Pesquisadora de Salinas comprova a existência do “terroir” da cachaça

Um dos temas mais debatidos no mundo da cachaça é a validade do uso do termo “terroir” para o nosso destilado.

Por Dirley Fernandes

Comum no universo do vinho e largamente utilizada por destilados europeus, a expressão é de uso corrente por muitos apreciadores da Cachaça, enquanto outros a rejeitam, sob o argumento de que o processo de destilação elimina traços de origem geográfica existentes na cachaça. Pois, no recente Seminário Mineiro da Cachaça, a engenheira de Alimentos Roberta Magalhães Dias Cardozo, do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), apresentou uma importante colaboração para o debate a respeito do terroir da cachaça. Com uma pesquisa muito bem fundamentada, utilizando quimiometria e redes neurais, entre outros recursos, a engenheira de alimentos chegou a uma espécie de “fórmula do terroir” (a definição é nossa) que pode ser utilizada para identificar a origem de uma determinada amostra de cachaça.

Antes de mais nada, é preciso uma definição do significado do termo terroir. E existe uma formulada pela ONU (e citada nesse artigo de Maurício Maia para a Cachaça em Revista, da Cúpula da Cachaça): “(Terroir) É uma área geográfica limitada onde uma comunidade cria e transmite, através das gerações, um grupo de características culturais distintas, conhecimentos e práticas baseadas nas interações de fatores ambientais, geográficos e humanos. A combinação de técnicas envolvidas neste processo confere originalidade, tipicidade e leva a uma notoriedade para seus produtos, originados nesta área geográfica e produzidos pelas pessoas que lá habitam (…) São entidades vivas e espaços inovadores que não podem ser reduzidos unicamente à sua tradição”.

Assim, esse editor sempre defendeu a existência e a importância do terroir da cachaça, tendo como base as técnicas de produção variadas em diferentes territórios do país – diferenciações essas que vêm de elementos da tradição, de condições climáticas próprias etc…

Muitos gatos mestres, no entanto, não aceitavam essa posição, sob o argumento de que era impossível definir, pelas suas propriedades químicas, a origem de uma determinada cachaça. Pois a professora Roberta defende que isso é perfeitamente possível e, em um estudo com mais de cem páginas, fruto de uma pesquisa de um ano e meio com cachaças oriundas de Salinas (MG) e Paraty (RJ), chegou a uma fórmula que, aplicada a qualquer cachaça das duas localidades, determina, com margem de erro mínima, se a origem da bebida é uma ou outra cidade. O método pode ser aplicado para outras regiões produtoras, desde que haja uma quantidade razoável de amostras para alimentar o sistema.

Roberta Cardozo, do IFNMG
Prof. Roberta Cardozo

O Devotos da Cachaça conversou com a professora, cuja apresentação foi um dos destaques entre as várias exposições de altíssimo nível do inovador II Seminário Mineiro da Cachaça.

Por que você resolveu se debruçar sobre esse tema das diferenciações regionais da Cachaça?

Tem esse “terroir da cachaça“, que sempre se fala em tantos seminários sobre a bebida… Mas o que diferencia, de fato, as localidades? Essa era a minha pergunta inicial. Tem o sensorial, perceptível para os conhecedores, mas isso não é determinante cientificamente; o que vai determinar uma possível diferença é a físico-química. E eu queria estudar algo diferente na área da Cachaça. Sou de Salinas, não é? Eu já tinha aplicado estatística multivariada ao queijo e ao café no meu mestrado, que é na área de estatística aplicada a alimentos e bebidas. Eu quis levar isso para a cachaça. Só que queijo e café são produtos muito mais padronizados que a cachaça. Mas justamente por ser mais complexo, eu resolvi tentar.

E por que Salinas e Paraty?

A gente considerou as localidades com Indicação Geográfica (IG) para cachaça, porque acreditamos que encontraríamos uma padronização maior. Precisávamos de um número de amostras considerável. Mas Abaíra (na Bahia, uma das três regiões com IG no Brasil) tinha poucos produtores que tinham aderido, de fato, à IG. Achávamos que Paraty tinha um número de produtores maior. Ficamos surpresos quando chegamos lá e só havia seis. Achávamos que seria um universo como Salinas (com quase cem marcas).

Isso não atrapalhou?

Nós conseguimos um número razoável de amostras, com diferentes lotes. Os produtores ficaram receosos, inicialmente, com temor de que a análise fosse usada para algum tipo de fiscalização… Chegamos a cerca de cinco dezenas de amostras em Paraty. Em Salinas, foi mais fácil.

O que te chamou a atenção inicialmente nessas amostras?

As diferenciações entre os lotes dos mesmos produtores. Não se consegue manter o padrão entre as safras. Mas juntamos uma base de dados interessante e começamos a aplicar as técnicas estatísticas: análise de fator, correlações canônicas, análise de agrupamento… São técnicas que subsidiam a rede neural, que é uma técnica computacional. Foi um trabalho de um ano e meio. Começamos analisando o cobre, mas encontramos amostras com padrões extremamente distintos.

