Ipueira: cachaça com sabor de antigamente

Casa da moenda do Engenho Ipueira (Foto: Maurício Carneiro)

Utilizando métodos tradicionais de produção e maquinário secular, o Engenho Ipueira se renova e se reinventa.

Em pouco mais de 20 minutos vencemos os 11 quilômetros que separam a cidade de Areia, no Brejo Paraibano, do Engenho Ipueira, área rural da cidade e destino de nossa curta viagem. A estrada tem calçamento até o distrito de Mata Limpa. Seguindo, nas margens da estrada de terra e areia solta, a paisagem se mescla entre a mata nativa, plantações de agricultura familiar e a cultura da cana-de-açúcar.

Os 11 quilômetros nos fazem retroceder quase 100 anos. Chegamos ao pátio do engenho e nos sentimos voltando aos tempos em que o patriarca, Donato Feitosa, labutava com seu engenho. Fabricava rapadura, cuja cana era esmagada e moída na máquina produzida e patenteada pela empresa inglesa Wilian &A.Mc.Onie, fabricada em 1878, na cidade de Glasgow, Escócia. O bagaço era transportado nas padiolas banguê* e o doce cheiro do caldo de cana fervente exalava por toda a propriedade.

Como há cem anos, todo este cenário ainda está lá, vivo, ativo, vibrante.

A dama centenária e a garota propaganda

Transporte do bagaço da cana no banguê. (Foto: Maurício Carneiro)

Como saído de um livro de José Lins do Rego, dois rapazes colhem o bagaço após a extração do caldo e o transportam com um banguê para uma área que fica por trás das moendas. Será usado como combustível das fornalhas ou como adubo para as plantações de cana. Centenas de varas de cana-de-açúcar são impiedosamente esmagadas pela moenda centenária, extraindo o caldo que, em alguns meses, será brindado em copos e taças, sob a forma de cachaça.

A moenda chegou ao engenho Ipueira nos anos 1950, já vinda de outras batalhas, mas hoje continua presente e se impõe pela beleza. Pintada de cinza, parece nova e reluzente, como se acabada de desembarcar do navio que a trouxe da Europa. Mas ela não é uma velha enfeitada, nem uma aposentada peça de museu que testemunhou o passado. É, sim, uma bonita e ativa senhora, protagonista do seu tempo e trabalhando, há mais de um século, no que foi projetada para fazer: esmagando e moendo cana. Uma bela e orgulhosa Dama de Cinza. Sua beleza a habilitou a ser a “garota propaganda” do Engenho Ipueira. Seu perfil estampa o rótulo da sua cachaça premium (Ipueira Carvalho) e das embalagens de presente para as compras dos visitantes. Uma bonita homenagem a quem traz, impregnada nas suas engrenagens, o testemunho de vida e de trabalho de tantas gerações.

 

História

Conforme nos fala Anna Cristina Andrade Ferreira, a cana-de-açúcar sempre foi cultivada na região do Brejo paraibano, desde o início da colonização. Coexistia pacificamente ao lado das culturas alimentares e como atividade secundária durante o período de expansão do algodão. Com o declínio da atividade algodoeira, nos fins do século XIX, passou a dividir terras, de forma pacífica,  com a emergente cultura cafeeira.

Antes voltada para a produção do açúcar mascavo, de auto-consumo, a cana passou a ser utilizada como matéria-prima da rapadura e da aguardente.

Um dos alambiques do Engenho Ipueira (Foto Maurício Carneiro)

Os engenhos se multiplicaram, aumentaram sua capacidade produtiva e começaram a dominar a paisagem agrária. Suas moendas, antes de madeira, passaram a ser de ferro e os bois ou jumentos que as acionavam foram substituídos inicialmente pelo motor a vapor, em seguida, pelo motor a óleo diesel e posteriormente, pelo motor elétrico.

 

Celeiro do Sertão

A rapadura produzida no Brejo era vendida para os sertões dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Os sertanejos vinham ao Brejo com comboios de burros para transportar a rapadura. Para a venda e  alimentação durante a viagem, eles traziam a carne seca de bode. As tropas de burros partiam da região carregados de rapadura, e de aguardente além dos cereais ali produzidos: feijão, fava, milho e a farinha de mandioca. O Brejo torna-se um verdadeiro “celeiro do Sertão”.

Usina Santa Maria

Conforme esclarece Antônio Augusto Almeida, “com o fim do ciclo do café, ocorre a instalação, em 1930, da Usina Santa Maria, foi quando houve uma grande decadência dos chamados “engenhos banguê**”. Essa, certamente, foi a fase mais depredadora em relação ao meio ambiente e ao patrimônio cultural da região. Segundo Almeida, “indiferentes a tudo que não representasse interesse imediato a seus negócios (a cana-de-açúcar ou a pecuária extensiva), os novos proprietários destruíram a cobertura vegetal de proteção dos morros e as matas ciliares, as paisagens típicas, os engenhos banguê e as edificações de interesse histórico e arquitetônico. Tudo, como sempre, feito em nome do progresso”.

