Os Rituais da Cachaça: de onde vem o costume de dar uma “pro santo”?

O ar de sobriedade que adotam os apreciadores da cachaça antes de beber parece até contraditório. Antes de tomar, é obrigatório despejar um pouco da bebida no chão e anunciar: “pro santo”. Mas a contradição se desfaz quando se investiga a fundo a origem dessa tradição tão brasileira.

 

Ouça o áudio Confraria do Copo, onde falamos a respeito dos Rituais da Cachaça.

Jogar uma pro santo é um ritual mais antigo do que o próprio Brasil.

O ritual é conhecido: despeja-se o primeiro gole da bebida no chão e em seguida se diz  “uma cachaça pro santo”. Segundo a cultura popular, a cachaça é oferecida  para o santo em busca de proteção. Essa expressão e o ritual têm influência direta dos colonizadores portugueses e jesuítas.

O costume de derramar bebida no chão, antes de beber, é uma prática muito mais antiga que o próprio Brasil. O gesto nasceu de um ritual chamado “Libação”, que, segundo o jornalista Edson Borges, autor de uma vasta pesquisa sobre a relação entre a cachaça e as religiões, foi criado por gregos e romanos “e consistia em uma oferenda aos deuses para que eles provessem os lares de felicidade, harmonia e fartura”. Tais oferendas eram de vinho, azeite e leite.

No Brasil, a prática foi trazida pelos colonizadores portugueses e jesuítas, e foi incorporada durante o consumo de cachaça pelos escravos.

Com a imposição do consumo da bebida, os portugueses também impuseram São Benedito, filho de um escravo, como padroeiro dos escravos e, por tabela, da aguardente, fazendo nascer daí uma relação bem mais ampla dos negros com o São Benedito, a ponto de surgirem várias  irmandades na Bahia.

A partir daí, a cachaça passou a ser usada, também, em oferendas nas religiões com matrizes africanas, como o Candomblé, com a mesma finalidade da Libação: um pedido de proteção aos orixás.

Falando dos cultos de raízes africanas, existe uma relação entre a cachaça e a figura do Orixá Onilé. Essa divindade representa a base de toda a vida, a Terra-Mãe, tanto na vida como na morte.

Onilé é o primeiro a receber as oferendas e a ser evocado nos ritos dos sacrifícios. Como forma de pedir libertação e proteção em troca de oferendas, derrama-se uma dose de cachaça na terra para agradar o  “santo”, que, na verdade, é o Orixá.

A relação entre cachaça e religiosidade gerou também outras diversas práticas e rituais relacionadas à bebida.

Tem gente que se benze antes de tomar a primeira, por que a cachaça também é chama de água benta. Da mesma forma há os que fazem caretas exageradas, isso pra espantar os maus espíritos.

Na Bahia, no interior de Goiás e de Minas é comum que se sopre ou se abane o copo da cachaça, Segundo dizem, é pra fazer sair o espírito do álcool. Isso é bem interessante por que os alquimistas, na idade média, destilavam o vinho e ao perceberem que o álcool gerado da destilação era inflamável, eles diziam que este era o espírito do vinho.

Existe o ritual de tomar a primeira dose de olhos abertos, para ver o rosto da mulher amada, mas há, também, outro ritual muito interessante que é o de tomar a última dose de olhos fechados. Na região Norte é uma tradição se fazer isso, por que, segundo dizem, se você toma o último trago de olhos abertos, você pode ver o olho da morte no fundo do copo.

Mas com ritual ou sem ritual, sempre beba com moderação. Beba Cachaça de qualidade, registrada e que não te faça mal no dia seguinte, assim o santo vai adorar, pois o ritual da ressaca, nem o diabo merece.

De João Pessoa a Campina Grande via Brejo Paraibano: muita história, cachaça e forró

Este blog é sobre cachaças, mas como festa junina, história e  forró  também têm tudo a ver com a Paraíba, eu preparei um misturão com esses elementos.

 

Aproveitando o mote junino, fiz um trajeto para quem quer ir de João Pessoa a Campina Grande pra forrozar no Maior São João do Mundo (programação). O roteiro inclui o Brejo Paraibano, onde você poderá conhecer um pouco da história e das belezas arquitetônicas e naturais da região e, claro,  saborear algumas das melhores marcas de cachaças produzidas  no Brasil.