Entendo. Aí, você partiu para outros parâmetros…

Sim, começamos a delinear vários parâmetros e fomos percebendo alguns padrões.Percebemos as variáveis… O primeiro parâmetro importante foi a acidez, que em grau mais alto está relacionada à cachaça de Salinas. Já os ésteres em maior quantidade estão relacionados à cachaça de Paraty. E veja: o solo de Salinas já tem uma acidez superior ao de Paraty. E há os álcoois superiores. Quando a gente faz a cromatografia, percebe alguns, que nem são frutos de nenhum tipo de regulação, que são marcadores importantes para as duas regiões.

Você falou de solo. Nada mais “terroir” que isso..

Sim. Se eu pegar a mesma espécie de cana que a gente usa em Salinas (MG) e plantar em Paraty não vai ser a mesma coisa. Se eu penso em fatores intrínsecos e extrínsecos à microbiologia, eu pego a mesma levedura aqui em Salinas e aí no Rio e ela não vai ter o mesmo comportamento. A temperatura interfere, a umidade… Por mais que eu use o mesmo microorganismo, aqui em Salinas é muito mais quente. Tem ainda a questão da água usada nas duas regiões.

A destilação não elimina diferenciações?

Os parâmetros que medimos foram com a cachaça pronta. Então, esse argumento vai por água abaixo. E temos que pensar que as cachaças não são, de modo geral, comercializadas após passar por barril. Há trocas químicas fantásticas com a madeira e com o ambiente já no momento seguinte após a destilação.

Se pegássemos num alambique em Salinas duas cachaças da mesma batelada e colocássemos em dois barris de bálsamo e deixássemos um por lá e levássemos o outro para Paraty, teríamos duas cachaças diferentes após um ano?

Seriam diferentes. A temperatura é diversa, os padrões de evaporação seriam outros… Os elementos se comportariam de modo diferente. No trabalho, a gente discute cada um desses parâmetros para que quem venha depois da gente possa seguir adiante. Mas temos base científica para dizer que existem padrões de diferenciação na cachaça de cada local e que essas diferenciações se estabelecem desde o plantio da cana ao envelhecimento.

A ‘fórmula do terroir’ no Seminário Mineiro da Cachaça

A fórmula que você apresentou no Seminário, se houver um número suficiente de amostras, pode ser usada para definir a origem da cachaça de todos os territórios?

Aquela fórmula te diria, com uma variabilidade entre 83% e 100% de certeza, que uma cachaça é de Salinas ou de Paraty. E se pode montar uma fórmula para qualquer outra região. A rede neural precisa ser treinada, mas vai conseguir aprender e dar uma resposta. Parece complicado, mas é relativamente simples. A estatística te dá informações muito generosas. E tem ainda muito pouca produção acadêmica sobre cachaça. Espero que outros pesquisadores avancem mais nesse tema.

Fonte: devotosdacachaca.com.br

João Pessoa ganha espaço de arte, cultura, lazer e cachaça

Por MAURÍCIO CARNEIRO

A Casa de Cultura Livre Olho d’Água, em Tambiá, é um espaço que agrega manifestações culturais com deliciosas cachaças paraibanas.

 

A Casa

Idealizada pelo casal Givanildo Silva e Larissa Arvelos, a Casa de Cultura Livre Olho D’água é um espaço de cultura, bar, petiscaria e cachaçaria, com a proposta de contribuir para valorizar as diversas manifestações artísticas e culturais da cidade de João Pessoa, além de aprimorar as relações humanas.

Foi com base nessas ideias e valores que o casal iniciou o projeto de estruturação do espaço, que tem como elemento motor as diversas formas de produção artística e cultural. Dividida em vários ambientes, são oferecidas músicas, saraus, teatro, cinema, exposições, encontros, rodas de conversas e debates. Com esta gama de atividades a Casa contribui fortemente com a ampliação e fortalecimento do acesso à cultura na cidade de João Pessoa.

Segundo Givanildo, “o nome Casa de Cultura Livre Olho D’água, foi criado com o propósito de fazer uma homenagem aos povos indígenas da região. Tambiá  vem do tupi Tambuja, que em português significa Olho D’água. Olho D’Água é o local onde brota a vida, é o local onde nascem as águas que possibilitam o florescer e a sobrevivência dos povos. Tambiá também é o nome do bairro que nos acolhe, por isso faz homenagem ao local onde estabelecemos e a esta terra que desenvolvemos nossos projetos”.

