Cana-de-açúcar transgênica já é uma realidade. Como isso afeta a cachaça?

Por Maurício Carneiro

Apesar das dúvidas e riscos, a CTNBio coloca no mercado uma variedade de cana aguardada por ruralistas e usineiros. Especialistas apontam falta de estudos sobre os impactos ambientais e à saúde.

Cana Bt

 

Plantas transgênicas têm ajudado a aumentar a produção nos campos brasileiros e no mundo. A primeira cana-de-açúcar geneticamente modificada e comercializada é de origem brasileira. A cana CTC 20 Bt foi desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e passou por avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que a considerou segura sob os aspectos ambiental, de saúde humana e animal. Sua aprovação ocorreu no segundo semestre de 2017 e a comercialização no início de 2019.  “A comercialização desta cana brasileira é um marco que reforça o potencial e a qualidade da pesquisa nacional e coloca o país na vanguarda das pesquisas com biotecnologia de plantas”, enfatiza o diretor de Etanol Celulósico e Assuntos Corporativos do CTC, Viler Janeiro.

A cana geneticamente modificada (GM) permite o controle mais eficiente e a redução das perdas em virtude do ataque de pragas, resultando em aumento de produtividade, redução de custo e melhoria da qualidade na indústria. O uso da cana transgênica ainda pode viabilizar a expansão da cultura em áreas onde a broca da cana é uma condição limitante, contribuindo para o aumento da competitividade do Brasil na produção de açúcar e etanol.

 

O que é a cana Bt

A cana Bt é a cana-de-açúcar que recebeu um gene da bactéria Bacillus thuringiensis. Daí a denominação Bt.

Esse microrganismo encontrado no solo produz proteínas inseticidas tóxicas para alguns insetos – tais como: borboletas e mariposas (Lepidoptera), moscas e mosquitos (Diptera), besouros (Coleoptera) e vespas, abelhas e formigas (Hymenoptera) – mas sem qualquer efeito sobre outros organismos e sobre o homem. Desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a variedade é resistente à broca-da-cana.

Segundo Viler Janeiro, o processo de introdução da nova variedade tem sido muito positivo, Desde outubro de 2017, cerca 400 hectares de mudas da variedade geneticamente modificada foram plantados nas principais usinas e fornecedores da região Centro-Sul do Brasil.

O diretor complementa que o crescimento da área com a CTC 20 Bt será gradual, uma vez que as novas plantas serão replantadas para expandir a área cultivada e não usadas para a produção de açúcar e etanol. “Este processo já ocorre na introdução de variedades convencionais e está alinhado com o cronograma de obtenção das aprovações internacionais do açúcar produzido a partir da cana geneticamente modificada”, explica.

Recentemente, a Health Canada, responsável por avaliar a segurança e o valor nutricional de alimentos no Canadá, aprovou o açúcar produzido a partir da CTC 20 Bt. Assim, de acordo com o órgão canadense, o açúcar proveniente da cana é tão seguro e nutritivo quanto os provenientes das variedades convencionais.

 

Pesquisas continuam

O Centro de Tecnologia Canavieira ainda continua as pesquisas. O CTC ainda deve disponibilizar para o mercado outras variedades transgênicas resistentes à broca, principal praga que ataca a cultura no Brasil e causa prejuízos estimados em R$ 5 bilhões anuais ao setor sucroenergético. Viler explica que adicionalmente, o Centro trabalha no desenvolvimento de variedades resistente ao Sphenophorus levis  – bicudo da cana-de-açúcar -, além de espécies tolerantes a herbicidas e com projetos de desenvolvimento de uma cana-de-açúcar tolerante à seca. “Esses produtos estão em diferentes estágios de pesquisa e passarão pelos processos aprovação, de acordo com a legislação vigente, tão logo cheguem nesta fase”, conclui.

Outra empresa focada no desenvolvimento da transgenia em cana de açúcar é a Embrapa Agroenergia. Atualmente quatro projetos merecem destaque e seguem a mesma linha do CTC. Iniciado em 2008, a Embrapa desenvolve a variedade tolerante a déficit hídrico, que já foi a campo em duas localidades para testes– em Quirinópolis (GO) e em Valparaiso (SP)-, com o objetivo de avaliar a performance agronômica e parâmetros fisiológicos em condições reais de campo. Em parceria com o CTC, o Centro Internacional Japonês para Pesquisas em Ciências Agrícolas (Jircas), a Embrapa Agroenergia avaliou o potencial com o gene de tolerância a seca na cana, que já foi testado em outras culturas de plantas, como soja, amendoim, trigo, arroz e outras.