Pré-requisitos: alguém que dirija e não beba, disposição para degustar cachaças deliciosas e uma boa câmera fotográfica

Sobrado

Engenho Nobre: cachaças premiadas dentro e fora do Brasil

Logo no começo da viagem, na BR-230, Km 71, você encontra o Engenho Nobre. Ele fica às margens da BR,  na região da cidade de Sobrado, mas no sentido Campina – João Pessoa, então você vai ter que fazer um retorno.

O Engenho fabrica as cachaças Sapequinha e as premiadas  Nobre, e Arretada  (medalha de prata no San Francisco Distilled Spirits Competition, 2019). Lá você tem visitação ao engenho, degustação na adega e pode comprar cachaças na lojinha. Os preços são bem inferiores aos encontrados no mercado. O proprietário é um mineiro-paraibano  super simpático e comunicativo (posso passar o contato dos proprietários por e-mail para quem tiver interesse em marcar uma visita).

Alagoa Grande

Seguindo em frente, no Km 112 da BR-230,  você vai sair da BR e pegar a PB-079. O destino é o Brejo paraibano e a cidade,  Alagoa Grande (1865) –  terra de Jackson do Pandeiro. Mas não vá com tanta sede ao pote das cachaças, conheça antes um pouco da cidade.

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Cachaça Volúpia, várias vezes eleita uma das melhores do Brasil

Dê um tempinho para umas fotos no “Pandeirão”, o portal de entrada do município. Você pode visitar o museu Jackson do Pandeiro, que possui vários objetos pessoais do Rei do Ritmo. Visite também o Teatro Santa Ignêz, construído em 1905. Conheça a Casa de Margarida Maria Alves, onde são guardadas a memória e a história dessa que foi a maior líder sindical brasileira de todos os tempos.

Agora as cachaças: siga para o engenho Lagoa Verde, que fabrica a nacionalmente conhecida e multipremiada Cachaça Volúpia. Você terá a visitação ao engenho e poderá se deliciar com um belo café da manhã ou com o famoso almoço regional do restaurante Banguê, que fica na propriedade. O engenho possui várias opções de turismo ecológico. Excelente oportunidade para se contemplar as belezas naturais do Brejo Paraibano. Na hora das compras, há uma elegante lojinha que vende as cachaças do engenho a preços excelentes.

Em Alagoa Grande você também deve ir ao Engenho Gregório de Baixo, que fabrica a ótima cachaça Gregório. Uma potência de 45 graus de teor alcoólico,  mas de suavidade e sabor que impressionam.

Areia

Siga 18 Km à frente, ainda pela PB-079 até a belíssima e histórica cidade de Areia (1846),  berço do pintor Pedro Américo e do escritor José Américo de Almeida. A cidade tem seu centro histórico tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O conjunto histórico e urbanístico de Areia foi tombado, em 2006. Para o tombamento, o IPHAN baseou-se no valor histórico, urbanístico e paisagístico atribuído ao conjunto, pela ativa participação da cidade nas revoluções ocorridas no século XIX.

Você vai se encantar com a beleza da cidade. Conheça o Teatro Minerva, inaugurado em 1858, vá ao Museu da Rapadura e ao Museu Casa de Pedro Américo. Conheça a antiga Igreja de Nossa Senhora do Livramento, construída em 1861. Curta o clima bucólico da cidade e tire belas fotos nas simpáticas ruas de paralelepípedo com suas casas coloniais. Além disso tudo, a cidade também organiza um São João bem tradicional, com forró pé-de-serra e comidas típicas.

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Cachaça Triunfo: portfólio variado e muitas vezes premiado

A cidade, por si só, já vale a visita, mas nosso passeio inclui cachaças, então siga para o Engenho Triunfo.

O Engenho possui uma ótima infraestrutura turística e é aberto todos os dias para visitas guiadas. Ao fim da visita, há uma degustação de cachaças, além de frutas, caldo-de-cana e até sorvete de cachaça. Você prova e depois, se quiser, compra na loja. Uma variedade incrível de produtos. São belas opções para a sua adega, para presentear e claro, pra tomar umas boas doses também.

Logo depois do Engenho Triunfo, você vai encontrar o Engenho Vaca Brava, da também premiada Cachaça Matuta. Eles fazem visitação guiada, que inclui a loja para degustação e venda de cachaças e outros produtos. É um belo passeio num dos lugares mais bonitos da Paraíba.