Givanildo complementa dizendo que “a incorporação da palavra Livre ao nome da casa diz respeito não apenas a uma valoração da liberdade enquanto um caminho a ser buscado na construção das relações em nossa sociedade. A palavra livre se relaciona a uma concepção de Casa de Cultura, que se constrói como espaço amplo onde as mais variadas manifestações artísticas podem se desenvolver. Estimulamos e respeitamos a pluralidade do pensamento e das formas de se fazer arte, sempre respeitando o que há de melhor nos valores humanos”.

 

A Cachaçaria

A Cachaçaria foi escolhida para ser a principal atividade econômica de manutenção do espaço. A carta de cachaças conta com 18 marcas, escolhidas dentre as mais representativas da produção cachaceira da Paraíba.

Além do produto em si, os degustadores das cachaças têm acesso às informações que lhes permitem conhecer as suas historias, origem, como são concebidas e produzidas, sua composição, teor alcoólico e o modo correto de beber. Desse modo, segundo Givanildo, “formamos verdadeiros apreciadores da bebida e lhes ofertamos uma experiência etílica completa”.

“Apesar de sermos os maiores consumidores da tradicional bebida brasileira, a cachaça, não a conhecemos em todas as suas nuances. Existe a necessidade de defender e melhorar o entendimento geral sobre ela, superando visões distorcidas e ultrapassadas. A Paraíba atualmente esta no topo da melhor produção da cachaça brasileira e uma das propostas da Casa de Cultura Livre Olho D’Água é se inserir nessa produção tradicional local, construindo e mantendo um espaço de referencia para a boa cachaça paraibana”.

Givanildo Silva

 

Rede Pessoense de Cultura

Além do projeto em si, o compromisso da Casa de Cultura Livre Olho d’Água com a cultura local também se observa na agregação solidária com outros espaços que também possuem o mesmo caráter cultural. Dentre outros, podemos citar:  “Cherinbom Comidas Regionais” que se situa no bairro dos Bancários; “Fruta Café Casa de Cultura”, no Castelo Branco e “Cafundó Casa de Cultura”, no Bessa.

O objetivo é fazer da construção da “Rede de Casas de Cultura Livre de João Pessoa” a consolidação de atividades alternativas de lazer na cidade, potencializando uma relação de troca e apoio mútuo, bem como uma ampliação do acesso à cultura por meio do fomento a diversas manifestações artísticas.

 

Cachaça e Atividades Culturais

Os proprietários entendem que a forma de relação com a bebida deve ser qualificada, por isso criaram um espaço de conversa permanente sobre a cachaça (Papo de Cachaça), com especialistas, produtores e pessoas interessadas em compreender melhor os atributos essenciais da bebida. Outra iniciativa para valorizar a bebida é entrecruzar algumas das atividades culturais com a referência da cachaça (Cachaça Filosófica, Cachaça Musicológica, Futebol e Birita e Cine Etílico), o que desperta também nos curiosos, o desejo de entender mais sobre ela.

 

Conheça a Casa de Cultura Livre Olho d’Água, participe das atividades e tenha o prazer de conhecer essas magníficas cachaças paraibanas.

Rua Deputado Barreto Sobrinho, 344 – Tambiá. O horário de funcionamento é de terça-feira a sábado, abrindo de terça a sexta 17h e aos sábados, varia conforme a atividade, abrindo as 15 ou 16h.

 

Cachaça paraibana premiada nos EUA será lançada em JP

 

Por MAURÍCIO CARNEIRO

A Cachaça Arretada Mandacaru conquista medalha de prata em concurso realizado em São Francisco, na Califórnia (EUA), e torna-se a primeira cachaça paraibana premiada internacionalmente.

Esta semana tive a satisfação e a honra de receber das mãos do Murilo Coelho, proprietário do Engenho Nobre, a unidade 02 da edição limitada de 1500 garrafas da maravilhosa cachaça Arretada Mandacaru, um incrível blend de carvalho francês com carvalho americano, envelhecida por dois anos.
Essa cachaça é, simplesmente, uma das melhores do Brasil. Prova disso é que conquistou a primeira premiação internacional de uma cachaça paraibana. Ela recebeu medalha de prata num dos maiores concursos de destilados dos EUA, a World Spirits Competition 2019 (SFWSC), em São Francisco, na Califórnia.

San Francisco World Spirits Competition

Iniciada  em 2000, a SFWSC é uma das competições mais antigas do gênero e das mais respeitadas dos Estados Unidos e do mundo. Com quase duas décadas de experiência, combina paixão e profissionalismo. Um dos fatores que fizeram com que a SFWSC se tornasse um dos eventos do gênero mais respeitados é o seu seleto corpo de jurados, formado pelos melhores chefs e degustadores, escolhidos através de rígidos critérios de seleção. Cada um com sua história distinta e um paladar extremamente aguçado.

Todo o processo de julgamento é realizado às cegas, o que garante  a integridade e a imparcialidade do concurso. Isso  assegura que cada bebida seja avaliada de forma individualizada, justa e com igual consideração.

