Patrimônio Histórico, Areia busca selo de Indicação Geográfica para suas cachaças

Areia-PB. Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Foto: Marco Pimentel)

 

Por MAURÍCIO CARNEIRO

A Indicação Geográfica (IG) é um diferencial para os produtos característicos de uma região específica, o que lhes atribui reputação e identidade próprias, além de os distinguir em relação aos seus similares encontrados no mercado

A surpresa e a sensação de que se está entrando num lugar especial vêm logo no início: postes, calçadas, janelas e praças estão enfeitadas. São jardins e vasos de flores que ladeiam ambos os lados da avenida que dá entrada à cidade. A ação é uma iniciativa dos moradores, como forma de dar as boas-vindas a turistas e visitantes. Estamos em Areia, na região do Brejo paraibano! Ela nos recebe com flores, história, alegria e cachaça… muita cachaça!

A partir de agora, você vai conhecer um pouco mais sobre essa bela cidade e saber como a possível conquista do chamado Indicador Geográfico deve atrair mais investimentos e turistas à região. Venha comigo nesse passeio!

Cidade especial

Detalhe do Centro da Cidade (Foto: ferias.tur.br)

A bela e histórica cidade de Areia (1846), berço do pintor Pedro Américo e do escritor José Américo de Almeida, tem seu centro histórico tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 2006. Isso garante que os prédios são protegidos por lei federal específica e assegura sua preservação contra danos ou reformas indevidas, impedindo a descaracterização dos imóveis. Para conceder tal distinção, o Iphan baseou-se no valor histórico, urbanístico e paisagístico atribuído ao conjunto e na ativa participação da cidade nas revoluções ocorridas no século XIX. Na área tombada, existem cerca de 420 imóveis.

Situada na microrregião do Brejo paraibano, a cidade fica no topo da Serra da Borborema, a 618 metros de altitude em relação ao nível do mar, com uma população estimada em 22.940 habitantes (IBGE-2016).

Teatro Minerva, inaugurado em 1858 (Foto: Maurício Carneiro)

Dentre suas jóias arquitetônicas, destacam-se o Teatro Minerva, inaugurado em 1858, o Museu da Rapadura e o Museu Casa de Pedro Américo.  Além disso, o visitante pode conhecer a antiga Igreja de Nossa Senhora do Livramento, construída em 1861.

O centro histórico exala um clima bucólico que ameniza as tensões e o estresse da corrida vida das cidades grandes. À primeira vista, pode até passar despercebido aos desavisados, mas essa pacata cidade guarda, em seus casarões coloniais, nas suas ruas de paralelepípedo e nos seus engenhos de cachaça, seculares histórias de superação, paixão e orgulho.

Prepare os sentidos e as taças de degustação, afinal, estamos em Areia: Capital Nordestina da Cachaça!

O café preservou a cachaça

Parte do casario histórico de Areia, tombado pelo IPHAN (Foto: Tinho Santos)

A beleza arquitetônica da cidade foi construída desde o século XIX até os últimos anos da década de 1920. Os responsáveis foram os emergentes barões paraibanos do café, cuja cultura desenvolveu economicamente toda a região do Brejo da Paraíba na época.

Segundo o historiador Celso Mariz, no livro “Apanhados Históricos da Paraíba”, em 1919 a região do Brejo chegou a ter seis milhões de pés de café; a cidade vizinha de Bananeiras, sozinha, produziu 2.250 toneladas de café cereja em 1920. Assim, o vigor da cultura cafeeira protegeu as terras brejeiras contra a avidez da nascente classe dos usineiros que, no início do século XX, começou a expandir seus domínios e comprar muitas propriedades para a plantação da cana-de-açúcar em larga escala, para satisfazer a fome das usinas de açúcar, dizimando a cultura dos pequenos engenhos, que produziam o açúcar mascavo, a cachaça e a rapadura.

Felizmente, a Paraíba não teve o mesmo destino do vizinho estado de Pernambuco. A historiadora Maria de Lourdes Baptista Rodrigues, em seu trabalho, “Engenhos de Pernambuco”, nos esclarece que, neste Estado, entre o final do século XIX e início do século XX, os usineiros reduziram centenas dos pequenos engenhos a escombros, em favor das vastas plantações de cana, impondo, dessa forma, o domínio das usinas de açúcar sobre as antigas formas de produção.

Segundo Emília de Rodat Moreira, no estudo “Processo de Ocupação do Espaço Agrário Paraibano”, essa “proteção” do café também preservou a cultura da cachaça, da rapadura e do mel dos antigos engenhos, que coexistiam pacificamente com a cafeicultura.