Cuidado nas compras

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Ouro na Expocachaça 2019

Areia possui mais de 40 engenhos e você pode encontrar dezenas  de cachaças excelentes com preços super camaradas no comércio local. A variedade é enorme, então aconselho a você procurar as cachaças registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Consulte no rótulo da cachaça se é mostrado o número desse registro. Se não tiver, não compre, pois pode ser um produto clandestino ou sem inspeção sanitária. Essa dica vale para a compra de cachaças em qualquer lugar que você visitar.

Ipueira Carvalho: a melhor da categoria na Expocachaça 2019

Dentre as cachaças da região posso citar as que integram a APCA (Associação dos Produtores de Cachaça de Areia): a Turmalina da Serra (cachaça simplesmente espetacular), Aroma da Serra, Vitória, Princesa do Brejo, Ipueira, Elite e a Cristal de Areia. Vários engenhos também possuem lojinhas na cidade, é só procurar que você encontra.

 

Bananeiras

Invista um pouco mais de tempo (vai valer muito a pena) e dê uma esticada para conhecer outra joia arquitetônica preservada  da Paraíba:  a cidade de Bananeiras (1879). Fica há 50 Km de Areia. Nas pequenas ruas do Centro Histórico, o casario reúne mais de 80 construções tombadas pelo IPHAEP – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estado da Paraíba. A região foi primeiramente produtora de cana-de-açúcar e depois de café. Em 1852, a produção cafeeira chegou a ser a segunda do Nordeste. Isto tornou a cidade uma das mais ricas da região, riqueza esta expressa na arquitetura de seus casarões

Em meio ao frio que proporciona por sua localidade, com 526 metros de altitude, a cidade consegue transmitir o calor acolhedor a quem a visita.

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Sinônimo do estilo paraibano de se fazer cachaça

Dois engenhos das tradicionais aguardente Rainha e cachaça Cascavel mostram aos turistas suas instalações e explicam sobre o processo de fabricação da cachaça. Como eles ficam na área rural da cidade, em vias sem sinalização, vale passar antes pela Casa do Turista, na Praça Epitácio Pessoa, para perguntar sobre o caminho – se preferir, o lugar oferece guias para acompanhar o passeio.

O engenho Goiamunduba fabrica, desde 1854, a maravilhosa aguardente Rainha, que é a aguardente de cana mais forte comercializada no Brasil. “Forte” entre aspas, pois o produto é tão bem feito e suave que, ao beber, você não sente que está ingerindo 50% de álcool. A Rainha, tecnicamente, não pode ser chamada de cachaça, e sim de aguardente, devido ao seu alto teor alcoólico – isso porque a legislação só considera cachaça se tiver graduação alcoólica entre 38% e 48%.  Mas é uma bebida respeitada por todos os especialistas em cachaça do Brasil, tonando-se sinônimo da produção cachaceira da Paraíba.

 

Alagoa Nova

Retorne para Areia e, já no caminho para Campina Grande, percorra mais 18 quilômetros, até a cidade de Alagoa Nova (1904), pela PB-097. A cidade também investe no tradicional São João, em junho. Agosto é reservado à Festa da Galinha e da Cachaça e também à Rota Cultural Caminhos do Frio. Dessa rota, participam quase todas as outras cidades do Brejo Paraibano. Nossa parada será no engenho Novo e Beatriz, onde se fabrica a também premiada cachaça Serra Preta, que é outra pauleira de 45% de álcool, mas super bem resolvida e equilibrada.

 

Campina Grande

Até Campina Grande (1864) são só mais 30 Km. A essa altura você deve estar num pé e noutro para aproveitar seu São João e beber suas cachacinhas, mas, calma!

Como Campina é a cidade polo de todo o Agreste da Paraíba, vá antes à Feira Central, pertinho, no centro da cidade. Procure a rua das cachaças, que possui vários comércios de bebidas que vendem praticamente todas as marcas produzidas no Estado. É uma ótima opção de compra, além de render fotos excelentes na Feira de Campina Grande, que, desde 2017 é reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil.

Em Campina você ainda pode misturar forró e cachaça em vários outros locais, como: Estação do Turista, na Vila do Artesão e no Salão do Artesanato de Campina Grande.

Chegamos ao fim do nosso passeio!

