em áreas onde a broca da cana é uma condição limitante, contribuindo para o aumento da competitividade do Brasil na produção de açúcar e etanol.

 

O que é a cana Bt

A cana Bt é a cana-de-açúcar que recebeu um gene da bactéria Bacillus thuringiensis. Daí a denominação Bt.

Esse microrganismo encontrado no solo produz proteínas inseticidas tóxicas para alguns insetos – tais como: borboletas e mariposas (Lepidoptera), moscas e mosquitos (Diptera), besouros (Coleoptera) e vespas, abelhas e formigas (Hymenoptera) – mas sem qualquer efeito sobre outros organismos e sobre o homem. Desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a variedade é resistente à broca-da-cana.

Segundo Viler Janeiro, o processo de introdução da nova variedade tem sido muito positivo, Desde outubro de 2017, cerca 400 hectares de mudas da variedade geneticamente modificada foram plantados nas principais usinas e fornecedores da região Centro-Sul do Brasil.

O diretor complementa que o crescimento da área com a CTC 20 Bt será gradual, uma vez que as novas plantas serão replantadas para expandir a área cultivada e não usadas para a produção de açúcar e etanol. “Este processo já ocorre na introdução de variedades convencionais e está alinhado com o cronograma de obtenção das aprovações internacionais do açúcar produzido a partir da cana geneticamente modificada”, explica.

Recentemente, a Health Canada, responsável por avaliar a segurança e o valor nutricional de alimentos no Canadá, aprovou o açúcar produzido a partir da CTC 20 Bt. Assim, de acordo com o órgão canadense, o açúcar proveniente da cana é tão seguro e nutritivo quanto os provenientes das variedades convencionais.

 

Pesquisas continuam

O Centro de Tecnologia Canavieira ainda continua as pesquisas. O CTC ainda deve disponibilizar para o mercado outras variedades transgênicas resistentes à broca, principal praga que ataca a cultura no Brasil e causa prejuízos estimados em R$ 5 bilhões anuais ao setor sucroenergético. Viler explica que adicionalmente, o Centro trabalha no desenvolvimento de variedades resistente ao Sphenophorus levis  – bicudo da cana-de-açúcar -, além de espécies tolerantes a herbicidas e com projetos de desenvolvimento de uma cana-de-açúcar tolerante à seca. “Esses produtos estão em diferentes estágios de pesquisa e passarão pelos processos aprovação, de acordo com a legislação vigente, tão logo cheguem nesta fase”, conclui.

Outra empresa focada no desenvolvimento da transgenia em cana de açúcar é a Embrapa Agroenergia. Atualmente quatro projetos merecem destaque e seguem a mesma linha do CTC. Iniciado em 2008, a Embrapa desenvolve a variedade tolerante a déficit hídrico, que já foi a campo em duas localidades para testes– em Quirinópolis (GO) e em Valparaiso (SP)-, com o objetivo de avaliar a performance agronômica e parâmetros fisiológicos em condições reais de campo. Em parceria com o CTC, o Centro Internacional Japonês para Pesquisas em Ciências Agrícolas (Jircas), a Embrapa Agroenergia avaliou o potencial com o gene de tolerância a seca na cana, que já foi testado em outras culturas de plantas, como soja, amendoim, trigo, arroz e outras.

Os resultados em situação real de campo mostrou que o material tem uma característica interessante, tanto para a tonelada de cana por hectare (TCH) quanto o açúcar (TPH). “Mesmo passando pela seca, essas materiais conseguiram manter o TCH e a o TPH, também houve manutenção da biomassa e do açúcar em ambos os locais”.

Próximas gerações de cana-de-açúcar transgênica

Após ter desenvolvido variedades de cana-de-açúcar transgênica resistentes à broca, cujo açúcar foi aprovado por organismos internacionais como o FDA, dos Estados Unidos, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) mira agora duas novas gerações da planta, uma delas com o objetivo de resistir a uma praga que gera prejuízos estimados em R$ 4 bilhões por safra ao setor sucroenergético.

O CTC iniciou a segunda geração dessas canas, que terá de 8 a 10 variedades, não só resistentes à broca (mariposa que se alimenta dos canaviais), mas também tolerantes a herbicidas.

E já projeta a terceira geração, ainda em fase preliminar, que tem como objetivo combater o besouro Sphenophorus levis, conhecido como bicudo, que causa danos na cana em desenvolvimento e reduz a vida útil dos canaviais.

“O besouro gera R$ 4 bilhões de prejuízo por safra e, se perguntar a qualquer usina, ela dirá que tem mais medo dele que da broca. A broca é homeopática, enquanto o Sphenophorus é uma pancada gigantesca onde atinge. Ou seja, ao mesmo tempo desenvolvemos variedades para inserir genes cada vez mais resistentes a doenças, para que possamos inserir nas melhores variedades possíveis”, diz o presidente do CTC, Gustavo Leite.

 

Falhas

Apesar da liberação, houve discordâncias de três entidades representadas. Os três votos contrários são de um representante do Ministério do Meio Ambiente e de especialistas em meio ambiente e agricultura familiar, que analisam os estudos apresentados pelo CTC desde o final de dezembro de 2015, quando foi protocolado o pedido de liberação. Eles chegaram à conclusão de que, a exemplo de todos os demais organismos geneticamente modificados (OGMs) aprovados na comissão, as pesquisas com a cana são cheias de falhas. E estão muito longe de atender às próprias regras do órgão criado para auxiliar o governo federal nas questões de biossegurança dos transgênicos.

No caso da cana, há lacunas quanto aos potenciais efeitos sobre organismos que não são o alvo das toxinas da planta modificada, aos animais e humanos que consumirem a cana in natura, e o risco de essas novas espécies virem a prevalecer sobre as espécies silvestres a partir dos cruzamentos entre ambas. Como a maioria das cachaças e o popular caldo de cana são obtidos com essas variedades silvestres, num cenário assim essas bebidas também poderiam vir a ser contaminadas.

Professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante da CTNBio, Valério De Patta Pillar apresentou parecer em que pede diligência da comissão para correção das deficiências em experimentos de avaliação do risco ambiental e ausência de testes estatísticos, de avaliações dos efeitos do consumo da variedade de cana de açúcar por animais domésticos e por humanos.

 

Movimento pela cachaça orgânica

Vários produtores do Brasil todo foram consultados por este colunista, nos grupos de debates e nenhum afirmou que utiliza ou pretende utilizar essa variedade de cana transgênica.  Pelo contrário, observamos uma tendência forte no posicionamento da cachaça orgânica.