Nessa competição de 2019 foram inscritos mais de 5.000 destilados do munto inteiro e a cachaça Arretada Mandacaru, do Engenho Nobre, obteve medalha de prata, no quesito “cachaça”. Isso a habilita a ostentar a medalha de premiação em seu rótulo, atestando sua excelência química e sensorial.

A medalha de prata confirma a qualidade superior da produção paraibana e eleva o nível do nosso destilado. Segundo o produtor Murilo Coelho, “a Paraíba, há muitos anos, é reconhecida como um centro de excelência na produção de cachaças brancas. Se nós fazemos tão boas cachaças brancas, por que não produzimos as envelhecidas com igual qualidade, já que a branca é a base da envelhecida?”.

Esse observação confirma uma tendência na produção estadual, pois, dentre as premiações de cachaças conquistadas pela Paraíba no ano de 2019, todas foram de cachaças que passaram por madeira.

A Cachaça

A Arretada Mandacaru, tem produção limitada de 1.500 garrafas. É uma cachaça envelhecida nas madeiras carvalho francês e americano. Isso lhe confere traços aromáticos suaves, baixíssima acidez e um toque especial das melhores bebidas premium.

“Essas madeiras enriquecem a bebida com novos componentes, agregando complexidade sensorial e permitem que reações físicas e químicas, específicas, aconteçam. Os barris de carvalho não só agregam aromas e taninos à cachaça, mas também, por conta de sua porosidade, permitem que a bebida respire, desenvolva-se e amadureça”, atesta Murilo Coelho.

A cachaça agrega todas as qualidades das duas madeiras, percebe-se, no nariz, a presença de amêndoas, coco intenso, baunilha e especiarias. Na boca, um aveludado ímpar, apesar de toda a potência dos seus 43% de teor alcoólico. No retrogosto traz o adocicado do carvalho  americano. O complemento fica por conta das notas finais de chocolate e baunilha,  que persistem por um longo período.

Uma ótima harmonização para essa cachaça é o café expresso e o chocolate meio amargo, por ser um meio termo entre o doce e o amargo. Eu a harmonizei com sorvete de chocolate e foi uma experiência incrível.

O lançamento

Como é muito comum no negócio das bebidas, os produtores procuram atestar a qualidade de suas criações em concursos nacionais e internacionais, antes de colocarem suas bebidas no mercado. Assim, agregam toda a força do marketing da premiação no lançamento, alavancando suas vendas e intensificando o reconhecimento da excelência da bebida. Isso foi o que fez Murilo.

A cachaça já estava engarrafada e pronta para ser comercializada, mas faltava o principal: a medalha. Após esperar várias semanas pelos selos oficiais da premiação no concurso, finalmente o público paraibano poderá conhecer e se deliciar com essa verdadeira joia da indústria da cachaça da Paraíba.

O lançamento oficial será na próxima quinta feira, dia 21 de novembro, na Casa de Cultura Livre Olho Dágua (R. Dep. Barreto Sobrinho, 344, Tambiá, J. Pessoa), às 20h, com entrada franca.

Além do conteúdo eu chamo atenção para o belo rótulo que estampa a garrafa, uma verdadeira obra de arte. Criação exclusiva da designer Valéria Antunes . A arte retrata de forma esplêndida todo o colorido de nossa nordestinidade, mais um atrativo dessa cachaça, que nos cativa pelo ofato, paladar e visão.

Na ocasião haverá uma apresentação da cachaça pelo Murilo Coelho e uma degustação para os presentes. Aconselho que os leitores não percam essa oportunidade de ter contato com a excelência da produção cachaceira da Paraíba e do Brasil.

Avanço da cana-de-açúcar na Amazônia pode gerar a “cachaça suja”

A plantação de cana-de-açúcar foi liberada nas regiões do Pantanal e amazônica.

A Região Norte do Brasil possui pouca tradição na produção de cachaças de qualidade, isso pela falta da cultura da cana-de-açúcar na região, pois esse tipo de plantio era proibido na região amazônica. Esse estado de coisas mudou na semana passada, quando o governo Bolsonaro revogou, um decreto que havia dez anos vetava a expansão canavieira na floresta amazônica e também no Pantanal. Esse pode ser um potencial problema para a indústria cachaceira do Brasil, haja vista que tal medida abre caminho, segundo pesquisadores, para mais desmatamento, desrespeito a direitos trabalhista, queimadas e conflitos por terra. Associar a cachaça a esse cenário é algo, no mínimo, preocupante.

Após a revogação ser assinada pelo presidente e pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura), a medida encontrou o apoio da União Nacional da Indústria da Cana de Açúcar (Única), que, em nota, elogiou a revogação e afirmou que hoje considera o decreto ultrapassado, “servindo apenas como mais um dos tantos arcabouços burocráticos brasileiros”.