Agora é só se deliciar com esses verdadeiros orgulhos da Paraíba. Curta sua bebida no Parque do Povo, em ótima companhia e ao som de um bom forró pé de serra.

Espalhados pela Paraíba existem vários outros engenhos com excelentes cachaças, esta foi uma amostra. Conheça tudo sobre nossa produção cachaceira acompanhando este blog e a coluna Confraria do Copo, na CBN João Pessoa.

Feliz São João!

Pra falar comigo, escreva um comentário aqui ou mande e-mail mauricio@rotulobrasil.com.br .

O WhatsApp direto é 83 9 8793 6402.

Uma Grande Mentira: as estórias contadas sobre o nascimento da cachaça

Uma grande mentira toma corpo na internet

A obra do historiador capixaba Eliezer Ortolani conceitua bem a nossa tendência a crer em coisas fantasiosas, segundo ele:

Nosso passado de escravidão, religiosismo e mitificações nos conduz a aceitar como verdadeiros atos e fatos sem um mínimo de base histórica. Nossa cultura, embasada no atavismo do imaginário português, nos impele à propensão ao aceite de coisas fantasiosas, mitos, lendas e estórias descaradamente mentirosas, que turvam, distorcem e escondem a realidade histórica dos fatos.

É exatamente reforçando essas fantasias e mentiras que circula pela internet, num número alarmante de páginas e até de trabalhos mais sérios, como algumas teses de mestrado e doutorado, uma mentirosa “história” sobre a origem da cachaça e das palavras aguardente e pinga. Um texto que agride a inteligência de qualquer pessoa munida de senso crítico e que pare para pensar no assunto durante um ou dois minutos.

Nós, como estudiosos da história da cachaça temos a obrigação de levar conhecimento e informação a todos os que se interessam pela verdade histórica dos fatos.

A mentira

Vejamos o que diz essa tão propagada lenda:

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou! O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo (fermentado). Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o “azedo” do melado antigo era álcool, que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente, era a cachaça já formada que pingava, por isso o nome (PINGA). Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ÁGUA ARDENTE. Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo. Hoje, como todos sabem, a AGUARDENTE é símbolo nacional!

 

As inconsistências históricas

Esse texto foi disseminado, de forma apócrifa, sem nenhum dado que permita saber de onde vêm as suas fontes de informação e sendo atribuído ao Museu do Homem do Nordeste, sediado em Recife, e isso é mais uma mentira, conforme esclareceu a coordenadora geral do museu, Vânia Brayner:

 “Caros, sinto informar-lhes que esta história nunca foi contada pelo Museu do Homem do Nordeste, em nenhum de seus escritos, exposições ou qualquer documento do Museu. Nós, que fazemos o Museu do Homem do Nordeste, estamos numa verdadeira saga na internet tentando descobrir de onde saiu essa história… do Museu, tenham certeza, não foi”.

Vamos começar nossa análise pelas inconsistências históricas: A aguardente (coisa e palavra) já existiam mesmo antes que o primeiro português pusesse o pé por essas bandas  do planeta. A data precisa é incerta, mas, embora a destilação já fosse conhecida pelos árabes desde a Idade Média, pesquisas situam o início da destilação de álcool em torno do século XII. O latim medieval aqua vitae, que teve descendentes em diversos idiomas, pode ter tido uma participação na formação do vocábulo, mas o sentido literal de aguardente está mais próximo do holandês vuurwater, “água de fogo”. O fato é que a ligação entre álcool e água aparece em inúmeras culturas (vodca e uísque também compartilham essa ideia), o que torna difícil dizer como começou.

Os primeiros registros do vocábulo aguardente em português datam do século XV, ou seja, antes do descobrimento. Em espanhol, aguardiente era termo usado desde 1406.  Estima-se que no início do século XIV a produção de bebidas obtidas pela destilação de cereais, uva e sucos fermentados de outras frutas atravessaram fronteiras e começaram a se popularizar em diversos países europeus. Temos como exemplo a Alemanha, que fez a cereja originar o kirsh; a Itália fermentou e destilou o mosto produzido pelo bagaço da uva e criou a grappa; a Rússia fez o centeio virar a vodca; a Escócia transformou cevada maltada no whisky e em Portugal, a sobra da vinificação da uva transformou-se na bagaceira, obtida pela destilação do vinho, do bagaço de uvas, de cereais, ou de outro produto vegetal doce. Nossa cachaça não ganha nem citação nominal, ofuscada pela bagaceira portuguesa, ou seja, a destilação já era totalmente conhecida e dominada por boa parte do mundo da época. A cachaça só foi criada no inicio do século XVI.