Na contramão da transgenia, há um movimento crescente, entre os produtores de cachaça, pela produção orgânica. O diferencial da cachaça orgânica está no modo de produção, sendo que a bebida orgânica dispensa toda e qualquer interferência química em sua produção. A cana-de-açúcar deve ser produzida organicamente e, em determinadas regiões, o adubo utilizado na plantação de cana também deve ter como origem o gado orgânico.

A cana-de-açúcar deve ser colhida sem a prática de queimadas e, durante a fermentação, o uso do ácido sintético é substituído por suco de limão orgânico. Essas ações fazem com que a organicidade da bebida final seja 100%, produzindo uma cachaça orgânica e sustentável, enquanto suas concorrentes, carregam em suas composições, grandes quantidades de insumos e compostos químicos, extremamente prejudiciais à saúde.

cachaça orgânica : alambique de cobre

Benefícios

Ao consumir a cachaça orgânica você estará apoiando um sistema de cultivo orgânico no qual a sustentabilidade está sempre em primeiro lugar. Além disso, o consumo orgânico é ideal para quem busca uma alimentação saudável e livre de produtos químicos, onde os alimentos são ricos em nutrientes naturais e não há risco de surgimento de doenças ou complicações em longo prazo.

A cachaça orgânica também é mais saborosa e mais intensa que as demais cachaças, agradando paladares mais refinados e sendo uma excelente escolha para o uso culinário doméstico e em restaurantes.

Felizmente, por hora, a transgenia ainda não frequenta as doses da nossa querida cachaça.

Ministério da Agricultura orienta como denunciar venda de “cachaça” clandestina.

Após consulta, o Ministério da Agricultura me enviou um procedimento completo sobre como organizar e estruturar uma denúncia de comercialização de “cachaças” clandestinas.

Fabricação de cachaça clandestina: todos temos que nos unir para acabarmos com esse tipo de prática.

Um das bandeiras sempre levantadas por mim e defendidas nas minhas labutas e debates cotidianos, seja na coluna Confraria do Copo (rádio CBN João Pessoa), seja neste espaço , é o combate à clandestinidade no setor da cachaça.

Problema com fundo econômico, mas também cultural, a clandestinidade provoca danos profundos à saúde do consumidor, à economia e à lealdade concorrencial contra quem trabalha dentro das especificações que a legislação impõe e se submete às escorchantes taxas de impostos cobrados no Brasil, particularmente no ramo de cachaças.

 

Mas, afinal, o que é a “Cachaça Clandestina”?

São consideradas clandestinas todas as “cachaças” comercializadas e que não estampam em seu contrarrótulo o número de registro do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).  Tal registro é uma comprovação de que a cachaça obedece à legislação brasileira para a produção de bebidas alcoólicas.

Essa legislação determina o perfil químico que a cachaça deve ter, as exigências sanitárias, a forma de rotulagem do produto, as especificações nos processos de produção, as instalações prediais das empresas, a documentação legal exigível à comercialização de aguardente e todos os demais requisitos que atestam que a bebida é própria para o consumo humano.

Os produtos que não se submetem ou não atendam às exigências legais ou aos padrões mínimos de qualidade estabelecidos não são aprovados e, se comercializados, são considerados clandestinos.

Em suma, a cachaça clandestina não passa por qualquer nível de fiscalização sanitária. O que há dentro da garrafa, quimicamente falando, é um mistério que nem mesmo quem produz sabe.

São aquelas sem rótulo, a “de cabeça”, a brejeira, a “da roça”, a “mineirinha”. Aquelas com um nome engraçado, tipo “Cura veado” ou “Amansa corno”. São as que encontramos nas lojinhas de beira de estrada ou nas feiras, embaladas nas garrafas pet, sem identificação nenhuma, ou mesmo vendidas a granel, em bombonas de cinco litros, botijões de 20 litros ou até em tonéis plásticos ou de metal de 200 litros. Ingerir isso é atentar contra a própria saúde.

Plataforma do Mercado Livre comercializando “cachaça” clandestina.

A cultura da clandestinidade é tão forte que essas “cachaças” podem ser facilmente encontras até em plataformas de vendas online, como Mercado Livre e OLX, conforme matéria que fiz denunciando a prática (clique aqui e acesse a matéria).

Ambas as plataformas ostentam que não pactuam com a prática da pirataria ou da comercialização de produtos ilegais, mas basta uma pesquisa rápida em qualquer uma delas para que a sua tela seja, literalmente, inundada por milhares de litros de “cachaça” clandestina, de todos os tipos e de vários estados do Brasil (clique aqui e veja os crimes em tempo real).

 

Como identificar se uma cachaça é legalizada?

Exemplo de contrarrótulo adequado à legislação

Alguns produtores inescrupulosos tentam induzir o consumidor desinformado ao erro, dizendo que o CNPJ é uma prova de que a “cachaça” é de boa procedência e, portanto, legal. Mas não basta possuir CNPJ, é necessário atender às exigências definidas  pelas normas relacionadas à produção e comercialização de cachaça (clique e veja os procedimentos administrativos para o registro de estabelecimentos e de produtos ).

Toda cachaça tem que estampar em seu contrarrótulo, dentre outros dados, informações do fabricante, o número do CNPJ, Inscrição Estadual e/ou Municipal e o número de Registro no MAPA, conforme modelo ao lado. Se não tiver nada disso, não compre e denuncie.

Como denunciar?

Todo cidadão tem a responsabilidade de se manisfestar contra qualquer tipo de irregularidade e de incentivar a legalidade e a ética concorrencial.

Fiz uma consulta junto ao MAPA, a respeito de como apresentar formalmente uma denúncia de comercialização de “cachaças” clandestinas. Obtive a resposta através do Setor de Ouvidoria do órgão, que me detalhou, de forma clara, como deve ser o processo.

Confira a resposta na íntegra:

Seguem orientações sobre como apresentar uma denúncia sobre comercialização ilegal de cachaça clandestina, especificando os principais canais disponíveis.

No caso específico de denúncia referente a cachaça, nos envie o máximo de informações comprobatórias quanto possível, seguindo as orientações a baixo:

  1.   Qual o estabelecimento comercial que está negociando o referido produto?
  2.   Envie algum documento que comprove a comercialização do produto.
  3.   Enviar fotos que nos permitam ver todas as informações contidas no rótulo do produto.
  4.   Algum documento, recibo ou canhoto de pagamento que comprove a relação de consumo do     produto?
  5.   Qual o local (com referência) onde ocorreu o fato?
  6.   Se existe algum servidor do Ministério da Agricultura envolvido.
  7.   A identificação do fabricante do produto.
  8.   Algum dado que identifique o fabricante (CNPJ, endereço, Razão Social).
  9.  Especificar se a venda do produto foi a granel ou em embalagem própria (individual).

Para onde enviar a denuncia?

1° Opção: Em conformidade com a Instrução Normativa nº 18, de 30 de dezembro de 2018, da Ouvidoria Geral da União – OGU/CGU. O usuário pode apresentar a sua manifestação acessando o link https://sistema.ouvidorias.gov.br/publico/Manifestacao/SelecionarTipoManifestacao.aspx?ReturnUrl=%2f. Sugerimos que o site, informado acima, seja acessado pelo Google Chrome e que limpe os “cookies” na opção “histórico”, no canto superior direito do navegador.

2° Opção: Presencialmente na Ouvidoria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, na Esplanada dos Ministérios – Bloco D – Brasília/DF – CEP: 70.043-900. Das 8 – 17h.

3° Opção: Enviar a sua manifestação de forma estruturada e fundamentada para o e-mail mesmo ouvidoria@agricultura.gov.br.

Se for necessária, estamos à disposição para esclarecimentos de eventuais dúvidas.

Atenciosamente,

Ouvidoria/MAPA

Tarefa de casa

Agora que já sabemos como denunciar de forma eficaz e tendo exemplos evidentes e práticos de descumprimento das leis, conforme mostrado acima, que tal exercitarmos nossos novos conhecimentos e fazermos uma denúncia das várias situações de clandestinidade que encontramos por aí?  Creio ser um bom começo fazermos nossa denúncia com os dados da OLX e do ML, que mostramos nesse artigo.

 

VIVA A BOA CACHAÇA!!!

Jeito paraibano de beber cachaça inspira empresário de São Paulo.

O Conceito WIBA! conquista mentes, corações e paladares de forma muito divertida.

Com uma ideia nascida em terras paraibanas, empresário paulista está mudando os conceitos de como beber cachaça.

 

Oxente! Uau! Show! Uai!…Todo mundo conhece e costuma utilizar interjeições, que são palavras que formam, por si só, frases que exprimem uma emoção, uma sensação, uma ordem ou um apelo. No mundo da cachaça, uma interjeição bem adequada seria WIBA!

Repita a palavra WIBA! e sinta que ela, sozinha, pode exprimir um misto de surpresa e satisfação de alguém após ingerir uma dose de boa cachaça junto com ingredientes bem divertidos, como frutas com sal, chocolate com banana, ou uva com pimenta.

Mais que uma nova interjeição, WIBA! é, de fato, uma marca criada pelo empresário Wilson Barros, de São Paulo, que propõe um novo jeito de beber cachaça: o jeito WIBA! Uma maneira divertida e original de fazer sua própria Caipirinha na Boca®, misturando pedaços de frutas, sal, açúcar, chocolate ou o que mais sua imaginação permitir, seguidos de pequenos goles da Cachaça WIBA!

A inovadora Caipirinha na Boca® despertou a curiosidade e aguçou os sentidos, tanto dos apaixonados por cachaça quanto daqueles que nunca haviam experimentado a mistura.

O jeito WIBA! de beber o nosso destilado nacional nasceu em 2013 e logo virou moda por terras paulistas. O que pouca gente sabe, porém, é que essa sacada também bebe das tradições da Paraíba.

A origem de tudo

Wilson era executivo de uma multinacional quando esteve em João Pessoa-PB, em 2010, a trabalho. Ele ficou hospedado na casa de um casal de amigos, que o recepcionou no fim de semana, com um almoço em família. Foi justamente nesse dia que surgiu seu primeiro insight , ao observar o modo peculiar como os participantes do almoço tomavam a cachaça: passavam sal no caju, mastigavam e ingeriam a cachaça.

A inspiração foi o nosso tradicional trio: cachaça, caju e sal

A tradicional mistura de caju com sal como tira-gosto, tão comum à cultura e ao paladar do paraibano, era algo novo para ele.  Intrigado, provou e gostou de cara. Depois perguntou ao patriarca da família: “Todos aqui na Paraíba tomam cachaça assim ou é um costume só da família?”. A resposta foi direta e seguida de uma boa risada: “Meu amigo, aqui na Paraíba a gente toma cana com caju e sal até no café da manhã”.

De imediato, Wilson teve um estalo: “Vou levar pra São Paulo esse jeito paraibano de tomar cachaça!”.

Quando retornou, pegou uma garrafa de cachaça branca, alguns cajus, um punhado de sal e convidou os amigos para conhecer o que aprendeu na Paraíba. Ao saber da proposta, o pessoal achou meio estranho, pois em São Paulo não é comum tomar a cachaça branca pura, sendo mais usada como base de caipirinha.  Wilson contou aos amigos a história que presenciou, o grupo deixou o preconceito de lado, provou e achou “arretado”, como se diz aqui no Nordeste. Nascia assim a ideia da Caipirinha na Boca.

 

O Refinamento

Depois da visita à Paraíba e do encontro inicial com os amigos, Wilson passou a amadurecer a ideia de como viabilizar sua “sacada”.  Após a aposentadoria, levantou capital e teve mais tempo e tranquilidade para dar continuidade ao seu projeto. Instalou um alambique e começou a trabalhar no refinamento da qualidade de sua cachaça. Para tanto, contratou uma consultoria e a supervisão dos melhores profissionais do mercado, como o master blender Armando Del Bianco e Valdirene Neves, engenheira de alimentos expert em cachaça. Com a ajuda da empresa Why Not?, desenvolveu os belos rótulos que estampam suas garrafas e o conceito, divertido e novo, de se beber cachaça.

O Alambique Ouro Fino, na cidade de Torre de Pedra, em São Paulo, há 6 anos fabrica a cachaça WIBA!,que leva as iniciais de seu nome (saiba mais sobre o processo produtivo da WIBA!). A produção, restrita a 25 mil litros por safra, favorece um controle de qualidade rígido, de modo a garantir a excelência na qualidade de cada garrafa saída da propriedade.

Qualidade e inovação

Seu foco é fechado na inovação, mas a WIBA! não abre mão da qualidade de suas cachaças. O processo de destilação utiliza somente o líquido mais puro e nobre chamado de “coração”, o filé mignon da cachaça. Os líquidos conhecidos por “cabeça” e “cauda”, inadequados ao consumo humano, por possuírem concentrações muito altas de álcoois superiores e metais pesados, aumentam a probabilidade de sensações desagradáveis no dia seguinte ao consumo. Esses líquidos são retirados do processo e redestilados em um outro alambique apropriado, dando origem ao metanol, utilizado para abastecer os veículos da propriedade.