Essa barreira protetora não foi totalmente efetiva, mas retardou em muito o império das usinas no Brejo paraibano, tanto é que, apenas em 1930, após o fim do ciclo do café, houve a implantação da primeira usina na região, a Usina Santa Maria. Isso deu tempo para o fortalecimento das pequenas propriedades e, apesar do fechamento de dezenas de engenhos, vários resistiram e sobreviveram.

Esses elementos históricos e a dinâmica dos ciclos e microciclos econômicos, experimentados na região, explicam o vigor e a diversidade hoje vivida pela indústria cachaceira do Brejo, se comparados com o desempenho de outas regiões da Paraíba e do restante do Nordeste.

Assim, Areia colocou o DNA da cachaça de forma definitiva no seu perfil econômico, o que a diferencia hoje de qualquer outra do Nordeste brasileiro.

Necessidade de unir forças

Em 2017, conforme o Censo Agropecuário, foram identificados 61 engenhos nas nove cidades do Brejo paraibano (entre os legalizados, os em fase de legalização e os clandestinos). Ao observar a falta de união entre produtores de cachaça do restante do Estado, os proprietários dos engenhos de Areia resolveram se unir, com o objetivo de buscar formas eficientes de agregar valor, poder de barganha e visibilidade às cachaças da região.

Thiago Baracho, Presidente da APCA – PB. (Foto: Engenho Triunfo)

Assim nasceu a Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA-PB), cujo presidente, Thiago Baracho, é, também, o responsável técnico da Cachaça Triunfo. “A proposta da associação baseia-se no esforço unificado de um grupo de produtores para alcançar benefícios comuns que atendam às demandas e necessidades do negócio da cachaça na região e da própria cidade de Areia”, explica Thiago.

APCA e a Indicação Geográfica

Areia é a quarta cidade do Brasil com maior número de estabelecimentos produtores de cachaça (Anuário da cachaça 2019). Para os especialistas, técnicos e degustadores, as cachaças produzidas na região do Brejo paraibano possuem características únicas, seja pelo clima e topografia (região de altitude média-alta, com clima variando entre 12°C e 31°C ao longo do ano), seja pelos elementos químicos e orgânicos que compõem o solo, ou ainda pela variedade de cana-de-açúcar ou mesmo pelos processos e peculiaridades na fabricação.

 

Outra característica diferenciada é a importância da cachaça como elemento sócio-cultural. A dinâmica de vida dos areienses, literalmente, sempre se entrecruza com a aguardente, nos mais diversos aspectos cotidianos. Tanto é que, na Paraíba, o fato de alguém dizer que vai visitar Areia, sempre traz o significado, nas entrelinhas, que essa pessoa vai beber ou comprar cachaça (e os pedidos de encomendas são inevitáveis). Areia tornou-se sinônimo de cachaça – da boa.

Tudo isso habilitou, os produtores de Areia, que pleiteassem uma Indicação Geográfica (IG) para as suas cachaças.

A IG é conferida a produtos que são característicos do seu local de origem, o que lhes atribui reputação, valor intrínseco e identidade própria, além de os distinguirem em relação aos seus similares disponíveis no mercado. São produtos que apresentam uma qualidade única em função de recursos naturais como solo, vegetação, clima e saber fazer (know-how ou savoir-faire). O Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi), órgão do Governo Federal, é o responsável por emitir os registros da IG. No Brasil, apenas três regiões possuem IG para a cachaça: Paraty (RJ), Salinas (MG) e Abaíra (BA).

Unindo forças

Thiago Baracho explica que a APCA foi fundada em 2017, tendo como um dos seus objetivos principais justamente o reconhecimento de uma Indicação Geográfica para a cachaça produzida exclusivamente na cidade de Areia, salientando sua diferenciação técnica, geográfica e sensorial das demais presentes no mercado.

Segundo ele, “na composição da associação estão dez engenhos: Aroma da Serra, Cristal de Areia, Elite, Ipueira, Matuta, Princesa do Brejo, Serra de Areia, Triunfo, Turmalina da Serra e Vitória. Todos registrados junto ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa)”.

O processo para que todos os requisitos do Inpi fossem atendidos demandaram mais de dois anos de trabalho, num esforço conjunto da APCA e do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Campus Areia.

Docente do IFPB, a pesquisadora Maria Cláudia Rodrigues Brandão (doutora em Ciências com habilitação em Química Orgânica) foi a responsável pelo desenvolvimento e adequação de toda a documentação referente ao pedido de IG, além de ter elaborado o levantamento histórico relativo à produção de cachaça na cidade.

A documentação será enviada ainda neste mês de dezembro para o Inpi. Serão necessários até sete meses para a conclusão de todo o processo. Isso nos faz crer que, em 2020, os produtores associados poderão ostentar nos rótulos de suas cachaças o selo de produto com Indicação Geográfica de Areia/PB, sendo a quarta região cachaceira do Brasil a conseguir tal feito e o segundo IG da Paraíba – o primeiro foi do algodão colorido, em 2012.