Os resultados em situação real de campo mostrou que o material tem uma característica interessante, tanto para a tonelada de cana por hectare (TCH) quanto o açúcar (TPH). “Mesmo passando pela seca, essas materiais conseguiram manter o TCH e a o TPH, também houve manutenção da biomassa e do açúcar em ambos os locais”.

Próximas gerações de cana-de-açúcar transgênica

Após ter desenvolvido variedades de cana-de-açúcar transgênica resistentes à broca, cujo açúcar foi aprovado por organismos internacionais como o FDA, dos Estados Unidos, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) mira agora duas novas gerações da planta, uma delas com o objetivo de resistir a uma praga que gera prejuízos estimados em R$ 4 bilhões por safra ao setor sucroenergético.

O CTC iniciou a segunda geração dessas canas, que terá de 8 a 10 variedades, não só resistentes à broca (mariposa que se alimenta dos canaviais), mas também tolerantes a herbicidas.

E já projeta a terceira geração, ainda em fase preliminar, que tem como objetivo combater o besouro Sphenophorus levis, conhecido como bicudo, que causa danos na cana em desenvolvimento e reduz a vida útil dos canaviais.

“O besouro gera R$ 4 bilhões de prejuízo por safra e, se perguntar a qualquer usina, ela dirá que tem mais medo dele que da broca. A broca é homeopática, enquanto o Sphenophorus é uma pancada gigantesca onde atinge. Ou seja, ao mesmo tempo desenvolvemos variedades para inserir genes cada vez mais resistentes a doenças, para que possamos inserir nas melhores variedades possíveis”, diz o presidente do CTC, Gustavo Leite.

 

Falhas

Apesar da liberação, houve discordâncias de três entidades representadas. Os três votos contrários são de um representante do Ministério do Meio Ambiente e de especialistas em meio ambiente e agricultura familiar, que analisam os estudos apresentados pelo CTC desde o final de dezembro de 2015, quando foi protocolado o pedido de liberação. Eles chegaram à conclusão de que, a exemplo de todos os demais organismos geneticamente modificados (OGMs) aprovados na comissão, as pesquisas com a cana são cheias de falhas. E estão muito longe de atender às próprias regras do órgão criado para auxiliar o governo federal nas questões de biossegurança dos transgênicos.

No caso da cana, há lacunas quanto aos potenciais efeitos sobre organismos que não são o alvo das toxinas da planta modificada, aos animais e humanos que consumirem a cana in natura, e o risco de essas novas espécies virem a prevalecer sobre as espécies silvestres a partir dos cruzamentos entre ambas. Como a maioria das cachaças e o popular caldo de cana são obtidos com essas variedades silvestres, num cenário assim essas bebidas também poderiam vir a ser contaminadas.

Professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante da CTNBio, Valério De Patta Pillar apresentou parecer em que pede diligência da comissão para correção das deficiências em experimentos de avaliação do risco ambiental e ausência de testes estatísticos, de avaliações dos efeitos do consumo da variedade de cana de açúcar por animais domésticos e por humanos.

 

Movimento pela cachaça orgânica

Vários produtores do Brasil todo foram consultados por este colunista, nos grupos de debates e nenhum afirmou que utiliza ou pretende utilizar essa variedade de cana transgênica.  Pelo contrário, observamos uma tendência forte no posicionamento da cachaça orgânica.

Na contramão da transgenia, há um movimento crescente, entre os produtores de cachaça, pela produção orgânica. O diferencial da cachaça orgânica está no modo de produção, sendo que a bebida orgânica dispensa toda e qualquer interferência química em sua produção. A cana-de-açúcar deve ser produzida organicamente e, em determinadas regiões, o adubo utilizado na plantação de cana também deve ter como origem o gado orgânico.

A cana-de-açúcar deve ser colhida sem a prática de queimadas e, durante a fermentação, o uso do ácido sintético é substituído por suco de limão orgânico. Essas ações fazem com que a organicidade da bebida final seja 100%, produzindo uma cachaça orgânica e sustentável, enquanto suas concorrentes, carregam em suas composições, grandes quantidades de insumos e compostos químicos, extremamente prejudiciais à saúde.

cachaça orgânica : alambique de cobre

Benefícios

Ao consumir a cachaça orgânica você estará apoiando um sistema de cultivo orgânico no qual a sustentabilidade está sempre em primeiro lugar. Além disso, o consumo orgânico é ideal para quem busca uma alimentação saudável e livre de produtos químicos, onde os alimentos são ricos em nutrientes naturais e não há risco de surgimento de doenças ou complicações em longo prazo.

A cachaça orgânica também é mais saborosa e mais intensa que as demais cachaças, agradando paladares mais refinados e sendo uma excelente escolha para o uso culinário doméstico e em restaurantes.

Felizmente, por hora, a transgenia ainda não frequenta as doses da nossa querida cachaça.

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