Foi nesse cenário conturbado que, em 1936, o Patriarca: Sr. Donato Feitosa, fundou o engenho Ipueira. Sua ideia era fazer a rapadura e ocupar o vácuo deixado pela saída dos outros engenhos, de fogo morto, fechados pelo domínio das usinas.

E a rapadura virou cachaça

Sempre voltado, exclusivamente, para a produção de rapadura, o Engenho Ipueira se modernizou. Suas moendas foram ganhando melhorias. Desde a sua fundação nunca fechou as portas. Nunca esteve de “fogo morto”, mesmo diante das grandes dificuldades de se trabalhar com um produto totalmente artesanal e enfrentar a concorrência dos produtos (rapaduras) feitos sem qualidade, com açúcar refinado e em larga escala. Assim o Ipueira atravessou as décadas, sempre acompanhado por sua Dama de Cinza, até desembocar nos anos 2000.

A Centenária Dama de Cinza (Foto: Maurício Carneiro)

Ricardo Feitosa foi criado dentro da bagaceira  do engenho. Preocupava-se com as dificuldades do pai em se manter e pagar as contas da propriedade apenas com a produção da rapadura. Resolveu empreender e dividir o doce ofício do Ipueira com a produção de cachaça. Isso após observar que o mercado estava se abrindo mais ao consumo de aguardente. Assim, em 2002, juntou umas economias e montou, no engenho, um pequeno alambique. Sua produção limitava-se a cerca de 250 litros/dia de cachaça e vendia sua produção a granel na região de Areia. Não tinha rótulo nem embalagem específica, mas a qualidade da cachaça diferenciou seu produto, que ficou conhecida como “a cachaça do engenho Ipueira”.

Com o passar do tempo, a qualidade da cachaça foi ganhando nome e mercado. A rapadura foi perdendo espaço até ser retirada da linha de produção. Ao mesmo tempo, o engenho passou a receber mais investimentos, nos processos de produção, nos alambiques e na qualidade do produto final.

 

Saindo da clandestinidade

Para crescer e se estabelecer no mercado, Ricardo Feitosa entendeu que deveria legalizar sua cachaça. Para a legalização, iniciou-se um grande trabalho de profissionalização do engenho. Todo o processo foi adequado de modo a atender às normas do Ministério da Agricultura para o registro da marca, desde a retirada da cana-de-açúcar do campo até a rotulação das garrafas. Nasceu, assim, oficialmente, em 2010, a “Cachaça Ipueira Cristal”.

Engarrafada em frascos de 275 ml, foi aceita de imediato pelo mercado, devido ao bom nome já cultivado ao longo dos oito anos como cachaça a granel.

 

 Crescendo com respeito às tradições 

Donato Feitosa Neto -Donatinho. (Foto: APCA)

Seguindo formas tradicionais de produção, a Ipueira tem toda a sua plantação de cana-de-açúcar própria e voltada exclusivamente para a produção de cachaça. Segundo Donato Feitosa Neto, o jovem administrador da propriedade e integrante da terceira geração da família nos negócios do engenho, “a cana utilizada é selecionada, de acordo com a sua produtividade, em particular as variedades desenvolvidas pela Ridesa  (SP79-1011 e RB867515). Apesar de serem variedades criadas comercialmente, estão plenamente adaptadas ao clima e solos do Brejo”. Donatinho, como é mais conhecido, nos falou que “o sabor das cachaças de Areia são únicos e se pegar cana de outra região, mesmo sendo da mesma espécie, isso vai alterar o sabor e descaracterizar a cachaça”.

Conforme presenciamos, uma fase crítica para a qualidade final do produto, o processo de fermentação, é feito de forma artesanal, com cepas de leveduras desenvolvidas no próprio caldo (não se utilizam leveduras comerciais). “Esse processo é cuidadosamente acompanhado por funcionários especialmente treinados, pois é nele onde as características sensoriais da cachaça são obtidas (aroma e sabor). Cada detalhe é importante, pois neles estão o diferencial entre se produzir uma cachaça especial ou uma cachaça comum”, explicou Donatinho.

Dos seus cinco alambiques, quatro funcionam com aquecimento a vapor e o pioneiro (primeiro alambique da propriedade) produz com fogo direto, onde o bagaço é queimado abaixo da panela do alambique. A produtividade por tonelada de cana é, em média, de 130 litros de cachaça e a meta de produção da safra 2019/2020 é destilar 500 mil litros.

Trabalho e conquistas

Diz o ditado popular que todo esforço será recompensado. E as recompensas pelo trabalho bem feito vieram em pouco tempo no engenho Ipueira.

Hoje a empresa possui um variado portfólio de cachaças, brancas e envelhecidas e em vários volumes e tipos diferentes de garrafas.

Linha da Ipueira (Foto: Areiartes)

Em 2013, apenas três anos após sua legalização, a Cachaça Ipueira ganhou o prêmio da associação dos Químicos da Paraíba em parceria com o Sebrae. Figurou entre as três melhores cachaças do Estado. Após isso, os proprietários focaram no refinamento da qualidade e na penetração do produto nos mercados do interior da Paraíba e na capital, João Pessoa. Além disso, buscaram o mercado dos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e outros do Nordeste.