O “aldeído”, por exemplo, é um dos maiores responsáveis pela ressaca. Quanto maior sua quantidade, maior será seu mal-estar no dia seguinte (clique e entenda sobre os compostos indesejáveis da cachaça). Por isso, a WIBA! diminui ao mínimo possível esses elementos, e de outros, como o furfural, responsável pelo hálito malcheiroso proveniente de bebidas com origens duvidosas. A ordem é sempre orientar a produção e o controle de qualidade de modo a proporcionar ao cliente a melhor experiência possível de consumo.

A linha de produtos

Atualmente, a WIBA! possui uma linha premiada de cachaças, como a Branca, a Umburana, a Blend de Carvalhos e a Blend de Carvalhos Premium 3 Anos  (confira  aqui a análise sensorial). Todas podem ser servidas utilizando-se o conceito da Caipirinha na Boca®. Na consulta ao site da WIBA!, você pode ter acesso a informações mais detalhadas.

Kit da Caipirinha na Boca

O termo Caipirinha na Boca® foi patenteado, e hoje a WIBA! vende um kit que traduz esse conceito. Inclui uma pequena jarra de vidro e uma base de madeira com dois recipientes: em um são acomodados os ingredientes sólidos, como fruta, chocolate e pimenta; no outro, sal, mel, molho, açúcar, etc.

Com uma estratégia de marketing inovadora no segmento, beber uma WIBA! é beber não apenas uma cachaça, mas também todo um conceito, uma experiência diferenciada, que é essa nova forma de se tomar cachaça, inspirada na tradição paraibana.

A ideia deu tão certo que a WIBA! exporta hoje a cachaça, e seu conceito, para Taiwan, China e Portugal. Em breve, também para a Itália e, por tabela, para o restante da Europa. O resultado de tudo isso não poderia ter sido melhor: Wilson conseguiu aliar a tradição da produção artesanal à inovação e à criatividade brasileira.

E isso tudo nascido de uma simples roda de amigos, tomando cachaça com caju e sal aqui em João Pessoa.

WIBAAAAAAAA!!!

 

Será que você sabe qual o tipo de cachaça que bebe?

Sabia que existem duas categorias distintas de cachaça? São elas, a cachaça artesanal e a cachaça industrial. Mas, e aí? Sabe o que difere uma da outra? Fique conosco que, no post de hoje, você vai aprender tudo sobre o assunto.

Existe uma diferença entre elas perante a legislação?

Quando abordamos a questão da legislação brasileira e os critérios técnicos estabelecidos pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária -, ambos produtos são classificados da mesma forma. Seja a cachaça industrial, destilada em colunas de inox, ou a cachaça artesanal, destilada em alambiques ou engenho de cobre.

Contudo, entre os dois produtos existe uma gama de diferenças. Sendo o seu grande destaque, principalmente, no processo produtivo e nas qualidades sensoriais percebidas.

A produção da Cachaça Industrial

A cachaça industrial é feita por empresas de grande porte, que tendem a produzir uma altíssima quantidade desta diariamente. Esse processo requer muita cana-de-açúcar, ou seja, a seleção minuciosa dessa matéria prima é algo praticamente impossível de ser realizado, o que implicará diretamente no sabor final do destilado. Além disso, nesse caso, a queima e fermentação são aceleradas com a adição de agentes químicos.

O processo produtivo da cachaça industrial é bem semelhante ao realizado na fabricação de álcool para automóveis. A destilação se dá de forma simples, em colunas de aço de inox, por isso, a cachaça industrial também é conhecida como cachaça de coluna. Na tentativa de agregar mais valor ao destilado, em alguns casos é adicionado açúcar em sua composição. Grande parte das cachaças industriais não são envelhecidas em nenhum tipo de madeira, sendo engarrafadas logo após a sua produção.

Quando falamos sobre degustação, a cachaça industrial não é tão procurada. Assim como grande parte dos produtos industrializados, a sua produção visa atingir altas quantidades, deixando a qualidade um pouco de lado. Sua grande vantagem competitiva se dá nos baixos preços praticados no mercado, uma vez que o seu próprio processo produtivo em larga escala reduz bastante os custos operacionais, comparados ao de uma produção de cachaça artesanal.

A produção da Cachaça Artesanal

Já a cachaça artesanal é confeccionada em alambiques que, por isso, a cachaça de alambique e artesanal, são sinônimos. Nesse processo, ao invés de visarem a quantidade,  costumam prezar pela qualidade de seus produtos. O aroma e sabor são duas preocupações constantes entre os produtores, e esse fato é claramente perceptível durante o processo de confecção da bebida.

A preocupação inicia-se já no processo de plantio da cana. Toda a cana é despalhada e limpa manualmente antes da moagem. Deve, ainda, ser sadia, recém cortada e possuir o maior teor de sacarose possível em seu colmo. Visando maior qualidade no resultado final, o processo ainda deve ser realizado sem queimar a palha. As Cachaças artesanais são naturalmente fermentadas, com leveduras selvagens ou selecionadas. Pode-se, também, ocorrer o uso de fubá de milho ou arroz.

A destilação do seu vinho (o caldo de cana já completamente fermentado) ocorre em um alambique de cobre. Nesse processo ocorre a separação da cabeça, coração e cauda da cachaça . A cabeça, que é um subproduto da cachaça de alambique, e a calda, são descartados, por conterem produtos tóxicos e aproveita-se apenas o coração. O produto final é aquele adquirido no meio do processo, denominado “Coração da cachaça”. 

Além das diferenças citadas acima, a Cachaça Artesanal também recebe uma atenção especial durante o seu processo de envelhecimento. É nessa parte da confecção que ela recebe sua “identidade”. Ou seja, ela descansa em barris de madeiras durante um longo período, até que sofra uma alteração química que interfere no seu aroma e sabor.

Mais do que uma bebida, uma oportunidade

Todo esse cuidado durante a confecção da cachaça artesanal a torna um produto único e diferenciado no mercado. Do seu sabor ao aroma, cada uma possui características específicas que as tornam especiais e raras. Encontrar duas cachaças artesanais iguais é um processo quase impossível. Desse modo, esse produto é perfeito para a degustação. Trata-se não apenas de um destilado, mas de uma experiência que envolve principalmente o olfato e o paladar.