Dinamismo econômico

A produção cachaceira de Areia é responsável por uma grande parcela da produção da bebida no Estado; de fato, é a maior força econômica da cidade. Segundo dados da Receita Estadual, as cachaças da cidade respondem por 45% da arrecadação de ICMS sobre o produto na Paraíba e um dos associados, a Cachaça Matuta, figura entre os 100 maiores pagadores desse imposto no estado, ano de 2018.

Coleta da cachaça ao final da destilação (Foto: Maurício Carneiro)

De acordo com Thiago Baracho, os dez associados da APCA produziram cerca de 5 milhões de litros de cachaça na safra 2018/2019, aquecendo e sustentando a economia da região. Juntos, os engenhos ofertam 200 empregos diretos, número que sobe para 500 na época da safra, nas atividades de corte, moagem, destilação, engarrafamento etc. “Os empregos indiretos contabilizados chegam a mais de 2.000”, destaca o presidente da APCA.

 

O que muda com o selo de Indicação Geográfica?

Legalmente, o principal efeito do reconhecimento de uma Indicação Geográfica pelo Inpi é a não diluição do nome geográfico. Isso impede o seu uso por terceiros, como marca ou expressão de propaganda, bem como dificulta que o mesmo se torne nome comum e designativo da própria coisa. Por exemplo: o termo “carne de sol de Picuí” (produto evocativo de uma cidade paraibana famosa por sua carne de sol), que hoje é utilizado em todo o Brasil, consiste em uma designação genérica da carne de sol. Ou seja, Picuí perdeu sua identidade geográfica. O mesmo ocorre com a cachaça, produto genérico que pode ser fabricado em qualquer lugar do país.

Com a IG, o consumidor terá a certeza de que estará consumindo um produto específico e legítimo, produzido na Capital Nordestina da Cachaça (como sempre insisto em chamar): Areia/PB.

A IG poderá, ainda, ser utilizada pelos seus titulares como um instrumento de competitividade no mercado, estabelecendo estratégias coletivas de divulgação e controle, buscando a fidelização do consumidor e uma diferenciação ante os produtos similares.

 

Fórmula vencedora

Além de ser uma cidade com vários atrativos naturais e Patrimônio Histórico Cultural Nacional, Areia, com a IG, terá um maior vigor econômico, nos empreendimentos impulsionados pelo negócio da cachaça, tais como o turismo rural, turismo etílico, eventos, bares e restaurantes, empreendimentos imobiliários, hotelaria, dentre outros. Isso em decorrência de uma nova visão e comportamento do consumidor com relação à cachaça, visão esta que abrange não apenas o líquido em si, mas todo um conjunto de aspectos multifacetados.

Os novos consumidores da cachaça buscam mais que o simples líquido (Foto: Maurício Carneiro)

Observa-se que o consumo da cachaça caminha para a conjugação entre elementos de diferentes setores econômicos: a experiência sensorial proporcionada nas degustações, aliada à gastronomia local (possibilitando excelentes oportunidades de harmonização com a cozinha regional) e enriquecida pelo turismo nas localidades de produção das bebidas. Temos, assim, um ciclo virtuoso, onde todos ganham.

É importante salientar, ainda, um cuidado maior do consumidor, que, nessa busca por experiências sensoriais diferentes, e maior qualidade, passou a observar melhor e diferenciar as características da bebida, seus modos de preparo, a responsabilidade social de empresas e produtores e os aspectos relacionados aos cuidados com o meio-ambiente. Itens que os produtos e os produtores de Areia já atendem naturalmente.

A tudo isso podemos somar as qualidades únicas de Areia (seu clima, sua arquitetura, sua cultura, sua brejeirice) e teremos, ao final, uma fórmula vencedora, um verdadeiro caso de sucesso, cuja história eu me orgulho de estar agora, vivenciando, contando e propagando.

Um brinde à cachaça e ao povo de Areia!!!

3 comentários - Patrimônio Histórico, Areia busca selo de Indicação Geográfica para suas cachaças

  1. José Hilton Guedes Borges Disse:

    Parabéns

  2. Temos o privilégio de termos e. Nossa região do ABC Paraibano grandes história de engenhos com casarões belíssimos e produtos derivados da cana de açúcar que tem sido referência nacional por onde passa um dos destaques é a cachaça paraibana com destaque os municípios de Areia, Alagoa Grande e Bananeiras. Os empresários externo meu orgulho em ter pessoas empreendedoras em nossa terra.
    Abraço e a todos e pode contar conosco, pois através do Sebrae Paraíba poderemos apoiar todos vocês irem cada vezes mais longe.
    Avante!!!

  3. Fico orgulhoso por ser nordestino e areiense, parabens aos fabricantes da cachaca. Torcendo por muito por nossa terra.

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