Essa medida pode dar incentivo ao desmatamento e a outras transgressões, pois é possível que se gere um efeito cascata, onde a cana-de-açúcar tomaria o espaço das pastagens e forçaria as atividades agropecuárias a abrir novas fronteiras, o que agravaria os problemas de conflitos de terras, especulações imobiliárias, violência no campo, desrespeito a direitos trabalhistas e desmatamento.

“Pode haver uma corrida por aquisição de terras hoje cobertas com pastagens para plantar cana e isso empurraria a pecuária para as áreas onde ainda existem florestas”, afirma Mauro Armelin, diretor-executivo da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

Efeitos desastrosos

De acordo com a Única,o risco de o desmatamento se infiltrar floresta adentro é zero: “Desmatou, está fora do Renovabio“, afirmou em nota o presidente da associação, Evandro Gussi, se referindo à nova política de biocombustíveis que entra em vigor em 2020 e se baseia no desmatamento zero. Ele acredita que, com ela, o próprio setor se autorregulará porque suas vendas estão calcadas na sustentabilidade.

Segundo o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. “Se o setor fosse tão capaz de se autorregular e respeitar a lei, nós não teríamos visto o desmatamento explodir este ano (2019), com quase 10 mil quilômetros quadrados de desmatamento”

Rittl afirma, ainda, que não há necessidade de um único hectare de terra amazônica ou pantaneira para cana-de-açúcar, já que “o Brasil vem aumentando sua produção pela produtividade, pela intensificação e pelas novas tecnologias. Não precisa ampliar em milhões de hectares a área de plantio de uma cultura – o que vai trazer perdas tanto do ponto de vista da biodiversidade quanto em aspectos econômicos”.

Um fato muito provável é que essa nova fronteira agrícola enseje a introdução, nos biomas amazônico e pantaneiro, de variedades transgênicas de cana-de-açúcar. Existem muitas lacunas quanto aos potenciais efeitos sobre organismos que não são o alvo das toxinas da planta modificada geneticamente, aos animais e humanos que consumirem a cana in natura, e o risco de essas novas espécies virem a prevalecer sobre as espécies silvestres a partir dos cruzamentos entre ambas. Como a maioria das cachaças e o popular caldo de cana são obtidos com essas variedades silvestres, num cenário assim essas bebidas também poderiam vir a ser contaminadas.

Esse tipo de situação, em ambientes tão delicados, poderia trazer resultados desastrosos a esse biomas e sem precedentes no mundo.

Governo de Roraima vê medida como positiva

O secretário de Agricultura do Estado de Roraima, Emerson Baú, disse que o Governo do Estado vê com bons olhos o decreto assinado na sexta-feira passada e acredita que a cultura vai atrair novos investidores para Roraima. “Sempre acreditamos nessa cultura no lavrado roraimense. Quando foi definido que não seria aplicada a cana-de-açúcar na Amazônia não se olhou a biodiversidade da Amazônia, e a considerou como um único bioma, esquecendo que temos o Lavrado, onde podemos fazer um trabalho sem derrubada de floresta”, disse. “Isso permite ao Estado atrair novos investidores e agregar valores ao redor da cana-de-açúcar, com a produção de etanol, por exemplo”, afirmou.

Ele ressaltou que uma indústria de etanol de milho já está sendo instalada em Roraima e que esta mesma indústria pode fazer também a produção de etanol de cana de açúcar.

O superintendente da Secretaria Federal da Agricultura em Roraima (SFA/RR), Plácido Alves, disse que o órgão colaborou com uma nota técnica para os estudos que foram feitos de viabilidade da cultura em Roraima. Um dos pontos destacados por Plácido se refere ao fato de Roraima poder produzir sem haver a necessidade de devastar áreas de floresta.    “Como estamos passando por investimentos na matriz energética, trabalhamos para a possibilidade da produção de bioenergia de milho e agora também da cana-de-açúcar que vai contribuir para o aumento de produção de energia”, afirmou. Disse ainda que, “..entendemos que precisamos alavancar o setor sucroalcooleiro e energético no Estado e pedimos apoio do governador Antonio Denarium e da bancada federal para fazer frente a essa conquista. Houve dois pareceres favoráveis dentro desta nota técnica, um do Ministério da Agricultura e outro do Ministério da Economia, e conseguimos fazer com que o presidente Jair Bolsonaro assinasse o decreto que revoga o decreto anterior e permite financiamento para o setor da cana-de-açúcar.”

Cachaça suja

Dentre os produtores de cachaça consultados pelo Confraria do Copo, existe a convicção de que, com a liberação da cana-de-açúcar nas regiões amazônica e pantaneira, surgirão, além das usinas e álcool e açúcar, novos empreendimentos voltados à produção de cachaça. Este é um  cenário muito provável, pois a fabricação da cachaça é uma das atividades mais rentáveis do agronegócio brasileiro. Caso esses empreendimentos produzam a cana-de-açúcar em áreas de desmatamento, isso pesará contra toda a atividade cachaceira nacional, comprometendo a imagem do nosso destilado aqui dentro e lá fora e criando barreiras ao consumo interno e às exportações.