A cachaça é uma das bebidas mais tradicionais do Brasil. O novo mercado que propõe um conceito artesanal para esse segmento oferece aos clientes a oportunidade de provar produtos de alto valor, que carregam em si uma sofisticação abrasileirada que somente uma boa cachaça pode propor. E você, já experimentou um novo sabor hoje?

Cachaça e Rum: Você sabe as diferenças e semelhanças?

A cachaça e o rum têm a mesma matéria-prima: a cana-de-açúcar. Mas a brasileira cachaça e o caribenho rum  não são a mesma coisa. Aqui, na Confraria do Copo, explicamos as diferenças e semelhanças.

 

CACHAÇA É BRASILEIRA

O nome cachaça está protegido por lei e a sua produção está restrita ao Brasil. De acordo com a legislação brasileira, o Decreto 6871/2009, art. 53, define-se cachaça como:

“A denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil. Sua graduação alcoólica deve ser de 38 a 48 por cento em volume, a vinte graus Celsius. Sua obtenção deve ser pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar com características sensoriais peculiares. Podendo ser adicionada de açúcares até 6 gramas por litro”.

A cachaça e o rum têm na cana-de-açúcar a sua matéria prima

Apesar de ser de origem caribenha e ter como principal região de produção os países da América do Sul e Central, o rum é um destilado que pode ser produzido em qualquer lugar do mundo.

RUM É DO MELAÇO

A principal diferença no processo de produção entre os dois destilados, é que o rum é feito com o caldo cozido da cana, o melaço, um subproduto do processo de produção do açúcar. Já a cachaça, historicamente, sempre foi feita com o suco fresco, que a gente chama de garapa. De acordo com o professor Patterson Patricio de Souza, da Universidade Federal de Minas Gerais, essa diferença no processo resulta em uma composição química própria. Isso diferencia os destilados e traz distintas propriedades sensoriais. Patricio explica que ao cozinhar o caldo da cana, as substâncias presentes no produto, como os ésteres, os aldeídos e o álcool superior são alterados, modificando o sabor final da bebida.

O rum é feito do melaço (mel-de-engenho)

O RHUM AGRICOLE

No entanto, pelo Caribe, em países de colonização francesa, como Guadalupe, Martinica e Haiti, há um tipo especial de rum chamado Rhum Agricole que é feito a partir do caldo de cana espremido na hora. A versão caribenha, apesar de também ter como matéria prima a garapa, apresenta diferenças importantes em relação à cachaça. O teor alcoólico pode chegar a até 70% em algumas regiões e a destilação predominante em colunas de inox, enquanto a maioria dos produtores de cachaça destilam utilizando alambiques de cobre.

A cachaça e o rhum agricole são feitos do caldo de cana, enquanto o rum é feito do melaço ou uma combinação de caldo de cana com melaço.

RUM TEM MAIOR GRADUAÇÃO ALCOÓLICA

Como vimos na nossa legislação, a cachaça pode ter graduação alcoólica entre 38% a 48%. Já o rum pode passar desses limites. Mais uma vez, vamos recorrer ao Decreto 6871/2009, agora apontando o artigo 54 que define o rum.

Pela legislação brasileira, o rum, rhum ou ron é a bebida com graduação alcoólica de 35% a 54% em volume, a vinte graus Celsius. Sua obtenção é a partir do destilado alcoólico simples de melaço, ou da mistura dos destilados de caldo de cana-de-açúcar e de melaço. O envelhecimento deve ser em recipiente de carvalho ou madeira equivalente, conservando suas características sensoriais peculiares.

A cachaça só pode ser produzida no Brasil, já o rum pode ser feito por qualquer país.

 

O CARVALHO E AS OUTRAS MADEIRAS

Tanto a cachaça como o rum podem ser consumidos na sua versão branquinha, aquela que não passa por madeira. No entanto, as duas bebidas têm suas versões armazenadas ou envelhecidas em barris de madeira. E aí está um dos grandes potenciais da cachaça!

A cachaça é uma das poucas bebidas alcoólicas que não envelhecem apenas em carvalho. Madeiras nacionais como amburana, jequitibá, ipê, bálsamo e várias outras são utilizadas para o envelhecimento ou armazenamento da bebida. Cada madeira concede uma cor, um aroma e um sabor característico. O potencial gastronômico dessa particularidade é imenso. Basta imaginar a possibilidades de harmonização com ingredientes e pratos da cozinha brasileira e de outros países.

AS ORIGENS DA CACHAÇA E DO RUM

De acordo com pesquisador Wayne Curtis, autor do livro And a Bottle of Rum: A History of the New World in Ten Cocktails, o rum surgiu no começo do século XVII nas colônias britânicas do Caribe, provavelmente em Barbados. O rum teria sido originado  dos subprodutos da indústria do açúcar, antes considerados lixos indesejados e muitas vezes descartados no mar. Já uma versão rudimentar de cachaça era produzida no litoral brasileiro entre 1516-1532, fazendo da aguardente brasileira o primeiro destilado da América. A cachaça é mais antiga do que o pisco (Peri e Chile), a tequila e mezcal (México), o rum (Caribe) e o bourbon (EUA).

Os holandeses e a cachaça fizeram o rum ganhar o mundo.

As histórias dos dois destilados se entrelaçam, inclusive em terras brasileiras. Os holandeses já produziam destilados de cana-de-açúcar num processo parecido com a fabricação do rum. Isso no início do século XVII.

Com a expulsão dos holandeses de Recife eles levaram a cana e os equipamentos de destilação para o Caribe. Esse pode ser o motivo do rum ter se tornando mundialmente mais famoso do que a cachaça brasileira, pois os holandeses eram ótimos comerciantes. Além disso tinham a estrutura da Companhia das Índias Ocidentais para levar a produção caribenha para a Europa.

 

 

Fontes:  American University Washington e bebidaexpressblog.com.br

De João Pessoa a Campina Grande via Brejo Paraibano: muita história, cachaça e forró

Este blog é sobre cachaças, mas como festa junina, história e  forró  também têm tudo a ver com a Paraíba, eu preparei um misturão com esses elementos.

 

Aproveitando o mote junino, fiz um trajeto para quem quer ir de João Pessoa a Campina Grande pra forrozar no Maior São João do Mundo (programação). O roteiro inclui o Brejo Paraibano, onde você poderá conhecer um pouco da história e das belezas arquitetônicas e naturais da região e, claro,  saborear algumas das melhores marcas de cachaças produzidas  no Brasil.

