Produção de cachaça: uma das atividades mais rentáveis do agronegócio brasileiro

Produção de cachaça de alambique agrega maior valor ao produto final

Uma nova onda de consumidores mais exigentes e dispostos a pagar pela alta qualidade faz com que, dentre os empreendimentos agrícolas, a produção de cachaça desponte como um dos mais promissores.

 

Domínio dos pequenos

Bebida genuinamente nacional, a produção de aguardente e de cachaça no país está presente em mais de 800 municípios de 26 unidades da Federação, a exceção é Roraima. São 951 produtores de cachaça e 611 de aguardente registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que, somados, representam cerca de um quarto do total de produtores de todas as bebidas registradas e produzidas no país, que é de 6.362. Os dados, constam do estudo A Cachaça no Brasil – Dados de Registro de Cachaças e Aguardentes, lançado pelo ministério em maio passado. Segundo o anuário, mais de 95% desses produtores são micro e pequenos empreendedores, que têm na cachaça e na aguardente a sua fonte principal de renda.

Esta é a primeira vez que o ministério realiza um estudo sobre a produção destes destilados. O levantamento mostra que existem 3.648 cachaças e 1.862 aguardentes de cana registradas no ministério. A Região Sudeste aparece com a maior produção de cachaça, seguida da Região Nordeste e depois a Sul.

O diretor executivo do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), Carlos Lima, disse que o anuário representa um importante passo para o crescimento e o aprimoramento do segmento no país, uma vez que, a base da construção de políticas públicas é a existência de números oficiais e atualizados.

“A cadeia produtiva da cachaça é hoje responsável por empregar mais de 600 mil brasileiros. Tendo em vista a produção distribuída em 26 unidades da federação e a quantidade de produtores registrados, esperamos obter um maior apoio do governo brasileiro para que o desenvolvimento da categoria se dê de maneira sustentável nos próximos anos, contribuindo ainda mais para a geração de emprego e renda no país”, disse.

 A bebida nacional

cachaça é a segunda bebida alcoólica mais consumida no Brasil (perdendo apenas para a cerveja). Estimativas indicam que mais de 70 milhões de doses sejam consumidas diariamente, o que resulta numa cifra de aproximadamente 6 litros/habitante/ano. Esse consumo gera uma demanda real pelo produto e, consequentemente, a produção para suprir essa demanda é um importante segmento industrial e uma fonte geradora de empregos diretos e indiretos. Em razão de ser um produto de grande demanda, existem centenas de pequenos produtores informais espalhados pelo Brasil e outro número maior ainda  de comerciantes que compram essa produção e a distribuem junto ao mercado varejista.

Nesse processo  podem ocorrer diversos tipos de falhas , ou pelo desconhecimento da legislação, falta de fiscalização ou por simples má fé. Isso pode expor o consumidor a riscos à saúde. Nesse sentido, a cachaça clandestina é um elemento extremamente deletério, tanto à saúde do consumidor, como à leal concorrência com os produtores legais, que produzem, geram empregos e pagam seus impostos.

A cachaça de qualidade só é obtida se a sua cadeia produtiva conhecer, tecnicamente, o processo e o produto, ou seja, a qualidade é produzida com tecnologia, sobretudo com uma consciência de boas práticas produtivas dentre os membros dessa citada cadeia de produção. Trabalhando de modo clandestino, um produtor jamais atingirá um nível minimamente aceitável na qualidade do seu destilado.

A demanda crescente e contínua por cachaças de alta qualidade, orgânicas e diferenciados faz com que a sua produção esteja entre os empreendimentos agrícolas mais lucrativos e promissores, mas, para isso, se faz necessário que o produtor tenha domínio sobre as técnicas de produção da cachaça de qualidade. Abrindo mão dessa premissa básica o empreendedor estará fadado a ser apenas “mais um” no mercado, disputando espaço e centavos com milhares de outros clandestinos.

É sabido que as atividades de produção primária, isto é, de matéria-prima apenas, apresentam tradicionalmente baixa taxa de retorno. Isso ocorre no mundo todo. A cachaça tem valor agregado já no engenho, uma vez que já está pronta para o consumo, podendo ainda ir direto do fabricante para o mercado varejista, eliminando, portanto, serviços intermediários de comercialização, com consequente melhor remuneração para o fabricante. Alguns alambique fazem a venda direta ao consumidor, através de lojas instaladas dentro das propriedades dos engenhos ou em ambientes online, o que aumenta ainda mais a lucratividade do negócio.

O empreendimento associa a produção primária (a cana-de-açúcar), a industrialização (a aguardente) e a comercialização pelo próprio produtor da cachaça.