Esse cenário é muito preocupante, principalmente num momento em que a cachaça luta para se livrar de preconceitos seculares e criar um conceito de bebida premium, apostando fortemente na produção orgânica, na tecnologia e na conquista de mercados internacionais.

Um outro problema real é o pesado histórico de situações de trabalho análogo à escravidão, por variados motivos, entre eles a vastidão do território e as dificuldades de fiscalização. É o caso de usinas como a Gameleira (posteriormente Destilaria Araguaia), em Confresa (MT), e a Alcopan, de Poconé (MT), que se tornaram presenças habituais na chamada “lista suja” do trabalho escravo do governo federal.

Tudo o que a cachaça não precisa é ter sua imagem associada ao trabalho análogo à escravidão e ao desmatamento ou desrespeito às questões ambientais. É preciso que o setor fique atento e seja pró-ativo, impedindo, desde o nascedouro, que esse tipo de situação possa ocorrer, pois os efeitos deletérios serão enormes e de difícil correção.

Esperamos que estudos de viabilidade sejam feitos e que áreas específicas possam ser criadas para o desenvolvimento da cultura, sem alterar o já sensível equilíbrio ambiental e social da região.

Cana-de-açúcar transgênica já é uma realidade. Como isso afeta a cachaça?

Por Maurício Carneiro

Apesar das dúvidas e riscos, a CTNBio coloca no mercado uma variedade de cana aguardada por ruralistas e usineiros. Especialistas apontam falta de estudos sobre os impactos ambientais e à saúde.

Cana Bt

 

Plantas transgênicas têm ajudado a aumentar a produção nos campos brasileiros e no mundo. A primeira cana-de-açúcar geneticamente modificada e comercializada é de origem brasileira. A cana CTC 20 Bt foi desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e passou por avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que a considerou segura sob os aspectos ambiental, de saúde humana e animal. Sua aprovação ocorreu no segundo semestre de 2017 e a comercialização no início de 2019.  “A comercialização desta cana brasileira é um marco que reforça o potencial e a qualidade da pesquisa nacional e coloca o país na vanguarda das pesquisas com biotecnologia de plantas”, enfatiza o diretor de Etanol Celulósico e Assuntos Corporativos do CTC, Viler Janeiro.

A cana geneticamente modificada (GM) permite o controle mais eficiente e a redução das perdas em virtude do ataque de pragas, resultando em aumento de produtividade, redução de custo e melhoria da qualidade na indústria. O uso da cana transgênica ainda pode viabilizar a expansão da cultura em áreas onde a broca da cana é uma condição limitante, contribuindo para o aumento da competitividade do Brasil na produção de açúcar e etanol.

 

O que é a cana Bt

A cana Bt é a cana-de-açúcar que recebeu um gene da bactéria Bacillus thuringiensis. Daí a denominação Bt.

Esse microrganismo encontrado no solo produz proteínas inseticidas tóxicas para alguns insetos – tais como: borboletas e mariposas (Lepidoptera), moscas e mosquitos (Diptera), besouros (Coleoptera) e vespas, abelhas e formigas (Hymenoptera) – mas sem qualquer efeito sobre outros organismos e sobre o homem. Desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a variedade é resistente à broca-da-cana.

Segundo Viler Janeiro, o processo de introdução da nova variedade tem sido muito positivo, Desde outubro de 2017, cerca 400 hectares de mudas da variedade geneticamente modificada foram plantados nas principais usinas e fornecedores da região Centro-Sul do Brasil.

O diretor complementa que o crescimento da área com a CTC 20 Bt será gradual, uma vez que as novas plantas serão replantadas para expandir a área cultivada e não usadas para a produção de açúcar e etanol. “Este processo já ocorre na introdução de variedades convencionais e está alinhado com o cronograma de obtenção das aprovações internacionais do açúcar produzido a partir da cana geneticamente modificada”, explica.

Recentemente, a Health Canada, responsável por avaliar a segurança e o valor nutricional de alimentos no Canadá, aprovou o açúcar produzido a partir da CTC 20 Bt. Assim, de acordo com o órgão canadense, o açúcar proveniente da cana é tão seguro e nutritivo quanto os provenientes das variedades convencionais.

 

Pesquisas continuam

O Centro de Tecnologia Canavieira ainda continua as pesquisas. O CTC ainda deve disponibilizar para o mercado outras variedades transgênicas resistentes à broca, principal praga que ataca a cultura no Brasil e causa prejuízos estimados em R$ 5 bilhões anuais ao setor sucroenergético. Viler explica que adicionalmente, o Centro trabalha no desenvolvimento de variedades resistente ao Sphenophorus levis  – bicudo da cana-de-açúcar -, além de espécies tolerantes a herbicidas e com projetos de desenvolvimento de uma cana-de-açúcar tolerante à seca. “Esses produtos estão em diferentes estágios de pesquisa e passarão pelos processos aprovação, de acordo com a legislação vigente, tão logo cheguem nesta fase”, conclui.

