Aguardente clandestina: um problema de economia e saúde pública

Bebidas clandestinas inundam o mercado, impactam na economia e denigrem o nome da cachaça de qualidade

O alquimista suíço do século XVI Paracelso disse que:

Se não respeitadas as proporções, todas as substâncias são venenos, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio.

O que vemos hoje é que há muito veneno em potencial sendo vendido por aí sob o nome de “cachaça”. O problema é muito sério, pois vai além da “tradição” e das eventuais piadas de mau gosto estampadas em rótulos de bebidas questionáveis.  Embora seja uma missão espinhosa, alertar para esse fato, informar e denunciar é obrigação de todos que lidam com essa bebida e deveria ser, também, preocupação das autoridades constituídas, pois essa é, principalmente, uma questão de saúde pública.

 Alambique clandestino de fundo de quintal encontrado por fiscais do Ministério da Agricultura no interior de São Paulo em 2019.

A clandestinidade é um problema grave no setor de cachaças, certamente o maior deles. Tem fundo econômico, mas também cultural.  Até uns 25 anos atrás, era comum se ouvir dizer: “Cachaça de verdade quanto mais artesanal melhor”. Sem rótulo, enrolada na folha da bananeira, dentro na garrafa pet de refrigerante, tampa de rolha, com “bagacinhos” de cana boiando dentro. Era essa a cara da  tradicional cachaça de qualidade na época, sobretudo nas regiões interioranas do País.

Veneno oculto

Felizmente, e para  sorte da própria cachaça, esse cenário de informalidade mudou muito hoje, mas essa “cultura” ainda é presente no imaginário de muitos, principalmente das pessoas com menor acesso à informação. Nós, que estamos inseridos na cadeia produtiva da cachaça, como consumidores, produtores, comerciantes, blogueiros, etc., é que precisamos valorizar o que realmente tem valor. A informação é o diferencial.

A cachaça é produto de um manejo químico onde são encontrados elementos como etanol, metanol, ácidos, metais pesados, enfim, centenas de componentes. Muitos são desejáveis e não oferecem risco à saúde, até um certo limite, mas são prejudiciais ao organismo quando passam desse limite.

O cobre, por exemplo, presente nas famosas canas de cabeça, pode inviabilizar o funcionamento de rins e fígado, causando a cirrose hepática. Então, parafraseando Paracelso, tudo o que é demais é veneno, principalmente quando não sabemos a quantidade do “veneno” que estamos ingerindo.

Saiba o que você está bebendo

Da cana de açúcar, se extrai o açúcar e o metanol (álcool veicular); em excesso, um engorda e  causa diabetes, e o outro pode deixar sequelas como a  cegueira e até levar à morte. A cachaça tem os dois, mas se o produto tem registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), esses elementos são monitorados e controlados, ficando dentro dos limites considerados seguros para a saúde humana.

Isso não ocorre com a aguardente produzida e comercializada clandestinamente. É uma bebida que não paga imposto, não passa por inspeção, não tem garantia de procedência, além de concorrer de forma desleal com os produtores legalmente estabelecidos.

As famosas “canas de cabeça”, as “canas brejeiras” e as bebidas clandestinas metidas a engraçadinhas ocultam dentro de si verdadeiras bombas químicas. Essas aguardentes não passam por qualquer nível de fiscalização sanitária. O líquido dentro das garrafas, quimicamente falando, é um mistério que nem o  próprio fabricante conhece. É um risco enorme que não vale a pena correr.

 Sem fiscalização é comum a venda de aguardente clandestina, abertamente, em feiras livres Brasil afora (garrafa pet de 1,5 l, valor: R$ 5,00).

Se não tem rótulo nem registro no Mapa, não beba, não dê de presente (nem por brincadeira), não compre e nem permita que bebam.

Mais fiscalização

Existem estimativas sobre o nível de clandestinidade do setor de cachaças. Embora todos sejam absolutamente chutados, é certo que o volume passa da metade do que é legalmente comercializado. Em 2018, o Brasil produziu 1,2 bilhão de litros de cachaça legalmente. Decerto que outros 600 milhões de litros, no mínimo, foram vendidos de forma criminosa no mesmo período. Culpa de quem produz, culpa do governo que não fiscaliza, culpa de quem vende e, principalmente, culpa de quem consome.

Infelizmente, ainda é muito comum encontramos produtos vendidos sem o menor respeito às regras da legalidade e de respeito ao bom nome de uma bebida que é patrimônio nacional. Um trabalho de desvalorização que vai contra esforços descomunais de muita gente esforçada. Uma coleção dessas tristes imagens vai no fim da postagem.

Os produtores que trabalham de forma correta, em conformidade com as boas práticas de fabricação e aos princípios de respeito ao consumidor, clamam por maior fiscalização. Há que se fazer valer o poder de polícia das entidades responsáveis, pois só assim se criará uma concorrência salutar no mercado, a expansão dos negócios e, sobretudo, a geração de renda, emprego e dignidade a todos os que fazem parte do negócio da cachaça.

Lutemos pela valorização da cachaça e passemos a repudiar coisas e cenas como as que se seguem:

 

Mau gosto em série

 

Coisificação do corpo da mulher

 

É impressionante que tem gente capaz de comprar algo tão grotesco.

 

Senso de humor altamente questionável

 

A comunidade LGBT não merece algo tão bizarro.

2 comentários - Aguardente clandestina: um problema de economia e saúde pública

  1. João Lins - Juazeiro-Ba Disse:

    Excelente Matéria Maurício,realmente é um problema muito sério. Parabéns pelo esclarecimento.

  2. Regeane Trindade Disse:

    Maurício!
    Parabéns pela brilhante reportagem. Muito pertinente sua abordagem a respeito do alerta ao público, seja o consumidor ou em geral, do produto em questão “artesanal” onde além do alto índice de toxicidade, proveniente da sua baixa qualidade na fabricação,feri direitos humanos com propagandas desrespeitosas.
    Faz seu público leitor e admirador desta iguaria, perpetuar a ideia certa de consumo consciente também aos adictos de seu entorno tanto familiar quanto social.

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