Novos consumidores

O mercado para aguardente engarrafada se divide nos segmentos populares e premium. O maior consumo de cachaça encontra-se nas classes C e D, referindo-se às aguardentes industriais, produzidas nas grandes empresas, que comercializam a bebida com embalagens e preços populares.

Mercado foca no segmento de cachaças premium

Para os especialistas, o aumento do poder de compra impulsionado pelo Plano Real, fez com que parte dos consumidores das classes C e D migrassem para a cachaça e outros destilados de preço mais elevado, como as de alambique. Adicionalmente, existe uma tendência nas classes A e B do consumo de cachaças de alta qualidade, especialmente as com embalagens sofisticadas.

Com o objetivo de atingir nichos de mercado, muitas empresas, especialmente as de alambique, também conhecidas como artesanais, desenvolvem embalagens diferenciadas, que têm contribuído para melhorar a imagem e expandir o mercado. As novas “roupagens” abandonaram a aparência pitoresca e agora apresentam projetos mais elaborados, em estilos sofisticados.

“Para aqueles que querem investir no mercado da Cachaça, o desafio será grande para atender aos nichos de consumo. Na produção é necessário planejamento e um olhar voltado para três pilares: alta qualidade do produto, processo de envelhecimento e embalagens diferenciadas. Sem esquecer que após essa etapa, outra grande barreira é a comercialização do produto, pois os canais de distribuição são restritos. Sem isso, a concorrência no mercado interno ou externo se torna esmagadora”, conta o presidente da Confraria Paulista da Cachaça, Alexandre Bertin.

O envelhecimento da bebida é uma prática que agrega cores, sabores e aromas diferenciados. São utilizados barris de madeiras nativas, que possibilitam a modulação e caracterização da cachaça envelhecida, permitem elaboração de blends de duas ou mais espécies e aumentam a complexidade aromática da bebida. O uso de madeiras nacionais e seus blends dão originalidade à cachaça com atributos de sabores únicos e reconhecíveis.

Qualidade e profissionalização

A cachaça feita em alambiques de cobre, como falamos acima, tem mais apelo comercial para o consumidor, sendo esse o campo em que os pequenos e médios produtores podem ter maior chance na competição com o chamado produto industrial. Para isso, entretanto, ele deverá se esmerar na qualidade de seu produto, melhorando a maneira de processar a bebida e conhecendo melhor o que é qualidade de cachaça. Além disso a apresentação, garrafas e rotulagem devem ser pontos de atenção.

A Paraíba desponta como um centro de excelência na produção de cachaças de qualidade

Pequenos e médios fabricantes artesanais, mesmo na atividade de reduzida produção, não poderão se manter no mercado como amadores.

A demanda por qualidade e a pressão por qualificação, são elementos de pressão (no mercado e na política). Esse negócio tradicional (o produto artesanal) está, ou estará, sob risco de extinção, por conta da crescente fiscalização estatal, da concorrência legal ou da baixa qualidade do seu produto.

Faz-se necessário que se profissionalize todos os atores da cadeia produtiva da cachaça.

O produtor deverá se ocupar em conhecer índices de produtividade da matéria-prima; a eficácia na extração do caldo na moenda;o monitoramento da fermentação e da destilação; conhecer os índices de rendimento em seu processo produtivo e quais os fatores que os afetam.

Só conhecendo e dominando as variáveis citadas, seré possível administrar a produção e controlar a qualidade do produto.

No que toca ao comerciante, este terá que ter, dentre as suas premissas, a compra de produto legalizado, “pejotizado” e legalizado no MAPA.

Em suma: o produtor de cachaça de alambique precisa de profissionalização e de esmero em sua qualidade para vender para um novo mercado que está sendo formado, que, embora mais exigente do que o popular, premia a qualidade, pagando um preço mais elevado pela qualidade.

Formalizar setor

Para o presidente da Confederação Nacional da Pecuária e Agricultura (CNA), João Martins, há necessidade de maior conscientização dos produtores, dos comerciantes e dos consumidores quanto aos riscos de utilização de um produto inadequado para o consumo humano.

Contrarrótulo da garrafa de uma empresa formalizada

Um dos problemas básicos para o desenvolvimento do setor da cachaça é a necessidade de formalização dos produtores clandestinos, pois o mercado é fortemente marcado por pequenos produtores ainda sem registro no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Martins acredita que essas medidas podem alavancar o consumo da cachaça brasileira que, segundo ele, é exportado para mais de 60 países, gerando receitas em torno de US$ 14 milhões anuais.

“A maioria dos produtores estão na informalidade e é formada de pequeno e microempresários. Para aumentar a competitividade do setor é preciso desenvolver políticas públicas e iniciativas por parte do setor privado, voltados para formalização dessa cadeia produtiva”, disse.

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