Já a pinga, outra palavra cuja etimologia o texto finge iluminar, surgiu muito tempo depois, registrada pela primeira vez em 1813. Vem de “pinga”, ou seja, “cachaça”, aplicada ao sentido de “gota”, “quantidade pequena de líquido”, do Latim PENDICARE, “pingar, estar pendurado”. A princípio tinha a acepção de “gole, trago” – por meio da ideia de algo que apenas se pinga no copo, em pequeno volume – e só depois, por extensão, virou sinônimo de cachaça.

A verdade

Os levantamentos históricos datam o nascimento da cachaça em três lugares distintos, Itamaracá – PE (1516), Porto Seguro – BA (1520) ou São Vicente – SP (1532). O fato é que a cachaça nasceu em algum lugar do litoral brasileiro , infelizmente, sucessivas guerras, invasões, saques  e incêndios deixaram muitos dos documentos históricos resumidos a memórias e registros de historiadores.

Colocados os “pingos nos is”, resta a certeza de que as primeiras produções de cachaça foram planejadas pelos colonizadores, nada foi ao acaso e nem invenção de escravos preguiçosos. Os europeus já dominavam as técnicas de destilação havia muito tempo, produzindo bebidas como a bagaceira. Uma evidência é que o nome mais aceito para cachaça vem do espanhol “cachaza”, um tipo de bagaceira de baixa qualidade produzida pelos ibéricos a partir das cascas e talos da uva. Como não tinham uvas aqui e os navios com a bagaceira demoravam muito entre os carregamentos, os patrícios improvisaram uma bebida com o resíduo da cana e foi daí que nasceu o nosso tão amado destilado nacional.

E PONTO FINAL.

 

Dia Nacional da Cachaça

Sempre que chega essa data (21/05) eu preciso reforçar algumas informações, pois se faz  uma certa confusão acerca do dia 21 de maio como sendo o dia nacional da cachaça. Eu recebo (e agradeço) de vários amigos, mensagens sobre essa data, mas, a bem da boa informação, eu digo que há que se fazer uma correção: na data de hoje é comemorado o dia da cachaça mineira , a data se refere ao dia em que o então governador de Minas, Itamar Franco, assinou o decreto que regulamenta a produção de cachaça em Minas Gerais e também marca o início da safra no estado. Ela é comemorada desde 2001.

Já o dia Nacional da Cachaça é o dia dia 13 de setembro e foi escolhido em homenagem à data em que a cachaça passou a ser oficialmente liberada para a fabricação e venda no Brasil, em 13 de setembro de 1661.
Essa legalização só foi possível após uma revolta popular contra as imposições da Coroa portuguesa, conhecida como “Revolta da Cachaça“, ocorrida no Rio de Janeiro.
Até então, a Coroa portuguesa impedia a produção da cachaça no país, pois o seu objetivo extinguir nosso destilado e o substituir pela bagaceira, uma aguardente feita com bagaços da uva, um subproduto da produção do vinho. A criação do Dia Nacional da Cachaça foi uma iniciativa do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), e foi instituído em junho de 2009, desde então, comemora-se o 13 de setembro como o Dia Nacional da Cachaça.

Então, parabéns às cachaças mineiras e toda a sorte do mundo para as cachaças de todo o Brasil.

Cachaça: breve história da ascensão do destilado nacional

Início Difícil

Apesar de ser tão antiga quanto o próprio Brasil, a cachaça nunca foi aceita pelas velhas elites brasileiras. Desde o início a cachaça sempre foi associada ao povão, às classes menos favorecidas. A partir de 1850, com o declínio do trabalho escravo e a intensificação econômica do café, surge no Brasil a elite dos Barões do Café, mais identificados com a cultura e hábitos europeus. Nesse cenário o padrão era: filhos educados na Europa; uso do fraque, bengala e cartola; a bebida era o puro malte escocês e cachaça era coisa de pobres e abrutalhados, pessoas incultas e de negros. Por muitos anos, esse era o padrão de sucesso nos negócios e na vida, admirado, invejado e copiado por todos.