Pré-requisitos: alguém que dirija e não beba, disposição para degustar cachaças deliciosas e uma boa câmera fotográfica

Sobrado

Engenho Nobre: cachaças premiadas dentro e fora do Brasil

Logo no começo da viagem, na BR-230, Km 71, você encontra o Engenho Nobre. Ele fica às margens da BR,  na região da cidade de Sobrado, mas no sentido Campina – João Pessoa, então você vai ter que fazer um retorno.

O Engenho fabrica as cachaças Sapequinha e as premiadas  Nobre, e Arretada  (medalha de prata no San Francisco Distilled Spirits Competition, 2019). Lá você tem visitação ao engenho, degustação na adega e pode comprar cachaças na lojinha. Os preços são bem inferiores aos encontrados no mercado. O proprietário é um mineiro-paraibano  super simpático e comunicativo (posso passar o contato dos proprietários por e-mail para quem tiver interesse em marcar uma visita).

Alagoa Grande

Seguindo em frente, no Km 112 da BR-230,  você vai sair da BR e pegar a PB-079. O destino é o Brejo paraibano e a cidade,  Alagoa Grande (1865) –  terra de Jackson do Pandeiro. Mas não vá com tanta sede ao pote das cachaças, conheça antes um pouco da cidade.

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Cachaça Volúpia, várias vezes eleita uma das melhores do Brasil

Dê um tempinho para umas fotos no “Pandeirão”, o portal de entrada do município. Você pode visitar o museu Jackson do Pandeiro, que possui vários objetos pessoais do Rei do Ritmo. Visite também o Teatro Santa Ignêz, construído em 1905. Conheça a Casa de Margarida Maria Alves, onde são guardadas a memória e a história dessa que foi a maior líder sindical brasileira de todos os tempos.

Agora as cachaças: siga para o engenho Lagoa Verde, que fabrica a nacionalmente conhecida e multipremiada Cachaça Volúpia. Você terá a visitação ao engenho e poderá se deliciar com um belo café da manhã ou com o famoso almoço regional do restaurante Banguê, que fica na propriedade. O engenho possui várias opções de turismo ecológico. Excelente oportunidade para se contemplar as belezas naturais do Brejo Paraibano. Na hora das compras, há uma elegante lojinha que vende as cachaças do engenho a preços excelentes.

Em Alagoa Grande você também deve ir ao Engenho Gregório de Baixo, que fabrica a ótima cachaça Gregório. Uma potência de 45 graus de teor alcoólico,  mas de suavidade e sabor que impressionam.

Areia

Siga 18 Km à frente, ainda pela PB-079 até a belíssima e histórica cidade de Areia (1846),  berço do pintor Pedro Américo e do escritor José Américo de Almeida. A cidade tem seu centro histórico tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O conjunto histórico e urbanístico de Areia foi tombado, em 2006. Para o tombamento, o IPHAN baseou-se no valor histórico, urbanístico e paisagístico atribuído ao conjunto, pela ativa participação da cidade nas revoluções ocorridas no século XIX.

Você vai se encantar com a beleza da cidade. Conheça o Teatro Minerva, inaugurado em 1858, vá ao Museu da Rapadura e ao Museu Casa de Pedro Américo. Conheça a antiga Igreja de Nossa Senhora do Livramento, construída em 1861. Curta o clima bucólico da cidade e tire belas fotos nas simpáticas ruas de paralelepípedo com suas casas coloniais. Além disso tudo, a cidade também organiza um São João bem tradicional, com forró pé-de-serra e comidas típicas.

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Cachaça Triunfo: portfólio variado e muitas vezes premiado

A cidade, por si só, já vale a visita, mas nosso passeio inclui cachaças, então siga para o Engenho Triunfo.

O Engenho possui uma ótima infraestrutura turística e é aberto todos os dias para visitas guiadas. Ao fim da visita, há uma degustação de cachaças, além de frutas, caldo-de-cana e até sorvete de cachaça. Você prova e depois, se quiser, compra na loja. Uma variedade incrível de produtos. São belas opções para a sua adega, para presentear e claro, pra tomar umas boas doses também.

Logo depois do Engenho Triunfo, você vai encontrar o Engenho Vaca Brava, da também premiada Cachaça Matuta. Eles fazem visitação guiada, que inclui a loja para degustação e venda de cachaças e outros produtos. É um belo passeio num dos lugares mais bonitos da Paraíba.

Cuidado nas compras

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Ouro na Expocachaça 2019

Areia possui mais de 40 engenhos e você pode encontrar dezenas  de cachaças excelentes com preços super camaradas no comércio local. A variedade é enorme, então aconselho a você procurar as cachaças registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Consulte no rótulo da cachaça se é mostrado o número desse registro. Se não tiver, não compre, pois pode ser um produto clandestino ou sem inspeção sanitária. Essa dica vale para a compra de cachaças em qualquer lugar que você visitar.

Ipueira Carvalho: a melhor da categoria na Expocachaça 2019

Dentre as cachaças da região posso citar as que integram a APCA (Associação dos Produtores de Cachaça de Areia): a Turmalina da Serra (cachaça simplesmente espetacular), Aroma da Serra, Vitória, Princesa do Brejo, Ipueira, Elite e a Cristal de Areia. Vários engenhos também possuem lojinhas na cidade, é só procurar que você encontra.

 

Bananeiras

Invista um pouco mais de tempo (vai valer muito a pena) e dê uma esticada para conhecer outra joia arquitetônica preservada  da Paraíba:  a cidade de Bananeiras (1879). Fica há 50 Km de Areia. Nas pequenas ruas do Centro Histórico, o casario reúne mais de 80 construções tombadas pelo IPHAEP – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estado da Paraíba. A região foi primeiramente produtora de cana-de-açúcar e depois de café. Em 1852, a produção cafeeira chegou a ser a segunda do Nordeste. Isto tornou a cidade uma das mais ricas da região, riqueza esta expressa na arquitetura de seus casarões

Em meio ao frio que proporciona por sua localidade, com 526 metros de altitude, a cidade consegue transmitir o calor acolhedor a quem a visita.

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Sinônimo do estilo paraibano de se fazer cachaça

Dois engenhos das tradicionais aguardente Rainha e cachaça Cascavel mostram aos turistas suas instalações e explicam sobre o processo de fabricação da cachaça. Como eles ficam na área rural da cidade, em vias sem sinalização, vale passar antes pela Casa do Turista, na Praça Epitácio Pessoa, para perguntar sobre o caminho – se preferir, o lugar oferece guias para acompanhar o passeio.