Outra empresa focada no desenvolvimento da transgenia em cana de açúcar é a Embrapa Agroenergia. Atualmente quatro projetos merecem destaque e seguem a mesma linha do CTC. Iniciado em 2008, a Embrapa desenvolve a variedade tolerante a déficit hídrico, que já foi a campo em duas localidades para testes– em Quirinópolis (GO) e em Valparaiso (SP)-, com o objetivo de avaliar a performance agronômica e parâmetros fisiológicos em condições reais de campo. Em parceria com o CTC, o Centro Internacional Japonês para Pesquisas em Ciências Agrícolas (Jircas), a Embrapa Agroenergia avaliou o potencial com o gene de tolerância a seca na cana, que já foi testado em outras culturas de plantas, como soja, amendoim, trigo, arroz e outras.

Os resultados em situação real de campo mostrou que o material tem uma característica interessante, tanto para a tonelada de cana por hectare (TCH) quanto o açúcar (TPH). “Mesmo passando pela seca, essas materiais conseguiram manter o TCH e a o TPH, também houve manutenção da biomassa e do açúcar em ambos os locais”.

Próximas gerações de cana-de-açúcar transgênica

Após ter desenvolvido variedades de cana-de-açúcar transgênica resistentes à broca, cujo açúcar foi aprovado por organismos internacionais como o FDA, dos Estados Unidos, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) mira agora duas novas gerações da planta, uma delas com o objetivo de resistir a uma praga que gera prejuízos estimados em R$ 4 bilhões por safra ao setor sucroenergético.

O CTC iniciou a segunda geração dessas canas, que terá de 8 a 10 variedades, não só resistentes à broca (mariposa que se alimenta dos canaviais), mas também tolerantes a herbicidas.

E já projeta a terceira geração, ainda em fase preliminar, que tem como objetivo combater o besouro Sphenophorus levis, conhecido como bicudo, que causa danos na cana em desenvolvimento e reduz a vida útil dos canaviais.

“O besouro gera R$ 4 bilhões de prejuízo por safra e, se perguntar a qualquer usina, ela dirá que tem mais medo dele que da broca. A broca é homeopática, enquanto o Sphenophorus é uma pancada gigantesca onde atinge. Ou seja, ao mesmo tempo desenvolvemos variedades para inserir genes cada vez mais resistentes a doenças, para que possamos inserir nas melhores variedades possíveis”, diz o presidente do CTC, Gustavo Leite.

 

Falhas

Apesar da liberação, houve discordâncias de três entidades representadas. Os três votos contrários são de um representante do Ministério do Meio Ambiente e de especialistas em meio ambiente e agricultura familiar, que analisam os estudos apresentados pelo CTC desde o final de dezembro de 2015, quando foi protocolado o pedido de liberação. Eles chegaram à conclusão de que, a exemplo de todos os demais organismos geneticamente modificados (OGMs) aprovados na comissão, as pesquisas com a cana são cheias de falhas. E estão muito longe de atender às próprias regras do órgão criado para auxiliar o governo federal nas questões de biossegurança dos transgênicos.

No caso da cana, há lacunas quanto aos potenciais efeitos sobre organismos que não são o alvo das toxinas da planta modificada, aos animais e humanos que consumirem a cana in natura, e o risco de essas novas espécies virem a prevalecer sobre as espécies silvestres a partir dos cruzamentos entre ambas. Como a maioria das cachaças e o popular caldo de cana são obtidos com essas variedades silvestres, num cenário assim essas bebidas também poderiam vir a ser contaminadas.

Professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante da CTNBio, Valério De Patta Pillar apresentou parecer em que pede diligência da comissão para correção das deficiências em experimentos de avaliação do risco ambiental e ausência de testes estatísticos, de avaliações dos efeitos do consumo da variedade de cana de açúcar por animais domésticos e por humanos.

 

Movimento pela cachaça orgânica

Vários produtores do Brasil todo foram consultados por este colunista, nos grupos de debates e nenhum afirmou que utiliza ou pretende utilizar essa variedade de cana transgênica.  Pelo contrário, observamos uma tendência forte no posicionamento da cachaça orgânica.

Na contramão da transgenia, há um movimento crescente, entre os produtores de cachaça, pela produção orgânica. O diferencial da cachaça orgânica está no modo de produção, sendo que a bebida orgânica dispensa toda e qualquer interferência química em sua produção. A cana-de-açúcar deve ser produzida organicamente e, em determinadas regiões, o adubo utilizado na plantação de cana também deve ter como origem o gado orgânico.