APCA

A Ipueira é integrante da Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA). A Associação agrega nove produtores de cachaça da cidade, todos devidamente registrados no Ministério da Agricultura. Dentre outros objetivos, os associados buscam a obtenção da Indicação Geográfica (IG) para as cachaças da cidade de Areia/PB. A IG é um diferencial para os produtos característicos de uma região específica, o que lhes atribui reputação e identidade próprias, além de os distinguir em relação aos seus similares encontrados no mercado.

Novos horizontes

Com o processo da IG já avançado (neste mês de dezembro serão enviados os documentos aos órgão controladores), pode-se afirmar que a Ipueira, já em 2020, deverá ostentar em seu rótulo a distinção de Cachaça com Indicação Geográfica. Uma diferenciação que a habilitará a conquistar novos mercados, por sua qualidade reconhecida. Apenas três regiões  cachaceiras do Brasil possuem IG para a cachaça: Paraty (RJ), Salinas (MG) e Abaíra (BA). Em 2020 Areia entrará nesse rol.

Donatinho também nos explicou que, “num esforço conjunto de todos os nove associados, a APCA participou da Expocachaça 2019, levando as cachaças de Areia para Belo Horizonte, MG, na maior vitrine da cachaça no Brasil. Apesar de nunca ter participado de concursos, na categoria Carvalho Francês, a Cachaça Ipueira Carvalho ganhou a medalha de Prata. Nove cachaças que obtiveram pontuação para a prata e a Ipueira foi a melhor colocada dentre todas as concorrentes”. Ele esclareceu, ainda, que “não houve premiação com medalha de ouro para essa categoria, que é dada para pontuações a partir de 9,1. A Ipueira tirou 9,0″. Esta foi a primeira edição da Cachaça Ipueira em carvalho francês, que é uma tiragem limitada, armazenada por 5 anos”.

No ano de 2020, a Ipueira, juntamente com os demais associados da APCA estará novamente presente na Expocachaça, para repetir ou ampliar a premiação deste ano. “A tendência é que a associação, com a IG, participe mais ativamente de concursos de destilados pelo Brasil afora, vamos mostrar os atrativos de nossa região e a qualidade diferenciada do nosso destilado”, declarou o empresário.

Ipueira

Ipueira Carvalho. Prata na Expocachaça 2019 (Foto: Maurício Carneiro)

Situado numa área de privilegiada beleza, o Engenho Ipueira produz em 42 hectares de cana, tendo no total  400 hectares incluindo uma reserva florestal nos seus domínios. Suas terras são úmidas e férteis, com nascentes de água e mata preservada.

Desde o início da cultura canavieira no Brejo, até os dias de hoje, as áreas mais propícias para a plantação de cana-de-açúcar são as várzeas dos rios e as baixadas úmidas e férteis entre as encostas dos morros. Na região de Areia existem muitas várzeas, tanto é que, antigamente, a cidade já teve o nome de  Brejo d’Areia.

Brejo, alagadiço, várzea, ipueira. Todas denominações de regiões propicias à plantação de cana-se-açúcar.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, “ipueira” é um tipo de charco, terreno instável que se forma em lugares baixos, devido às enchentes dos rios.

Diferentemente do significado do seu nome, o Engenho Ipueira cresce vigoroso, não em área movediça ou encharcada, mas em terreno firme. Seu crescimento se apoia sobre bases sólidas, respeitando e se orgulhando do seu passado, buscando aprimoramento no presente e vislumbrando o futuro de forma planejada.

A Dama de Cinza ainda vai testemunhar muitas histórias de sucesso, pois tem saúde para trabalhar firme por muitos anos e estará presente em todas as grandes conquistas da Ipueira.

 

*Banguê: Estrado feito de cipós ou madeira, carregado por duas pessoas, para transporte de material (em especial bagaço de cana)
*Engenho Banguê: Os engenhos tipo “banguê” eram movidos a tração humana, animal ou rodas-d´água e produziam açúcar mascavo.

7 comentários - Ipueira: cachaça com sabor de antigamente

  1. Frank Cinatra Galdino Pinto Disse:

    Ótima narrativa e uma verdadeira aula da nossa história, parabéns!!!

  2. Caro Maurício, história maravilhosa, mesmo já tendo visitado o engenho fiquei motivado para ir lá novamente. A ipueira é uma cachaça notável. Desejo sucesso nas certificações e premiações futuras. Sucesso para o Brejo Paraibano. Parabéns pelas palavras.

  3. Claudia Ramos Disse:

    Parabéns pelo belo trabalho, e que continuem a mwlhorar cada dia mais!

  4. José João de Lima Disse:

    Parabéns pela qualidade da matéria publicada, e ainda mais eu que sou um apreciador das melhores cachaças do meu brejo de Areia-PB 👍

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *