Cachaça: breve história da ascensão do destilado nacional

Início Difícil

Apesar de ser tão antiga quanto o próprio Brasil, a cachaça nunca foi aceita pelas velhas elites brasileiras. Desde o início a cachaça sempre foi associada ao povão, às classes menos favorecidas. A partir de 1850, com o declínio do trabalho escravo e a intensificação econômica do café, surge no Brasil a elite dos Barões do Café, mais identificados com a cultura e hábitos europeus. Nesse cenário o padrão era: filhos educados na Europa; uso do fraque, bengala e cartola; a bebida era o puro malte escocês e cachaça era coisa de pobres e abrutalhados, pessoas incultas e de negros. Por muitos anos, esse era o padrão de sucesso nos negócios e na vida, admirado, invejado e copiado por todos.

Mas, de fato, nos anos pré-abolição, muita gente perambulava pelas ruas das cidades pedindo esmolas para comprar cachaça. Isso se agravou  depois da bem intencionada e mal planejada “Abolição dos Escravos”. Os negros escravos, de uma pra outra se viram sem trabalho, sem moradia, sem comida e sem as mínimas condições de subsistência. A partir de então, a cachaça viveu seus momentos mais tristes, servindo de refúgio para amenizar as dores da miséria e da fome. Aí começa a decadência da cachaça, que passa a ser vista como algo indesejado, como uma bebida de “pinguços”, desocupados e “cachaceiros” e esses termos pejorativos até hoje, denigrem a sua imagem.

 

A Semana de 22

O primeiro grande evento de resgate da cachaça, como uma bebida que merece respeito, foi a Semana de Arte Moderna de 1922, que buscava uma nova visão de pais e a apresentação de uma arte “mais brasileira”.

Nesse evento, estavam presentes os grandes nomes das nossas artes, como Tarsila do Amaral, Vila Lobos, Di Cavalcanti, Mário de Andrade. Mário de Andrade até apresentou uma obra chamada Eufemismos da Cachaça. Nesse evento, foi proibido servir outra bebida que não fosse cachaça, dizem que essa turma ficava de porre todo dia.

Início da Virada

Mas a cachaça continuou seu rumo, amada e odiada. Mas ali pelos anos 1940-1950 com o fim dos engenhos de açúcar mascavo, que foram obrigados a fechar por conta das emergentes usinas, que produziam o açúcar refinado branco em larga escala, várias propriedades ficaram de “Fogo Morto”, como diz no título do livro de José Lins do Rego. Muitos fecharam e os sobreviventes tiveram que se reinventar e focar sua produção na cachaça.

Mas, grande virada só começou mesmo por volta de 1995, 1996, onde, por pressão de produtores e por vontade política, o Governo de Fernando Henrique Cardoso começou a produzir as primeiras portarias e instruções normativas sobre a cachaça.  Só então é que foram definidas as regulamentações técnicas de fabricação, os procedimentos de registro de produtores, a classificação e rotulagem e os processos de fiscalização.

No bojo de tudo isso, veio também a melhoria de qualidade da bebida, a profissionalização da cadeia produtiva e um movimento forte de melhoria da imagem e da identidade da cachaça, isso através da mudança de rotulagem e das garrafas. Tirando a associação de deboche, embriaguez, desordem e bebida de pobre e colocando no lugar rótulos e nomes mais adequados a um novo público.  Um caso típico é o da cachaça Volúpia, que tinha no antigo rótulo um apelo muito sensual, era uma mulher seminua, com seios á mostra, uma exploração bem evidente do corpo feminino. Aí  mantiveram o nome, mas recriaram o rótulo, muito sofisticado e a bebida vem em lindas garrafas de porcelana, muito bonitas inclusive como itens de presente.

Os Desafios Atuais

O segmento teve avanços significativos nos últimos vinte anos. No entanto, há obstáculos a serem vencidos para que a cachaça alcance seu merecido lugar de destaque entre outros destilados do mundo, é preciso revisar a carga tributária incidente sobre a bebida, de acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), a cachaça é um dos produtos campeões de tributos do País: as taxas representam 81,87% do preço do líquido. Além de atrapalhar a progressão do setor, os tributos fomentam a informalidade – um problema de saúde pública. Dados preliminares do Censo Agropecuário 2017 revelam a existência de 11 mil produtores de aguardente de cana-de-açúcar no País.  Porém, somente 1,5 mil são registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O ministério tem somente um fiscal para cada 97 estabelecimentos. Como os agentes trabalham em dupla, a proporção sobe para 194 produtores por fiscal. É pouco!

Outra barreira a ser ultrapassada é o preconceito, mas isso já foi muito maior e em favor do segmento pesa o fato de as cachaças hoje terem muito mais qualidade. Há um aprimoramento nas embalagens e nos líquidos. Muitos consumidores brasileiros estão aprendendo a apreciar cachaças de qualidade. Bares e restaurantes finos oferecem carta de cachaça, o que não existia há 20 anos. Nesse sentido, o setor está em sintonia com a tendência mundial de beber menos quantidade e mais qualidade.