A cana-de-açúcar deve ser colhida sem a prática de queimadas e, durante a fermentação, o uso do ácido sintético é substituído por suco de limão orgânico. Essas ações fazem com que a organicidade da bebida final seja 100%, produzindo uma cachaça orgânica e sustentável, enquanto suas concorrentes, carregam em suas composições, grandes quantidades de insumos e compostos químicos, extremamente prejudiciais à saúde.

cachaça orgânica : alambique de cobre

Benefícios

Ao consumir a cachaça orgânica você estará apoiando um sistema de cultivo orgânico no qual a sustentabilidade está sempre em primeiro lugar. Além disso, o consumo orgânico é ideal para quem busca uma alimentação saudável e livre de produtos químicos, onde os alimentos são ricos em nutrientes naturais e não há risco de surgimento de doenças ou complicações em longo prazo.

A cachaça orgânica também é mais saborosa e mais intensa que as demais cachaças, agradando paladares mais refinados e sendo uma excelente escolha para o uso culinário doméstico e em restaurantes.

Felizmente, por hora, a transgenia ainda não frequenta as doses da nossa querida cachaça.

IBGE: Brasil tem 11 mil locais de produção de cachaça e aguardente – 86% são ilegais

Dados do Censo Agropecuário, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 25 de outubro passado, dão um vislumbre do real tamanho da produção de cachaça e aguardente do país. Os pesquisadores que foram a campo no ano de 2017 encontraram 11.028 estabelecimentos rurais produzindo cachaça no país. Isso significa um número estável em relação aos 11.124 encontrados no levantamento anterior, realizado em 2006.

O número contrasta com os dados do Ministério da Agricultura, divulgados em maio, que indicam a existência de 1.497 produtores formais de cachaça no país.

Se desconsiderarmos que mais de um estabelecimento pode estar vinculado a um mesmo produtor – já que isso é exceção no setor –, a conclusão é que, levando-se em conta os números do IBGE, temos uma taxa de informalidade no setor da ordem de 86%, em termos de quantidade de produtores.

A se notar que não estamos falando de volume produzido – o que levaria essa taxa a uma grande redução. No entanto, também há que se considerar a subnotificação, que em casos como esse, pode ser bastante considerável.

Área das propriedades

Os dados – que mostraram um país com 5,07 milhões de estabelecimentos rurais – revelam também o tamanho das propriedades que produzem aguardente de cana – cachaça, inclusa. A minoria (4,3 mil) da produção de cachaça e aguardente é feita em estabelecimentos com área de menos de 10 hectares. Já 968 contam com área acima de 100 hectares.

cana-na-produçã--de-cachaçaO grosso da produção de cachaça e aguardente está em estabelecimentos com entre 10 e 100 hectares: são 5.698 unidades, equivalentes a 51% do total. São propriedades que podem se enquadrar como micro, pequenas ou médias, de acordo com o município em que se localizam, de acordo com os critérios do Incra.

No recorte por estado, chama a atenção alguns saltos em relação aos dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), constantes da publicação ‘A Cachaça no Brasil: Dados de Registro de Cachaças e Aguardentes’. Nessa relação – onde só estão os produtores devidamente legalizados -, o Maranhão aparece com menos de 20 produtores de cachaça e/ou aguardente. O censo encontrou nada menos que 496.

A Bahia é outro caso em que os números demonstram um grau de informalidade alarmante. O IBGE identificou nada menos que 2.890 estabelecimentos produzindo aguardente. Todavia, o estado tem,, segundo o Mapa, 30 produtores registrados de cachaça e 15 de aguardente.

O maior número de estabelecimentos produtores, claro, está em Minas Gerais. São 5.512, de acordo com o censo, sendo 1,9 mil localizados em propriedades com tamanho entre 20 e 100 hectares. Desses, menos de 600 estão devidamente legalizados.

Informalidade na produção de cachaça

Os números demonstram um quadro de competição predatória no setor de cachaça entre uma minoria que arca com uma carga tributária complexa e sufocante e uma maioria que segue trabalhando à margem da lei.

Também revelam que a figura do microprodutor familiar em um pequeno sítio como o retrato do produtor de cachaça informal é, no mínimo, apenas relativa. Existem 2,1 mil estabelecimentos com mais de 50 hectares produzindo aguardente – boa parte sem registro.

Para combater tal nível de informalidade, é preciso combinar três vetores. O primeiro são políticas de incentivo à formalização, com apoio de entidades empresariais e entes governamentais. O segundo é um trabalho de guerrilha pela conscientização de consumidores e comerciantes – o qual parece não surtir efeito, mas é, sim, efetivo a médio prazo. O terceiro, no entanto, é o mais importante: o reforço na ação fiscalizatória, sobretudo visando aqueles que não se formalizam simplesmente porque não querem.

Por Dirley Fernandes.