O engenho Goiamunduba fabrica, desde 1854, a maravilhosa aguardente Rainha, que é a aguardente de cana mais forte comercializada no Brasil. “Forte” entre aspas, pois o produto é tão bem feito e suave que, ao beber, você não sente que está ingerindo 50% de álcool. A Rainha, tecnicamente, não pode ser chamada de cachaça, e sim de aguardente, devido ao seu alto teor alcoólico – isso porque a legislação só considera cachaça se tiver graduação alcoólica entre 38% e 48%.  Mas é uma bebida respeitada por todos os especialistas em cachaça do Brasil, tonando-se sinônimo da produção cachaceira da Paraíba.

 

Alagoa Nova

Retorne para Areia e, já no caminho para Campina Grande, percorra mais 18 quilômetros, até a cidade de Alagoa Nova (1904), pela PB-097. A cidade também investe no tradicional São João, em junho. Agosto é reservado à Festa da Galinha e da Cachaça e também à Rota Cultural Caminhos do Frio. Dessa rota, participam quase todas as outras cidades do Brejo Paraibano. Nossa parada será no engenho Novo e Beatriz, onde se fabrica a também premiada cachaça Serra Preta, que é outra pauleira de 45% de álcool, mas super bem resolvida e equilibrada.

 

Campina Grande

Até Campina Grande (1864) são só mais 30 Km. A essa altura você deve estar num pé e noutro para aproveitar seu São João e beber suas cachacinhas, mas, calma!

Como Campina é a cidade polo de todo o Agreste da Paraíba, vá antes à Feira Central, pertinho, no centro da cidade. Procure a rua das cachaças, que possui vários comércios de bebidas que vendem praticamente todas as marcas produzidas no Estado. É uma ótima opção de compra, além de render fotos excelentes na Feira de Campina Grande, que, desde 2017 é reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil.

Em Campina você ainda pode misturar forró e cachaça em vários outros locais, como: Estação do Turista, na Vila do Artesão e no Salão do Artesanato de Campina Grande.

Chegamos ao fim do nosso passeio!

Agora é só se deliciar com esses verdadeiros orgulhos da Paraíba. Curta sua bebida no Parque do Povo, em ótima companhia e ao som de um bom forró pé de serra.

Espalhados pela Paraíba existem vários outros engenhos com excelentes cachaças, esta foi uma amostra. Conheça tudo sobre nossa produção cachaceira acompanhando este blog e a coluna Confraria do Copo, na CBN João Pessoa.

Feliz São João!

Pra falar comigo, escreva um comentário aqui ou mande e-mail mauricio@rotulobrasil.com.br .

O WhatsApp direto é 83 9 8793 6402.

Engenho da Paraíba utiliza sequenciamento genético na sua produção de cachaça

Se você tem acompanhado a coluna Confraria do Copo, na Rádio CBN Paraíba, já sabe que a cachaça é produzida por meio da destilação do mosto fermentado da cana-de açúcar. Agora, o que pouca gente sabe é que uma empresa paraibana de cachaça decidiu investir em alta tecnologia, para melhorar o processo produtivo de fermentação do seu mosto, que é o caldo da cana diluído em água.

Localizado no Litoral  paraibano, o Engenho Baraúna refinou a sua produção graças à utilização da tecnologia de sequenciamento do DNA, para a seleção da levedura utilizada no mosto.

O trabalho teve a colaboração de uma das mais prestigiadas instituições do Nordeste, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A divulgação foi feita por meio de dois estudos científicos: uma dissertação de mestrado voltada à produção de álcool e outra focada na produção de cachaças, ambas na área de biotecnologia e genética.

Mosto fermentado

As leveduras (fermentos) são organismos unicelulares microscópicos, classificados no reino dos fungos, tal como o mofo e os cogumelos.

Como dito acima, a cachaça é produzida pela destilação do mosto fermentado da cana-de-açúcar. A fermentação é realizada com a adição das leveduras ao mosto, elas transformam todo o açúcar da mistura em álcool e gás carbônico. Ao final da fermentação obtêm-se o “mosto fermentado”, também chamado de “vinho da cana”. Esse “vinho” é o produto que posteriormente será colocado para destilação. O tipo de fermento e o processo de fermentação vão definir diretamente na qualidade final de sabor e aroma da cachaça.

 

Mosto fermentando: nessa fase, a levedura transforma o açúcar em álcool e gás carbônico

Seleção do perfil genético

Por meio de uma parceria entre o Departamento de Bioquímica da UFPE (professores Marcos Moraes e Diogo Simões), o Grupo Japungu de Santa Rita-PB e o Engenho Baraúna de Alhandra-PB, foram desenvolvidos estudos sobre a genética das leveduras.

Segundo Alexandre Rodrigues, diretor Industrial do Engenho, durante os estudos, os pesquisadores realizaram o sequenciamento genético de vários tipos de leveduras encontradas no caldo da cana. Foram, então, identificadas e classificadas as que possuíam perfil mais adequado tanto para a indústria do álcool, como para a produção da cachaça.

Um dos resultados do trabalho foi o desenvolvimento de uma técnica eficiente e barata para seleção das leveduras, por meio do controle do perfil do DNA. Este controle é realizado nos  laboratórios da Usina Japungu.

Obtendo a levedura ideal

O mosto fermentado com a Dekkera b. propicia ao destilado a formação do “rosário” e da “lágrima da cachaça”

Com todas as leveduras mapeadas e caracterizadas, foi identificada para a cachaça uma levedura especial, a Dekkera bruxellensis.  Ela apresenta maior capacidade de produzir componentes desejáveis no destilado, como o aroma floral e frutado e o glicerol, que propicia a  formação da textura da bebida (lágrimas da cachaça) e do bouquet (rosário ou colar).

Ainda de acordo com Alexandre Rodrigues, para inserir a Dekkera b. no processo de fermentação, foram feitos vários testes e ensaios sobre a quantidade populacional adequada frente às outras leveduras, ditas selvagens, que já habitam naturalmente o caldo da cana.

Após as avaliações, chegou-se à conclusão de que o número ótimo da Dekkera b. no volume a ser fermentado seria de 20%.

Antes do início da safra, a Usina Japungu envia relatórios com o percentual das leveduras obtido. Quando o percentual chega ao nível ideal (20%), são coletados cerca de 1.000 litros para iniciar o processo de moagem. Após iniciada a fermentação, são então mantidos os controles de qualidade da produção e da quantidade de leveduras, priorizando-se a qualidade do aroma e o sabor da cachaça.

