Avanço da cana-de-açúcar na Amazônia pode gerar a “cachaça suja”

A plantação de cana-de-açúcar foi liberada nas regiões do Pantanal e amazônica.

A Região Norte do Brasil possui pouca tradição na produção de cachaças de qualidade, isso pela falta da cultura da cana-de-açúcar na região, pois esse tipo de plantio era proibido na região amazônica. Esse estado de coisas mudou na semana passada, quando o governo Bolsonaro revogou, um decreto que havia dez anos vetava a expansão canavieira na floresta amazônica e também no Pantanal. Esse pode ser um potencial problema para a indústria cachaceira do Brasil, haja vista que tal medida abre caminho, segundo pesquisadores, para mais desmatamento, desrespeito a direitos trabalhista, queimadas e conflitos por terra. Associar a cachaça a esse cenário é algo, no mínimo, preocupante.

Após a revogação ser assinada pelo presidente e pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura), a medida encontrou o apoio da União Nacional da Indústria da Cana de Açúcar (Única), que, em nota, elogiou a revogação e afirmou que hoje considera o decreto ultrapassado, “servindo apenas como mais um dos tantos arcabouços burocráticos brasileiros”.

Essa medida pode dar incentivo ao desmatamento e a outras transgressões, pois é possível que se gere um efeito cascata, onde a cana-de-açúcar tomaria o espaço das pastagens e forçaria as atividades agropecuárias a abrir novas fronteiras, o que agravaria os problemas de conflitos de terras, especulações imobiliárias, violência no campo, desrespeito a direitos trabalhistas e desmatamento.

“Pode haver uma corrida por aquisição de terras hoje cobertas com pastagens para plantar cana e isso empurraria a pecuária para as áreas onde ainda existem florestas”, afirma Mauro Armelin, diretor-executivo da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

Efeitos desastrosos

De acordo com a Única,o risco de o desmatamento se infiltrar floresta adentro é zero: “Desmatou, está fora do Renovabio“, afirmou em nota o presidente da associação, Evandro Gussi, se referindo à nova política de biocombustíveis que entra em vigor em 2020 e se baseia no desmatamento zero. Ele acredita que, com ela, o próprio setor se autorregulará porque suas vendas estão calcadas na sustentabilidade.

Segundo o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. “Se o setor fosse tão capaz de se autorregular e respeitar a lei, nós não teríamos visto o desmatamento explodir este ano (2019), com quase 10 mil quilômetros quadrados de desmatamento”

Rittl afirma, ainda, que não há necessidade de um único hectare de terra amazônica ou pantaneira para cana-de-açúcar, já que “o Brasil vem aumentando sua produção pela produtividade, pela intensificação e pelas novas tecnologias. Não precisa ampliar em milhões de hectares a área de plantio de uma cultura – o que vai trazer perdas tanto do ponto de vista da biodiversidade quanto em aspectos econômicos”.

Um fato muito provável é que essa nova fronteira agrícola enseje a introdução, nos biomas amazônico e pantaneiro, de variedades transgênicas de cana-de-açúcar. Existem muitas lacunas quanto aos potenciais efeitos sobre organismos que não são o alvo das toxinas da planta modificada geneticamente, aos animais e humanos que consumirem a cana in natura, e o risco de essas novas espécies virem a prevalecer sobre as espécies silvestres a partir dos cruzamentos entre ambas. Como a maioria das cachaças e o popular caldo de cana são obtidos com essas variedades silvestres, num cenário assim essas bebidas também poderiam vir a ser contaminadas.

Esse tipo de situação, em ambientes tão delicados, poderia trazer resultados desastrosos a esse biomas e sem precedentes no mundo.

Governo de Roraima vê medida como positiva

O secretário de Agricultura do Estado de Roraima, Emerson Baú, disse que o Governo do Estado vê com bons olhos o decreto assinado na sexta-feira passada e acredita que a cultura vai atrair novos investidores para Roraima. “Sempre acreditamos nessa cultura no lavrado roraimense. Quando foi definido que não seria aplicada a cana-de-açúcar na Amazônia não se olhou a biodiversidade da Amazônia, e a considerou como um único bioma, esquecendo que temos o Lavrado, onde podemos fazer um trabalho sem derrubada de floresta”, disse. “Isso permite ao Estado atrair novos investidores e agregar valores ao redor da cana-de-açúcar, com a produção de etanol, por exemplo”, afirmou.

Ele ressaltou que uma indústria de etanol de milho já está sendo instalada em Roraima e que esta mesma indústria pode fazer também a produção de etanol de cana de açúcar.

O superintendente da Secretaria Federal da Agricultura em Roraima (SFA/RR), Plácido Alves, disse que o órgão colaborou com uma nota técnica para os estudos que foram feitos de viabilidade da cultura em Roraima. Um dos pontos destacados por Plácido se refere ao fato de Roraima poder produzir sem haver a necessidade de devastar áreas de floresta.    “Como estamos passando por investimentos na matriz energética, trabalhamos para a possibilidade da produção de bioenergia de milho e agora também da cana-de-açúcar que vai contribuir para o aumento de produção de energia”, afirmou. Disse ainda que, “..entendemos que precisamos alavancar o setor sucroalcooleiro e energético no Estado e pedimos apoio do governador Antonio Denarium e da bancada federal para fazer frente a essa conquista. Houve dois pareceres favoráveis dentro desta nota técnica, um do Ministério da Agricultura e outro do Ministério da Economia, e conseguimos fazer com que o presidente Jair Bolsonaro assinasse o decreto que revoga o decreto anterior e permite financiamento para o setor da cana-de-açúcar.”

Cachaça suja

Dentre os produtores de cachaça consultados pelo Confraria do Copo, existe a convicção de que, com a liberação da cana-de-açúcar nas regiões amazônica e pantaneira, surgirão, além das usinas e álcool e açúcar, novos empreendimentos voltados à produção de cachaça. Este é um  cenário muito provável, pois a fabricação da cachaça é uma das atividades mais rentáveis do agronegócio brasileiro. Caso esses empreendimentos produzam a cana-de-açúcar em áreas de desmatamento, isso pesará contra toda a atividade cachaceira nacional, comprometendo a imagem do nosso destilado aqui dentro e lá fora e criando barreiras ao consumo interno e às exportações.

Esse cenário é muito preocupante, principalmente num momento em que a cachaça luta para se livrar de preconceitos seculares e criar um conceito de bebida premium, apostando fortemente na produção orgânica, na tecnologia e na conquista de mercados internacionais.

Um outro problema real é o pesado histórico de situações de trabalho análogo à escravidão, por variados motivos, entre eles a vastidão do território e as dificuldades de fiscalização. É o caso de usinas como a Gameleira (posteriormente Destilaria Araguaia), em Confresa (MT), e a Alcopan, de Poconé (MT), que se tornaram presenças habituais na chamada “lista suja” do trabalho escravo do governo federal.

Tudo o que a cachaça não precisa é ter sua imagem associada ao trabalho análogo à escravidão e ao desmatamento ou desrespeito às questões ambientais. É preciso que o setor fique atento e seja pró-ativo, impedindo, desde o nascedouro, que esse tipo de situação possa ocorrer, pois os efeitos deletérios serão enormes e de difícil correção.

Esperamos que estudos de viabilidade sejam feitos e que áreas específicas possam ser criadas para o desenvolvimento da cultura, sem alterar o já sensível equilíbrio ambiental e social da região.

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