Mas, de fato, nos anos pré-abolição, muita gente perambulava pelas ruas das cidades pedindo esmolas para comprar cachaça. Isso se agravou  depois da bem intencionada e mal planejada “Abolição dos Escravos”. Os negros escravos, de uma pra outra se viram sem trabalho, sem moradia, sem comida e sem as mínimas condições de subsistência. A partir de então, a cachaça viveu seus momentos mais tristes, servindo de refúgio para amenizar as dores da miséria e da fome. Aí começa a decadência da cachaça, que passa a ser vista como algo indesejado, como uma bebida de “pinguços”, desocupados e “cachaceiros” e esses termos pejorativos até hoje, denigrem a sua imagem.

 

A Semana de 22

O primeiro grande evento de resgate da cachaça, como uma bebida que merece respeito, foi a Semana de Arte Moderna de 1922, que buscava uma nova visão de pais e a apresentação de uma arte “mais brasileira”.

Nesse evento, estavam presentes os grandes nomes das nossas artes, como Tarsila do Amaral, Vila Lobos, Di Cavalcanti, Mário de Andrade. Mário de Andrade até apresentou uma obra chamada Eufemismos da Cachaça. Nesse evento, foi proibido servir outra bebida que não fosse cachaça, dizem que essa turma ficava de porre todo dia.

Início da Virada

Mas a cachaça continuou seu rumo, amada e odiada. Mas ali pelos anos 1940-1950 com o fim dos engenhos de açúcar mascavo, que foram obrigados a fechar por conta das emergentes usinas, que produziam o açúcar refinado branco em larga escala, várias propriedades ficaram de “Fogo Morto”, como diz no título do livro de José Lins do Rego. Muitos fecharam e os sobreviventes tiveram que se reinventar e focar sua produção na cachaça.

Mas, grande virada só começou mesmo por volta de 1995, 1996, onde, por pressão de produtores e por vontade política, o Governo de Fernando Henrique Cardoso começou a produzir as primeiras portarias e instruções normativas sobre a cachaça.  Só então é que foram definidas as regulamentações técnicas de fabricação, os procedimentos de registro de produtores, a classificação e rotulagem e os processos de fiscalização.

No bojo de tudo isso, veio também a melhoria de qualidade da bebida, a profissionalização da cadeia produtiva e um movimento forte de melhoria da imagem e da identidade da cachaça, isso através da mudança de rotulagem e das garrafas. Tirando a associação de deboche, embriaguez, desordem e bebida de pobre e colocando no lugar rótulos e nomes mais adequados a um novo público.  Um caso típico é o da cachaça Volúpia, que tinha no antigo rótulo um apelo muito sensual, era uma mulher seminua, com seios á mostra, uma exploração bem evidente do corpo feminino. Aí  mantiveram o nome, mas recriaram o rótulo, muito sofisticado e a bebida vem em lindas garrafas de porcelana, muito bonitas inclusive como itens de presente.

Os Desafios Atuais

O segmento teve avanços significativos nos últimos vinte anos. No entanto, há obstáculos a serem vencidos para que a cachaça alcance seu merecido lugar de destaque entre outros destilados do mundo, é preciso revisar a carga tributária incidente sobre a bebida, de acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), a cachaça é um dos produtos campeões de tributos do País: as taxas representam 81,87% do preço do líquido. Além de atrapalhar a progressão do setor, os tributos fomentam a informalidade – um problema de saúde pública. Dados preliminares do Censo Agropecuário 2017 revelam a existência de 11 mil produtores de aguardente de cana-de-açúcar no País.  Porém, somente 1,5 mil são registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O ministério tem somente um fiscal para cada 97 estabelecimentos. Como os agentes trabalham em dupla, a proporção sobe para 194 produtores por fiscal. É pouco!

Outra barreira a ser ultrapassada é o preconceito, mas isso já foi muito maior e em favor do segmento pesa o fato de as cachaças hoje terem muito mais qualidade. Há um aprimoramento nas embalagens e nos líquidos. Muitos consumidores brasileiros estão aprendendo a apreciar cachaças de qualidade. Bares e restaurantes finos oferecem carta de cachaça, o que não existia há 20 anos. Nesse sentido, o setor está em sintonia com a tendência mundial de beber menos quantidade e mais qualidade.