O produto final

Ao final desse processo, obtêm-se a Cachaça Baraúna, que consegue unir a tradição paraibana em produzir excelentes cachaças brancas com a alta tecnologia da engenharia genética, aplicada à produção de destilados.

De fato, por experiência própria, a Baraúna apresenta uma excelente estrutura de viscosidade (lágrimas) e entrega à boca a sensação aveludada de uma bebida com baixíssima acidez, apesar dos seus 42% de teor alcoólico. No olfato temos a presença da cana-de-açúcar, do mel de engenho e dos aromas frutados, dando à bebida uma grande complexidade sensorial.

A única ressalva que posso fazer não é com relação ao conteúdo, mas quanto à apresentação, pois, apesar do belo rótulo com fonte em art nouveau, a Baraúna merece uma garrafa mais condizente com tanta qualidade e tecnologias embarcadas.

 

 

 

Consumo de bebidas alcoólicas: mitos e verdades

O Maior São João do Mundo vai começar .

Entramos no mês de junho, festas, forró, confraternizações com amigos, encontros com a família, etc. Esses e diversos outros eventos têm uma característica comum: quase sempre envolvem álcool. Mas beber apenas nestas ocasiões não causa nenhum problema para a saúde, certo? Confira os mitos e verdades sobre o consumo de álcool:

 

UMA CANECA DE CHOPP É MAIS “FRACA” DO QUE UMA DOSE DE CACHAÇA.

Uma lata de cerveja de 475ml tem em torno de 25g de álcool (a  5%).    Uma dose padrão de cachaça, de 50 ml  tem  19g (a 38%) e um cálice de 200 ml de vinho tem 28g de álcool (a 14%).  Então, não é porque a bebida é mais “fraca” que ela não vai comprometer a sua sobriedade, o problema não é o tipo de bebida que você está tomando e sim a quantidade.

 

MISTURAR CERVEJA COM CACHAÇA POTENCIALIZA A EMBRIAGUEZ?

A pessoa se empolga, toma uma, duas, três cervejas.   Depois pede uma cana  e volta pra cerveja e fica alternando.   No dia seguinte, tem uma  ressaca arretada  e diz que foi porque misturou cachaça com cerveja.   Isso é balela. Quando se consome uma bebida com maior teor alcoólico, a tendência é não perceber o aumento do consumo de bebidas com mais baixo teor. Neste caso, a cerveja passa a ser tomada em doses maiores e mais freqüentes e você perde a referência do quanto bebeu.

AS MULHERES SÃO MAIS SUSCETÍVEIS AOS EFEITOS DO ÁLCOOL DO QUE OS HOMENS.

  Nesse caso, tamanho é documento.   O corpo feminino é, em média, menor do que o corpo masculino. Por isso, a concentração de álcool acaba sendo maior no corpo das mulheres por dois fatores: o corpo feminino tem menor quantidade de líquidos  (sangue e fluidos), para o álcool ser dissolvido  e o fígado da mulher é menor para processar o álcool ingerido.  Então, os efeitos do álcool são perceptíveis mais rapidamente nas mulheres, como também em adolescentes, pessoas magras, pessoas idosas ou com défict de peso.

INGERIR BEBIDAS ALCOÓLICAS PODE CORTAR O EFEITO DE MEDICAMENTOS.

 Tanto o álcool como os remédios são metabolizados pelo mesmo órgão, que é o fígado. Com o excesso de álcool ele pode ficar  sobrecarregado, tendo que processar o álcool e o medicamento ao mesmo tempo. Isso pode causar a intensificação ou retardamento do efeito do medicamento do organismo.

AS BEBIDAS ALCOÓLICAS AJUDAM A NOS AQUECER EM DIAS FRIOS:

Apesar da sensação de aquecimento, na verdade o consumo de bebidas alcoólicas diminui nossa temperatura corporal e pode ser perigoso durante os invernos severos. O álcool causa a dilatação dos vasos sanguíneos, fazendo o sangue fluir pelas artérias e acelerando a perda de calor nos órgãos.

INGERIR BEBIDAS ALCOÓLICAS JUNTAMENTE COM COMIDA RETARDA OS EFEITOS DO ÁLCOOL.

É uma excelente ideia comer antes e durante o consumo de bebidas alcoólicas. O alimento desacelera o ritmo de absorção do álcool na corrente sanguinea, dando mais tempo para o corpo processar o álcool ingerido.

Beber de barriga vazia ou virar “doses” muito rapidamente, resulta numa sobrecarga de álcool no corpo acelerando os efeitos da bebida no organismo.

A melhor dica de todas pra retardar o efeito do álcool e acordar bem no dia seguinte é intercalar o consumo de água entre cada copo de bebida.  O consumo de álcool faz com que o corpo perca água, causando desidratação – por isso a sede, as dores de cabeça,  a vontade de morrer e outros sintomas típicos de ressaca.

BEBER CAFÉ, TOMAR UM BANHO GELADO OU FAZER EXERCÍCIOS NO DIA SEGUINTE PRA SUAR, COMBATE  OS EFEITOS DA RESSACA

  Do total de álcool que ingerimos, apenas 5% costuma ser eliminado pelo suor, pelo hálito ou pela urina. Os 95%  restantes são absorvidos pelo corpo.

O fígado é o órgão responsável por metabolizar o álcool. Mas a sua capacidade é limitada, um fígado saudável consegue processar de 10 a 12 gramas de álcool por hora. Mas, quando bebemos em excesso, o fígado não consegue metabolizar toda a quantidade de álcool ingerida. E o excesso cai na corrente sanguínea e indo para o cérebro, daí vem a embriaguez, causando confusão mental, alterando o senso de equilíbrio e turvando a visão.

A ressaca NUNCA não pode ser curada!!   O organismo precisa de tempo para metabolizar o álcool que foi ingerido e que caiu na corrente sanguínea.  Apesar das pessoas acharem que uma xícara de café forte ou um banho gelado

A bebida alcoólica só é prejudicial para o fígado

O consumo de bebida alcoólica afeta o funcionamento de todo o organismo, e quando utilizada em excesso pode trazer graves danos.

O álcool ataca o coração, altera a pressão arterial, pode causar problemas psiquiátricos, danos neurológicos, estimula a obesidade, o acúmulo de gordura e diversos outros malefícios. “Além disso, existe uma doença chamada cardiopatia alcoólica, em que o coração aumenta de tamanho por causa do consumo em excesso de álcool por muito tempo, e há também a síndrome do coração festivo, que causa fibrilação arterial”, explica Bruno Valdigem, doutor em cardiologia pela Universidade Federal de São Paulo.